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O pesadelo das finanças sem freios

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Os mercados pressionaram os Estados por anos, para se tornarem cada vez mais "livres" de limites e regulamentações. Embriagados por seu próprio poder e riqueza, criaram a pirâmide de dívidas que agora ameaça desabar. Mas há alternativas para um sistema de crédito sustentável e socialmente útil

Frédéric Lordon - (24/03/2008)

Quando notícias normalmente tidas como boas passam a ser interpretadas como péssimas, a gravidade da crise fica clara. O FED (Federal Reserve, banco central norte-americano) reduz cada vez mais a taxa de juros? Nunca é o bastante. Anuncia, em 12 de dezembro último, de comum acordo com outros grandes bancos centrais, uma ampliação espantosa de seus procedimentos de refinanciamento [1]? É porque a situação tornou-se bem mais grave que se imaginava. Seu presidente, Ben Bernanke, numa atitude sem precedentes, defende, em 17 de janeiro, a ampliação dos incentivos orçamentários? Só pode ser porque, tendo esgotado suas margens de manobra, não vê outro recurso senão pedir ao Estado para tomar iniciativas. Como isso era apenas o primeiro ato de uma comédia mal-encenada, eis que George W. Bush anuncia, logo no dia seguinte, um pacote de incentivos quase perfeitamente ajustado às “sugestões” do banqueiro central. Se os dois chegaram ao ponto de coordenar tal esquete burlesco, é porque as coisas realmente são graves... Tamanha ineficácia das medidas clássicas constitui o sinal mais espetacular, e mais preocupante, de como é profunda a confusão em que se encontra o mundo das finanças, que já não responde às orientações da política monetária, a não ser de maneira errática.

A crônica cotidiana das movimentações nos mercados financeiros, que de outra forma estaria fadada a permanecer incompreensível, ou dissolvida no caos das notícias despejadas pelas agências de informação, só passa a fazer sentido quando inserida em uma perspectiva de médio prazo, que confere à crise seu perfil característico e sua real extensão temporal. Os amigos do sistema, que se apressaram em garantir a inocuidade de uma crise tida como desprezível, e anunciaram a iminência do retorno à ordem, sem dúvida vão ficar decepcionados: os seus escritos permanecem… mas as turbulências também.

Há boas razões para a crise persistir e se ampliar. Para imaginar que o episódio seria solucionado com facilidade, como se fosse uma insignificante anomalia de mercado, teríamos que esquecer a gravidade do fato que o gerou: o aliciamento delirante de multidões de famílias inadimplentes para contraírem a mais pesada de todas as formas de dívida, o empréstimo hipotecário. Por efeito de uma reviravolta, que parece ter sido gerada por uma justiça imanente, a cláusula do reset [2], que serviu para atrair maciçamente os clientes (e provocou uma disparada dos preços do setor imobiliário, que alcançaram valores recordes, da mesma forma que os ganhos especulativos obtidos com os derivativos), tornou-se uma maldição no mundo das finanças. Este, que tanto gosta de viver na instantaneidade, está agora obrigado a lidar com um “atrasado” de famílias endividadas, do qual é impossível se livrar. O pico dos resets, ou seja, dos reajustes de taxas de juros que jogam as famílias na inadimplência, deverá chegar em março-abril de 2008.

Supondo — hipótese favorável — que a sedução dos candidatos ao crédito tenha sido suspensa no início de 2007, será preciso esperar até o início de 2009 para que termine a emergência dos falidos potenciais, cuja situação não apresentaria absolutamente nenhum interesse para o mundo das finanças se suas derrocadas vulgares não fossem a origem do desmoronamento dos produtos especulativos derivados de seus créditos imobiliários (definitivamente, os pobres não sabem estar à altura da criatividade dos ricos...). O mundo das finanças, que gosta acima de tudo da liquidez dos fluxos de dinheiro, está redescobrindo a inércia dos estoques: todas as pessoas que ele tratou como “carne para canhão” hipotecária nada mais são agora do que obstáculos incômodos.

A esta altura, a saída da crise está cada vez menos na ordem do dia. A dinâmica do desmoronamento financeiro começou a espalhar seus efeitos mais tóxicos

Enquanto isso, a quebradeira geral vai se ampliando. Ela atinge uma categoria de protagonistas da qual ninguém havia ouvido falar até então: as monolines, instituições especializadas que seguram os detentores de carteiras de obrigações (em geral, fundos de investimentos ou bancos). A princípio, dedicavam-se, sossegadamente, a cobrir os riscos simples das obrigações municipais nos Estados Unidos — por meio das quais, os governos locais têm a possibilidade de financiar suas atividades, emitindo títulos nos mercados. Mas, assim como aconteceu com todos, estas instituições foram tomadas pela febre e viram-se tentadas a segurar produtos mais atraentes, cujo volume, em plena expansão, garantia um faturamento polpudo, e que todo mundo gostava de considerar como pouco arriscados: os derivados de subprimes, obviamente!

Quem se surpreenderá com o que aconteceu em seguida? As duas monolines mais importantes, a MBIA e a Ambac, estão em quase-falência. Bancos e fundos são instados a recapitalizá-las em regime de emergência. O caso está longe de ser apenas anedótico, uma vez que os bancos haviam colocado no seguro seus colossais volumes de produtos derivados, e a degradação da contabilidade das seguradoras monoline obriga a revisão da contabilidade de todos os títulos que elas seguravam, cujo valor, tal como está estipulado nos balanços de seus clientes, deverá ser revisto para baixo.

A esta altura, a saída da crise está cada vez menos na ordem do dia, pois a dinâmica do desmoronamento financeiro começou a difundir seus efeitos mais tóxicos. A deterioração dos balanços dos bancos, em conseqüência das perdas com os derivados de subprime, e as tensões que persistem sobre a liquidez interbancária, em razão da extrema incerteza que motiva todos eles a se enxergarem uns aos outros como contaminados potenciais, resultam fatalmente numa contração do crédito, da qual a economia produtiva, por mais distante que esteja das peripécias especulativas, acabará padecendo. Por causa de sua resistência em reconhecer os fatos, comparável apenas à dos intelectuais orgânicos do liberalismo, as instituições financeiras demoraram mais de seis meses até se renderem à idéia de uma iminente redução do ritmo do crescimento, e possivelmente de uma recessão.

Ora, o crescimento da idéia da recessão vem alterar muitas coisas, principalmente no que diz respeito à ampliação do campo financeiro, ameaçado pela desestabilização. Os abalos mais violentos dos mercados de ações, no começo de 2008, constituem uma prova disso. Não que eles estivessem em uma forma olímpica, nestes últimos oito meses. Mas as reduções de lucros estiveram limitadas, primeiro, aos valores bancários das hipotecas — ainda que de primeira linha. Depois, a partir de setembro, tornaram-se sensivelmente mais fortes, nos períodos em que a seca do mercado monetário e a impossibilidade de nele levantar fundos obrigaram bom número de instituições a efetuar vendas emergenciais de parte de suas carteiras de ações, de modo a obter rápida liquidez. No momento em que a perspectiva do desaquecimento fica mais nítida, toma corpo uma interrogação geral sobre a atividade e a rentabilidade de todos os setores.

Os bancos vêm chegar o momento em que suas dívidas ativas de private-equity também irão desmoronar, relegadas à categoria dos “maus créditos”

O ingresso provável dos mercados de ações em um ciclo de baixa promete rudes efeitos colaterais. Em particular, no setor tão discreto quanto sensível da private-equity — esta forma brutal de capitalismo, na qual as empresas consideradas promissoras são compradas, retiradas da Bolsa e reestruturadas, com o objetivo de, em um prazo de dois ou três anos, serem revendidas a peso de ouro, na maioria dos casos por meio da reintrodução na Bolsa [3]. Se esta última se mostrar desanimada, será preciso abrir mão dos lançamentos de novas ações, promovidos com grande estardalhaço e cotações fulgurantes. Com isso, a “descostura” de um bom número de operações de private-equity é particularmente delicada — seja porque as sobrevalorizações não correspondem às expectativas, seja pelo fato de os compradores se verem obrigados a adiar a sua “saída” e a carregar a dívida por muito mais tempo do que haviam previsto. Essas operações foram financiadas por meio de créditos fantasmáticos, alocados em certos casos dentro de condições tão escabrosas quanto as das subprimes. Enquanto isso, os bancos estão vendo se aproximar o momento em que gordas fatias de suas dívidas ativas de private-equity também irão desmoronar, sendo relegadas à categoria dos “maus créditos” – com todas as depreciações que podem decorrer de tal situação.

Entre estas, incluem-se a redução direta do valor de suas carteiras de ações, a queda do ritmo de suas atividades de geração [4] e de fusão-aquisição, a ameaça sobre os créditos de private-equity (que também recai sobre muitos outros, tais como os cartões de crédito, o financiamento de veículos etc.) e a redução dos lucros de trading (operações especulativas) nos mercados, marcados por uma tendência à queda: tudo, no desaquecimento econômico, concorre para comprometer a situação financeira dos bancos e para diminuir sua inclinação a emprestar. No mundo maravilhoso das finanças, a crise alimenta a crise…

Nada disso foi fruto da ira divina. Contra todos aqueles que, a exemplo do presidente do banco francês Société Générale, Daniel Bouton, pensam poder se eximir de sua responsabilidade, valendo-se da tese do “deplorável acidente de percurso”, é preciso lembrar o quanto estes eventos são expressão das lógicas puras das finanças de mercado. Quem se espantaria ao ver que os agentes financeiros correm atrás de todas as oportunidades para saciar sua gula? Ou que, em caso de necessidade, acabam inventando essas oportunidades, por meio de “inovações” que os levam a acreditar, por um tempo, que estão livres do risco? Ou que se precipitam sobre toda dinâmica altista e que a transformam imediatamente em bolha? E, finalmente, que são capazes de apenas vigiar o seu risco individual e considerar que o risco global não lhes diz respeito?

Quem ficaria espantado ao tudo isso acabar em catástrofe? Quem poderia se surpreender, quando o próprio objetivo da desregulamentação financeira é abolir todo entrave à ação dos investidores e devolver-lhes, sem a menor restrição, a mais viciadora das formas do lucro e o mais forte dos poderes: a rentabilidade financeira?

Presidente do banco francês Société Génerale, particularmente afetado pela crise, Daniel Bouton está numa posição especialmente embaraçosa para permitir-se alegar que enfrentou “um acidente fora de norma e absolutamente lamentável” [5]. O banco dirigido por ele desliza regularmente, há 25 anos, rumo ao delírio. O Société Générale, tradicionalmente um banco de varejo de um classicismo cinzento, com suas agências, seus balcões e seus executivos medianos, uma instituição bastante fraca no que diz respeito a atividades como banco de investimento, foi mordido tardiamente pela tarântula da globalização. Sonha com sofisticação e telões cintilantes. Gostaria de ser o Goldman Sachs. Aprende inglês, instala seus golden boys em Londres e respira o ar revigorante dos mercados de capitais — algo muito diferente de renovar o crédito do moleiro que mora em uma remota aldeia da província. Por isso, quando Bouton afirma, em entrevista a Le Figaro, que “o modelo do Société Générale de maneira alguma foi atingido ou contestado” [6], é preciso entender exatamente o contrário: tal modelo acaba de sofrer um grande tombo. O fascínio pelos mercados, que já lhe rendeu bastante dinheiro, poderá agora custar muito caro. O Société Générale ilustra com perfeição esta fantástica distorção do universo bancário, em sua abertura para os mercados, movido pela atração magnética da desregulamentação.

No leque das alternativas, o Tributo Tobin, impostos sobre os ganhos especulativos com ações, taxas de juros diferenciadas para empreendimentos produtivos...

Nem todas as negações do mundo impedirão que a crise atual apareça tal como é: uma experiência real, que demonstra a nocividade intrínseca de mercados e operadores de mercado livres de qualquer controle. Mas esta experiência não é a primeira do tipo. Quem não se lembra das cenas grandiloqüentes de indelicadeza e fraude proporcionadas pelo krach das empresas de alta tecnologia, em 2000? Do apelo solene das autoridades financeiras à regulação, à transparência, à reintegração das transações que as empresas excluíam de seus balanços? “Nunca mais”, juram toda vez os atores do mundo das finanças, antes de partirem para uma nova rodada. Mas os seus juramentos de bêbados; a idéia de que eles enriquecem de maneira solitária e fabulosa durante a bonança e põem a economia inteira em perigo quando suas imperícias vêm à tona, obrigando os poderes públicos a salvá-los da difícil situação na qual qualquer falido ordinário seria abandonado à sua própria sorte; tudo isso dá vontade de "virar a mesa”, o que parece ser a única solução para que esta seja verdadeiramente a “última rodada”.

Um balanço um pouco mais analítico das “realizações” das finanças desregulamentadas, nas quais os danos causados superam de maneira tão evidente os serviços prestados, deveria ao menos convencer da urgência de se quebrar algumas de suas engrenagens. Ao contrário do que dizem, não faltam idéias em relação a esta questão. A Taxa Tobin é uma delas. Sugerida em 1972 pelo Nobel de Economia James Tobin, consiste em uma taxação das transações monetárias internacionais de modo a desencorajar a especulação. Mas caiu prematuramente no esquecimento. Já o SLAM, um projeto para limitar a rentabilidade acionária máxima, e suprimir com isso os estímulos à exploração cada vez mais intensa dos assalariados, é outra dessas idéias [7]. Uma política monetária desmembrada, que financie por meio de taxas de juros diferenciadas a economia produtiva e a economia especulativa, é uma terceira proposta. A exemplo do que foi feito nos Estados Unidos pelo Glass Steagall Act [8], a lei adotada em decorrência do desmoronamento dos anos 1930, por que não considerar a possibilidade de se estabelecer uma separação hermética entre os bancos comerciais e os bancos de investimento? O princípio da separação estanque tem como propriedade atenuar sensivelmente a transmissão dos desastres financeiros para a economia real, que se dá por intermédio do canal do crédito.

À medida que exerce uma pressão permanente e sempre crescente sobre os preços — portanto, sobre os custos, e, finalmente, sobre o custo salarial, a concorrência instaura um regime de “preços-salários”, no qual toda discussão sobre o poder aquisitivo remete imediatamente à questão dos preços. Quando o assalariado reivindica aumentos, a resposta acaba sendo dirigida ao consumidor. Mas a redução dos preços que é oferecida a este último tem por efeito imediato reduzir o salário do primeiro! Os assalariados colocados no olho da rua por um plano de terceirização, por exemplo, não têm outro recurso senão fazer suas compras nas grandes lojas de preços baixos — que constituem a extremidade mais feroz da corrente concorrencial. Mas ao fazê-lo, ativam novamente todos os mecanismos que acabaram de causar o seu infortúnio. Contra a vontade, os assalariados dão deste modo “razão” à rede de relações que os castiga. Na falta de qualquer outra solução, contribuem para assegurar a continuidade dos ataques a seus direitos [9]. Deste processo notavelmente perverso resulta um regime de baixa pressão permanente do poder aquisitivo, que deprime em conseqüência o consumo e a demanda global.

Mas o modelo neoliberal se gaba de oferecer, ele mesmo, as soluções para os problemas que gera. Assim, a resposta ao menor consumo, uma característica inerente do regime de “preços-salários” concorrencial, é o endividamento! Se o poder aquisitivo das famílias tende a ficar estagnado ou regredir, enquanto o capital reclama um mercado mais dinâmico, haverá algo mais lógico do que ampliar, por meio do crédito, a capacidade de os assalariados gastarem além da conta? Ninguém há de se surpreender ao verificar que nos Estados Unidos e no Reino Unido, que já têm uma boa “dianteira” em relação à França nesta descida íngreme, a taxa de endividamento das famílias em relação à sua renda disponível é respectivamente de 120% e 140%. Isso explica por que as economias anglo-saxãs tendem a sofrer mais do que as outras: nelas, o crédito para o consumo constitui uma válvula indispensável, que está prestes a ser brutalmente fechada.

Na França, o presidente Nicolas Sarkozy comemora o fato de a situação ser muito diferente. Mas todos os seus atos conduzem o país ainda mais rapidamente na direção dos EUA e Reino Unido. Na França, a taxa de endividamente das famílias, que era de 68% em 2006, vem explodindo literalmente nos últimos dez anos.

A falência das instituições financeiras não chega a arrancar lágrimas… até o momento em que nos perguntamos qual é a origem dos fundos perdidos por elas

É no envolvimento financeiro maciço dos assalariados que a coerência liberal torna-se mais refinada. Vertente simétrica da alienação pela dívida, chegou a vez da poupança ser o protagonista. A falência das instituições financeiras não chega exatamente a arrancar lágrimas… até o momento em que nos perguntamos qual é a origem dos fundos perdidos por elas. Ora, é mesmo em parte com a poupança dos assalariados que essas instituições jogam e perdem.

A situação da França, também neste caso, continua sendo uma exceção relativa, uma vez que a maioria dos assalariados não tem dinheiro suficiente para ir além da caderneta de poupança e apenas os mais ricos têm acesso ao mercado de investimentos. Mais uma vez, o exemplo é indicado pelas economias anglo-saxãs, que tiveram a interessante idéia de acabar de vez com os sistemas de aposentadoria por repartição, de modo a captarem enormes massas de poupança salarial, injetadas nos mercados por intermédio dos sistemas de aposentadoria privada.

No que vem a ser um charme particular da “universalidade financeira”, são todos os assalariados que pagam o pato quando os mercados afundam. O fato de encontrar um substituto ao salário direto — cujo aumento todos entenderam agora que não está mais na ordem do dia — já caracteriza por si só uma manobra fraudulenta. Mas efetuá-la expondo diretamente os assalariados às instabilidades do mercado financeiro, e ainda por cima tentando torná-los solidários daquilo que os escraviza, é algo muito sério.

Presos dentro da armadilha da concorrência, que só promove a redução dos preços com a condição de que os salários sejam diminuídos, e capturados pela servidão do endividamento, que se tornou tão indispensável quanto a renda para viver, os assalariados desfrutam, ainda por cima, da “sorte” de serem tiranizados às suas próprias custas, uma vez que a poupança que abastece as finanças acionárias, aquela mesma que exige rendimentos que não acabam mais, é justamente a deles! E a perversidade confina com a estética quando, de um lado, todos os acidentes do mercado financeiro estão fadados a recaír sobre eles, já que eles pagarão pelas perdas de crescimento; e, de outro, no que vem a ser o desfecho supremo, passa a ser proibido mexer em qualquer coisa que seja das estruturas financeiras, pelo motivo (razoável, eis o pior!) de que isso equivaleria a atentar contra as suas aposentadorias. Afinal, dentro desta armadilha perfeita, o fato de investir contra a rentabilidade financeira não equivale a investir contra a renda dos idosos?

Sejamos justos: não existem, do lado do liberalismo, apenas macacos amestrados que passam os dias entoando incansavelmente os mantras do evangelho dos mercados. Na maioria dos casos, os seus apoiadores mais eficientes não são necessariamente os mais visíveis. Estes deixam ao entusiasmo um pouco tolo dos economistas de plantão a tarefa de transfigurar em “ciência natural dos mercados” (reputada por lidar apenas com “ofertas” e “demandas”, e, portanto, supostamente livre de toda ideologia e toda política) um processo de transformação do capitalismo que é só ideologia e só política! Este cinismo lúcido e atuante (que faz política intensamente, enquanto o economicismo teima na negação e vive repetindo que os mercados dizem respeito apenas à neutra “administração das coisas”) compreendeu muito bem que existe efetivamente uma economia política da “financeirização”. A meta de envolver os assalariados no mercado financeiro representa a sua estratégia — e ela é muito perigosa. Como melhor consagrar os mercados de capitais do que tornando os assalariados solidários? Afinal, reconstruir seus interesses por meio das finanças não equivale a reconstruir o salariato como apoio objetivo da “financiarização”?

É evidente que essa “solidariedade” não passa de uma fraude: algumas migalhas de participação financeira contra uma servidão adquirida para a eternidade. Além disso, a servidão procede de mecanismos abstratos, remotos, e que sabem se fazer esquecer, ao passo que as migalhas, mesmo sendo migalhas, exercem um peso concreto que pode ser suficiente para deixar acreditar que “mexer com as finanças” equivale a “mexer com os interesses dos assalariados”.



[1] Por meio dos quais, a instituição abastece os bancos, aumentando sua liquidez.

[2] No qual uma taxa inicial vantajosa é concedida durante os primeiros dois anos, até ser reajustada para a taxa “plena”, que passa a vigorar durante os 28 anos seguintes.

[3] Ler “Comment la finance a tué Moulinex”, Le Monde Diplomatique, março de 2004.

[4] Emissões de títulos (ações, obrigações etc.) por conta des seus clientes.

[5] “Mensagem aos nossos clientes”, anúncio publicitário do banco Société Générale, publicado em Les Echos no dia 4 de fevereiro de 2008.

[6] Le Figaro, 25 de janeiro de 2008.

[7] Ler “Enfin une mesure contre la démesure de la finance: Le SLAM”, em Le Monde Diplomatique, edição francesa, fevereiro de 2007.

[8] Posta em vigor em 1933, essa lei foi abolida por Bill Clinton em 1998.

[9] Ler Serge Halimi, “O preço dos preços baixos”, Le Monde Diplomatique Brasil, janeiro de 2006.


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