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LITERATURA

Tentativa de uma defesa desnecessária

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Ninguém em sã consciência decide ser escritor para que um dia lhe roubem suas idéias e façam o que quer que seja com elas.

Renata Miloni - (14/03/2008)

Todos nascemos com a liberdade de criar e cabe somente a nós decidir o destino de nossas criações, certo? Muito errado. Só seria certo no reino encantado das intenções bondosas. Aqui, num mundo corrompido pelo clichê da ganância, a história sempre será outra.

Ser escritor é estar em outro possível clichê, o da complexidade, do qual as conseqüências antigamente não aconteciam em tempo real como agora. A vontade que pessoas como Fernando Sabino tinham de saber o que seus leitores pensavam hoje seria facilmente saciada pela internet, a grande enciclopédia de opiniões. Elas também presenciariam a infindável quantidade de "novas versões" de seus textos, descobrindo até mesmo novas identidades e personagens. Tudo porque foram livres para criar.

Apesar de meu ponto não ser exatamente sobre versões não-autorizadas, é impossível tratar desse assunto sem lembrar quão perigoso é o poder de outra liberdade, a adquirida na internet. Entre os tantos revolucionados e inventados pensamentos do ser humano da nova era, sem dúvida esse “achismo” de tamanho poder é um dos mais depreciáveis. Num mundo livre se pode tudo, até mesmo inventar poemas de Clarice Lispector e recriar crônicas de Fernando Sabino.

Tem sido amplamente divulgada a enorme indecisão pela qual passa o filho de Vladimir Nabokov, Dmitri. Queimar ou não queimar é a real questão desse novo episódio sobre o universo obscuro da literatura? Antes de morrer, o autor de Lolita deixou claro à esposa Véra (falecida em 1991) e ao filho (hoje com 73 anos) sua vontade de que o esboço de um livro que não terminou de escrever fosse destruído.

Ao terminar a história neste exato ponto, o natural seria eu confirmar que o desejo do escritor foi atendido logo após sua morte, em 1977. Mas aqui está outro fato "muito errado". Dmitri atravessa o maior dilema de sua vida: respeitar a vontade de seu pai, criador do livro inacabado, ou atender aos leitores e servir a literatura com talvez uma grande obra.

Onde está a grandeza?

Uma das várias dúvidas que me surgiram foi: há uma real necessidade de publicar esse livro, ainda mais sendo apenas um rascunho? Se houvesse, o mundo pediria uma nova obra de Nabokov há anos, sem ao menos saber se existia de fato. E isso, até onde se sabe, nunca aconteceu. As pessoas estavam satisfeitas com a naturalidade de o escritor ter morrido sem deixar ou pedir que algo inédito fosse publicado. Se há tantos leitores fiéis, como demonstrar mais fidelidade do que respeitar a vontade de alguém que nem presente pode estar para proteger, digamos assim, duas idéias finais?

Alguns escritores provavelmente não seriam conhecidos se não fosse alguém para publicar seus escritos postumamente. Como é o caso de Kafka, que pediu ao amigo Max Brod para destruir todos os seus manuscritos. Reconheço que a literatura talvez tivesse tomado outros rumos. Será? Se alguém teve a capacidade de criar algo, por que esse algo não poderia ser criado por outro autor? De maneira distinta, claro. Afinal, uma das afirmações mais ditas no meio literário é: já está tudo escrito. Então, o que resta a fazer é escrever de outra forma. Certamente haveria outro escritor para escrever o que foi perdido. Será?

E quantos desses escritores que não seriam conhecidos explicitaram aos seus familiares o desejo de que determinados manuscritos fossem destruídos? Talvez, no meu reino encantado, nem seria necessário pedir a algum parente próximo. Ou a qualquer pessoa, na verdade. Para mim, é muito óbvio que a criatividade, os pensamentos, a individualidade de uma pessoa, especialmente se for um escritor, morrem com ela, pois somente ela tem direitos sobre sua mente.

Mas há quem pense diferente. O irlandês John Banville parece não levar tal fato em consideração. Ele defende a publicação dos manuscritos, alegando que uma pessoa prestes a morrer não está muito lúcida para decidir quais rumos deve tomar o trabalho produzido. Banville diz que o fato de Nabokov não ter findado os esboços de seu último romance antes de morrer "é certamente uma indicação de que ele queria que aquilo vivesse". [1]

Ou seja, o pedido de Nabokov foi claro, tanto que todos entenderam, mas a intenção parece não ter sido. O escritor irlandês termina seu depoimento ao Times Online dizendo que "um grande escritor sempre vale a pena ser lido, até mesmo no que de pior escreveu". Vale a pena ser lido, mas não vale ser respeitado? Onde está a grandeza?

Claro que não é possível generalizar e defender todos os escritores e suas idéias, pois nem sempre todas partem deles mesmos. Mas falo dos que levam a literatura a sério. Aqueles que pesquisam dentro e fora de suas mentes, aqueles que passam às vezes anos se dedicando a construir um romance, por exemplo. São estes que merecem ser respeitados, estes cujas vontades foram e são simplesmente a de que o que escreveram e não publicaram fosse embora com eles.

Ninguém em sã consciência decide ser escritor para que um dia lhe roubem suas idéias e façam o que quer que seja com elas. Não é preciso pedir. Não se trata de considerar a possibilidade de o livro de Nabokov, conhecido como The original of Laura, ser mais um clássico. E não sei se é preciso saber mais detalhes sobre essa indecisão de Dmitri. Talvez somente deixar algum registro, por menor que seja, de que a verdadeira literatura jamais será feita por interesses e conseqüências. Ela é feita (mas não publicada, é verdade) por pessoas que hoje podem não estar mais aqui e, por isso, nem sequer têm a chance de "salvar" o que suas próprias mentes produziram.



[1] Leia o depoimento de John Banville aqui

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