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LITERATURA

Copa de Literatura: seriedade e bom humor

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Lucas Murtinho - (14/03/2008)

Em junho de 2007 enviei um email a alguns amigos de Internet sugerindo que fizéssemos algo parecido com o Tournament of Books no Brasil. Era o começo do que viria a se tornar, três meses mais tarde, a Copa de Literatura Brasileira (CBL).

Conheci o Tournament of Books (ToB) no começo de 2007 e fiquei imediatamente fascinado pela idéia: um prêmio literário em forma de torneio mata-mata, cujos concorrentes se enfrentam em jogos decididos por jurados que escrevem resenhas justificando suas decisões. Um prêmio abertamente injusto, e nesse caso o advérbio é muito mais importante do que o adjetivo. Cada jurado escolhe que critérios utilizar para tomar sua decisão, mas os critérios e o resultado da sua aplicação são expostos ao público. Uma idéia muito mais honesta do que a falsa imparcialidade dos prêmios literários tradicionais, obscuramente decididos por júris quase anônimos.

A idéia de fazer uma versão brasileira do ToB não demorou a surgir, mas passei alguns meses de indecisão antes do e-mail de junho. Eu não passava de um blogueiro desconhecido e meu mestrado recém-completo em edição certamente não me qualificava a organizar um prêmio literário. Por isso, saber a opinião dos outros era importante: a recepção à idéia seria determinante para eu decidir seguir em frente ou deixar pra lá. Sem a resposta positiva de Paulo Polzonoff, Leandro Oliveira, Rafael Rodrigues, Vinícius Jatobá e Sérgio Rodrigues a Copa de Literatura Brasileira provavelmente ainda existiria apenas na minha cabeça.

A decisão de Sérgio Rodrigues de não participar das discussões sobre a Copa, para poder concorrer ao prêmio com seu romance As sementes de Flowerville, me deixou muito feliz: eu perdia um jurado de qualidade, mas ganhava a certeza de que os escritores poderiam levar o prêmio a sério. Outros recusaram meu convite mas elogiaram a idéia. Outros ainda, é verdade, apenas diziam não, ou não respondiam à minha mensagem. Mas aos poucos, graças a indicações dos outros jurados, o júri foi se formando.

Júri formado, começamos a discutir os detalhes do projeto e os livros que concorreriam. Uma conversa por e-mail entre quinze pessoas às vezes fica caótica, mas no meio da balbúrdia boas idéias surgiram. Além disso, pude contar com o indispensável apoio logístico de alguns jurados. O site da Copa certamente teria sido bem menos bonito e interessante não fosse o admirável trabalho de Renata Miloni, que de quebra ainda fez as vezes de administradora enquanto eu me entendia com o Wordpress. E Olivia Maia e André Gazola aceitaram servir de redistribuidores de livros, enviando aos demais jurados os exemplares que as editoras enviaram para os dois.

O apoio das editoras, aliás, também foi fundamental para a CLB 2007: sem os livros que elas forneceram, o custo da Copa ficaria alto demais. Ainda não consegui transformar a Copa numa máquina de fazer dinheiro, mas o pequeno prejuízo financeiro foi mais do que compensado.

Fórum informal sobre crítica literária

A compensação veio em boa parte do clima lúdico e informal da Copa, que não é nem pretende ser um prêmio literário sério: a idéia é, ao contrário, questionar a seriedade dos prêmios literários. Desde o início deixamos claro, para o público e para nós mesmos, a vontade de nos divertir com o que estávamos fazendo. O que não implicava desleixo ou deboche, e sim leveza e bom humor. E todos os jurados, por mais variados que fossem seus gostos literários e suas personalidades, entraram rapidamente no espírito da Copa.

O que não quer dizer que a organização da Copa não foi também fonte de angústia. Eu estava ansioso para realizar o projeto e paguei o custo da minha ansiedade de duas maneiras. Em primeiro lugar, anunciei muito cedo a idéia da Copa, e quando ela começou, boa parte da divulgação já tinha sido esquecida por nossos leitores potenciais. Em segundo lugar, convidei pessoas cujo trabalho eu conhecia pouco para serem juradas da Copa, e o resultado foram dúvidas sobre a qualidade do júri que eu tinha formado. Mas no fim das contas alguns dos melhores textos da Copa vieram desses jurados que eu via como incógnitas, enquanto alguns jurados de quem eu esperava muito, talvez justamente por culpa dessa expectativa exagerada, me decepcionaram.

À medida que a Copa avançava, porém, mesmo essas decepções eram aliviadas pela importância crescente dos comentários dos leitores. Além de ser um torneio sobre literatura, a Copa se transformou num fórum informal sobre crítica literária. Faz sentido: muitos visitantes do site da Copa não leram os livros comentados, mas todos leram as resenhas – portanto, os comentários se referiam com mais freqüência a estas do que àqueles. O resultado prático era que a pedra se tornava instantaneamente vidraça: as resenhas eram resenhadas pelos leitores.

Além de participar como jurado-desempate na final da Copa, em que todos os outros jurados também votaram, escrevi pequenos comentários sobre cada resenha – a maioria dos quais foi totalmente ignorada pelos comentaristas – e trabalhei como editor e revisor das resenhas. Cheguei a trocar dezenas de e-mails com alguns jurados, propondo mudanças grandes e pequenas; com outros, ou porque eu tinha menos sugestões a dar ou porque eles deixaram claro que não estavam muito interessados nelas (o que é, lógico, direito deles), o processo de edição foi mais rápido. Fiz o possível para manter a discussão no âmbito do estilo do texto e não interferir nas idéias apresentadas pelos jurados, e espero ter sido bem-sucedido, mas isso só eles poderiam dizer.

A CLB 2007, enfim, foi uma experiência agradável demais para ficar só na saudade. Por isso, mal ela terminou eu já estava pensando na CLB 2008. Com novos concorrentes, lógico, e novos jurados também – entre eles Sérgio Rodrigues, que chegou às semifinais da primeira edição, e Luiz Antonio de Assis Brasil, o grande vencedor da CLB 2007, com Música perdida. A enquete no site da Copa para ver que livros os leitores querem ver na CLB 2008 recebeu muitos votos e gerou inúmeros comentários, além de reclamações que me fizeram pensar em criar uma Copa para livros de contos também. Quem sabe em breve? Por enquanto, espero ter despertado o seu interesse para acompanhar a próxima edição da Copa – a segunda de muitas.



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