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CULTURA PERIFÉRICA

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Às margens da represa de Guarapiranga, Varal Cultural é grande mostra de arte da metrópole. Organizado todos os meses, revela rapaziada que é crítica, autogestionária, cooperativista e solidária — mas acredita em seu trabalho e não aceita receber migalhas por ele

Eleilson Leite - (15/03/2008)

Os caras e as minas que movimentam a cena cultural nas beiradas da metrópole fazem arte com consciência, atuam em parceria e inventam eles mesmos suas alternativas de apresentação, criação e divulgação. É o imperativo do faça você mesmo. Todo o apoio é bem vindo, sobretudo das políticas públicas, mas a ausência de condições não faz da periferia um deserto cultural. A arte na quebrada corre como fogo no pavio. Exemplo disso é o Varal Cultural, um evento que acontecerá na Zona Sul, no Espaço Forasteiro, às plácidas margens da Represa Guarapiranga, neste sábado, dia 15 de março. A parada é organizada por dois jovens que moram na região do Grajaú: Edson Patriota, 29 anos e Apampa, codinome de Anderson de Oliveira Silva, 25 anos. Esses rapazes começaram do zero e estão prestes a realizar um dos mais grandiosos eventos da periferia de São Paulo.

Concebido como uma ampla mostra de arte independente, o Varal Cultural, não se restringe à periferia. É desdobramento de um empreendimento baseado no site www.varalcultural.com.br. O espaço virtual funciona como uma vitrine para grupos e artistas individuais divulgarem seus discos e shows. O portal agrega também artistas plásticos, tatuadores, produtores e todo mundo que estiver a fim de “desenvolvimento artístico e cultural, atuando sem preconceitos”, informa o site. E dessa forma reúne artistas de diferentes perfis garantindo a diversidade a que se propõe o evento.

Se você não for à Guarapiranga neste sábado, não desanime. A idéia é que o evento aconteça todo terceiro sábado do mês. Anota aí: dia 19 de abril será o próximo. Mas entre no site do Varal Cultural antes e terás uma prévia do que pode rolar. Tem lá o Gangsteria, um projeto que une os grupos de rap Agressão Cerebal e Sentimento de Fúria. Quem conhece, garante que o nome faz jus ao que pensam seus integrantes. Uma rapaziada muito crítica, que não faz concessões em suas letras, mas manda o recado com rimas elaboradas e muita criatividade musical.

Ainda na linha do rap, e fazendo um certo contraponto ao Gangsteria, tem o grupo Pacíficos. O nome é também expressão fiel do que pregam os MCs: falam do amor e da alegria que existem na Periferia. Interessante ver esses dois grupos no mesmo espaço. São representantes de estilos diferentes de rap e mostram a riqueza da cena hip hop. O discurso pode ser distinto, mas ambos se unem na defesa da do povo preto, pobre da periferia.

Depois de agitar um rock and roll, viajar no reggae jamaicano: fumaça rolando, casais contemplando as águas que banham a periferia da Zonal Sul, um gran finale no Grajaú...

Confirmando a diversidade de artistas expostos no site do Varal, encontramos também um grupo de música instrumental chamado Carpe Diem. O trio de músicos toca em restaurantes, shopping centers, cerimônias, entre outras ocasiões, “compondo os mais diversos ambientes com peculiar requinte e bom gosto”, diz o texto em que se apresentam. Veja que há uma busca de profissionalismo aí. Os músicos têm consciência do que fazem. Sabem qual o nicho de mercado mais adequado para sua música e escrevem um texto na medida certa para conquistar o cliente. Prezados organizadores de eventos, contratem o Carpe Diem!. Vocês não vão se arrepender.

No Varal Cultural, há também espaço para aquela galera que gosta de fazer um som, quer espaço para tocar, busca ganhar uma grana com isso, mas não abre mão de curtir enquanto toca. Assim parecem ser o grupo de reggae União, Força e Fé e a banda de rock Espírito de Porco. O primeiro é de São José dos Campos, cidade grande do interior de São Paulo, que tem uma periferia de responsa. O nome do grupo também é tradução literal do sentimento dos seus integrantes. Eles seguem os princípios filosóficos do rastafarismo. Já os roqueiros paulistanos do Espírito de Porco mandam um som pesado, tributário do velho e bom rock dos anos 70. Vou fazer campanha para que essas duas bandas toquem na próxima edição do Varal Cultural. Já fico imaginando, depois de agitar um rock and roll, viajar no reggae jamaicano, aquela fumaça rolando, casais contemplando as águas que banham a periferia da Zonal Sul, um gran finale no Grajaú... A noite periférica merece uma balada como essa.

Edson Patriota, Apampa e todos os que com eles promovem o Varal Cultural, acreditam nisso. A expectativa é muito boa. O lugar é grande; cabem 1500 pessoas. Dizem que a gente é do tamanho de nossos sonhos. Esses rapazes pensam alto. Mas não são ingênuos. São empreendedores. O Patriota já teve um bar, o Greguejê, que durante três anos agitou o bairro de Jordanópolis, no Grajaú. Ele conhece bem a cena cultural periférica. Sabe de seu potencial e também dos vacilos da moçada que pensa que o êxito é uma benção do destino. Ele tem visão de negócio e todo dia faz uma parceria nova. Tatuador, juntou-se com outros profissionais do ramo e botou, na mesma casa, estúdio, webdesiger que faz o site e produz flyers, cartazes e cartão de visita para os grupos associados, entre outros serviços. A iniciativa privada na quebrada é autogestionária, cooperativista e solidária. A grana é bem-vinda. Patriota e sua turma não querem distribuir migalhas entre os aliados. Vocês vão ganhar dinheiro sim, rapazes. Uma remuneração conquistada com muita correria e dignidade. O ingresso para o Varal é apenas R$ 5,00. E o legal é que mulher paga igual. São a maior roubada essas baladas gratuitas para as minas e com ingresso inflacionado para os caras. No Varal não tem essa. É barato e é para todos e todas.

Mahatma Gandhi, em uma de suas muitas lindas frases, disse assim: “Nós somos a mudança que queremos”. É tão absoluto isso. Se a gente não é exemplo do que defende, somos uma fraude. O Varal Cultural tem essa coerência gandhiana. Os organizadores pregam uma mudança de mentalidade. Querem mostrar que é possível viver de cultura mantendo os princípios artísticos. E eles próprios seguem essa conduta no trabalho diário. Na noite deste sábado, 15 de março, certamente veremos uma demonstração de que dá fazer negócio e ganhar dinheiro defendendo a cultura independente com eventos grandiosos e de qualidade, com baixo custo e preço justo. Isso sim, é coisa de artista da periferia.

Serviço:
Varal Cultural – Apresentações de rael da Rima Brado M’ Bando, K- Bobra Roots e discotecagem de Kiko (pentágono)
Espaço Forasteiro, R. Valentim Ramos Delano, 52, Altura do 2250 da Av. Robert Kenedy (ao lado do Golf Club).
Dia 15 de março(sábado), a partir das 22h, R$ 5,00 a noite toda, fone (11) 3461.5971
Contato: contato@varalcultural.com.br
Vara Cultural

Mais:

Agenda Cultural da Periferia: Para baixar (formato pdf), clique aqui

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

Nas quebradas, toca Raul
Um bairro da Zona Sul de São Paulo vive a 1ª Mostra Cultural Arte dos Hippies. Na periferia, a pregação do amor e liberdade faz sentido. É lá que Raul Seixas continua bombando em shows imaginários, animando coros regados a vinho barato nas portas do metrô, evocando memórias e tramando futuros

No mundo da cultura, o centro está em toda parte
Estamos dispostos a discutir a cultura dos subúrbios; indagar se ela, além de afirmação política, está produzindo inovações estéticas. Mas não aceitamos fazê-lo a partir de uma visão hierarquizada de cultura: popular-erudita, alta-baixa. Alguns espetáculos em cartaz ajudam a abrir o bom debate

Do tambor ao toca-discos
No momento de maior prestígio dos DJs, evento hip-hop comandado por Erry-G resgata o elo entre as pick-ups, a batida Dub da Jamaica e a percussão africana. Apresentação ressalta importância dos discos de vinil e a luta para manter única fábrica brasileira que os produz

Pirapora, onde pulsa o samba paulista
Aqui, romeiros e sambistas, devotos e profanos lançaram sementes para o carnaval de rua, num fenômeno que entusiasmou Mário de Andrade. Aqui, o samba dos mestres (como Osvaldinho da Cuíca) vibra, e animará quatro dias de folia. Aqui, a 45 minutos do centro da metrópole

São Paulo, 454: a periferia toma conta
Em vez de voltar ao Mercadão, conheça este ano, na festa da cidade, Espaço Maloca, Biblioteca Suburbano Convicto, Buteco do Timaia. Delicie-se no Panelafro, Saboeiro, Bar do Binho. Ignorada pela mídia, a parte de Sampa onde estão 63% dos habitantes é um mundo cultural rico, diverso e vibrante

2007: a profecia se fez como previsto
Há uma década, os Racionais lançavam Sobrevivendo no Inferno, seu CD-Manifesto. O rap vale mais que uma metralhadora. Os quatro pretos periféricos demarcaram um território, mostrando que as quebradas são capazes de inverter o jogo, e o ácido da poesia pode corroer o sistema

No meio de uma gente tão modesta
Milhares de pessoas reúnem-se todas as semanas nas quebradas, em torno das rodas de samba. Filho da dor, mas pai do prazer, o ritmo é o manto simbólico que anima as comunidades a valorizar o que são, multiplica pertencimentos e sugere ser livre como uma pipa nos céus da perifa

A dor e a delícia de ser negro
Dia da Consciência Negra desencadeia, em São Paulo, semana completa de manifestações artísticas. Nosso roteiro destaca parte da programação, que se repete em muitas outras cidades e volta a realçar emergência, diversidade e brilho da cultura periférica

Onde mora a poesia
Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores

O biscoito fino das quebradas
Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4/11, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica



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