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NUCLEAR & SAÚDE

A conspiração do silêncio

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Há 50 anos, as conseqüências sanitárias das atividades nucleares são ocultadas pela Organização Mundial da Saúde. Nesse período, concentrações nocivas de radionuclídeos acumularam-se na terra, na água e no ar. Mesmo assim, todos os estudos que alertavam sobre o impacto das radiações foram solenemente ignorados. O lucro falou mais alto que o bem-estar.

Alison Katz - (24/03/2008)

Em junho de 2007, Gregory Hartl, porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), afirmou que as atas da Conferência Internacional das Nações Unidas sobre a catástrofe de Chernobyl, realizada entre 20 e 23 de novembro de 1995, tinham sido publicadas. Nunca foram. Os resultados da Conferência de Kiev, de 2001, também não vieram a público. Ambos os eventos discutiram o terrível acidente nuclear de 26 de abril de 1986, que contaminou centenas de milhares de pessoas na Ucrânia, na Bielorrússia e na Rússia.

Pressionada por jornalistas, a OMS reiterou a mentira contada por Hartl, limitando-se a fornecer como referência o resumo das intervenções em Kiev e uma seleção muito restrita de artigos e exposições do encontro de Genebra.

Esta é apenas a ponta do iceberg da dissimulação institucional.

A posição da organização é questionada de forma permanente desde 26 de abril de 2007, no 21° aniversário da catástrofe, quando dois piquetes foram montados em frente à sua sede [1]. Diariamente, ao entrar e sair do trabalho, os empregados da instituição deparam com um quadro mostrando um milhão de crianças doentes e sob irradiação na região adjacente a Chernobyl. A Independent WHO (OMS Independente, na tradução literal), responsável pela mobilização, acusa o órgão de negar assistência às populações em perigo e de ser cúmplice em ocultar as conseqüências do desastre. Os manifestantes reivindicam a independência da OMS em relação à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) [2] para que a questão receba um tratamento sério e científico e as pessoas contaminadas sejam atendidas de forma adequada. Eles já lançaram um “apelo internacional dos profissionais da saúde” [Veja mais:] e preparam uma resolução que pretendem aprovar na Assembléia Mundial da Saúde, foro decisório da OMS que fará sua próxima reunião em maio [3].

De acordo com seu estatuto, a AIEA tem como objetivo “acelerar e ampliar a contribuição da energia atômica para a paz, a saúde e a prosperidade em todo o mundo”. Na realidade, não passa de um lobby – militar, aliás – que nada tem a fazer na “família” ONU e não deveria interferir na escolha de políticas sanitárias ou de pesquisas. No entanto, nenhuma investigação ou ação da OMS sobre o binômio radioatividade/saúde pode ser empreendida sem o aval prévio da AIEA. O pacto que liga as duas organizações, de 1959, dispõe que “cada vez que uma das partes se propuser a empreender um programa ou atividade em um domínio que apresente ou possa apresentar interesse importante para a outra parte, a primeira consultará a segunda a fim de resolver a questão em comum acordo”. Sendo assim, a agência impôs seu veto às conferências previstas pela OMS sobre radioatividade e saúde. Já a autoridade sanitária internacional, sem estabelecer qualquer forma de retaliação, apoiou as estatísticas grotescas da AIEA referentes à mortalidade e à morbidez resultantes do acidente de Chernobyl, que apontam para apenas 56 mortos e quatro mil casos de câncer da tireóide [4].

Ora, a negação da doença inevitavelmente implica na negação da cura. Hoje, nove milhões de pessoas vivem em zonas de altíssimo nível de radioatividade. Há 21 anos elas não têm outra opção senão consumir alimentos contaminados, com efeitos devastadores [5]. Para a AIEA, porém, toda pesquisa capaz de mostrar os danos das radiações ionizantes representa um grave risco comercial e precisa ser proibida a qualquer preço. Por isso, as investigações sobre os eventuais prejuízos ao genoma humano, uma das conseqüências mais graves dessa contaminação, não figuraram no estudo internacional exigido pelos Ministérios da Saúde da Ucrânia, da Bielo-Rússia e da Rússia.

Segundo diversas produções científicas de instituições independentes [6], esse conflito de interesses já foi fatal a centenas de milhares de pessoas. E o fardo mais pesado ainda está por vir, decorrente dos longos períodos de latência da concentração de radionuclídeos nos órgãos internos. Centenas de estudos epidemiológicos realizados na Ucrânia, na Bielo-Rússia e na Rússia já detectaram uma alta significativa de todos os tipos de câncer, além do aumento das mortalidades infantil e perinatal, da taxa de abortos espontâneos, de deformidades e anomalias genéticas, perturbações ou retardamento do desenvolvimento mental, doenças neuropsicológicas e casos de cegueira, moléstias dos aparelhos respiratório, cardiovascular, gastrointestinal, urogenital e endócrino [7].

Mas quem dá atenção a esses dados? Quatro meses depois de Chernobyl, o senhor Morris Rosen, diretor da segurança nuclear da AIEA, teve o desplante de declarar que “mesmo se todo ano houvesse um acidente desse tipo, continuaria considerando a energia nuclear interessante” [8]. Se o público fosse informado a respeito de suas conseqüências reais, porém, o debate sobre a opção nuclear certamente seria encerrado da noite para o dia. É por isso que a OMS tem medo das crianças de Chernobyl.

Durante décadas, os lobbies do fumo, da agroquímica e da petroquímica sabotaram todas as medidas de saúde pública e ambientais que prejudicassem seus lucros. Mas o lobby nuclear tem-se mostrado incomparavelmente mais poderoso: abrange os governos que desenvolvem atividades nesse campo, principalmente dos Estados Unidos, Grã Bretanha e França, assim como poderosas organizações que os perpassam. A desinformação gerada sob pressões bélico-industriais dos Estados é gigantesca. E, o que é pior, a corrupção em torno do setor afeta as mais prestigiadas instituições acadêmicas e científicas. Como analisa um editorial do respeitado periódico científico The Lancet, elas “se transformaram em ‘empresas’ de direito pleno, mais interessadas em comercializar suas descobertas do que em preservar o status de pesquisadoras independentes” [9]. Corroborados e citados como prova da segurança das atividades nucleares, os pareceres provêm, com freqüência, do lobismo.

Compradas pelos interesses das corporações, essa ciência nos levou ao aquecimento global – e à beira do abismo – por meio de suas mentiras, negações e dissimulações. E se as emissões responsáveis pela mudança climática são teoricamente controláveis, o mesmo não ocorre com a tecnologia nuclear e seus resíduos: ainda que essas atividades cessassem amanhã, suas conseqüências continuariam afetando a vida na Terra durante milênios. Como confiar, então, na avaliação que esses cientistas, literalmente comprometidos, fazem da energia nuclear? A resposta é simples: o conjunto das instituições governamentais, militares, industriais, científicas, de pesquisa, de regulamentação e intergovernamentais funciona, aliado a alguns órgãos da ONU, como uma “família incestuosa e fechada em si mesma” [10]. Aqueles que foram fonte de informações sobre a energia nuclear são “jurados” e “juízes” em tudo o que diz respeito às conseqüências sanitárias de suas próprias atividades.

As falhas dessa pseudociência e de seu método vão do flagrante e ultrajante ao sutil e insidioso, denunciam o expert Chris Busby, o jornalista Wladimir Tchertkoff e o Tribunal Permanente dos Povos acerca das Dissimulações [11]. A primeira série de delitos concerne à falsificação e à retenção de dados, à ausência de medição da radioatividade e de rastreamento do câncer, aos ataques aos pesquisadores independentes e suas instituições, à censura aos estudos sobre os efeitos nefastos, ao aviltamento de milhares de pesquisas não traduzidas dos três países mais afetados e à exclusão da ordem do dia das conferências de campos científicos que discutem os efeitos da irradiação interna crônica e em baixa dosagem. A segunda série criminosa abrange artifícios como o cálculo somente da média das irradiações para toda a população, desprezando as diferenças consideráveis de um lugar para outro; a suspensão dos estudos após dez anos, evitando assim que se leve em conta a morbidez e a mortalidade em longo prazo; a fixação de cinco anos de sobrevida como cura; a não identificação de nenhuma outra doença a não ser o câncer; a divulgação da redução dos casos de câncer infantil quando, na realidade, as crianças se tornaram adultas e já não figuram na base de dados; a contabilização restrita dos sobreviventes; a análise exclusiva da Rússia, Bielorússia e Ucrânia. E dezenas de outras manipulações.

Entre 1950 e 1995, nos Estados Unidos, o número anual de novos casos de câncer cresceu 55%, segundo o Instituto Nacional do Câncer. Observa-se uma tendência semelhante na Europa, assim como em todos os países industrializados. Os cânceres não ligados ao tabagismo contribuem com aproximadamente 75% desse aumento e não podem ser explicados por uma detecção mais apurada ou pelo envelhecimento das populações [12]. Esse crescimento acompanha a evolução do produto nacional bruto e da industrialização e sua causa mais evidente, a poluição química e radioativa do ambiente, é ignorada. De maneira muito perversa, prefere-se censurar os maus hábitos das vítimas.

Em um futuro próximo, esta e outras enfermidades resultantes da contaminação nuclear estarão bem mais arraigadas no planeta do que as “grandes assassinas” (afecções respiratórias infecciosas agudas, diarréia, malária, tuberculose e AIDS), doenças ligadas à pobreza e que matam cerca de cem mil pessoas por dia, mas não chamam a atenção para as vítimas. A epidemia do câncer já afeta as camadas privilegiadas e instruídas da sociedade, que exigem explicações científicas sérias e uma prevenção real, ou seja, um ataque direto ao problema. Tanto que associações de doentes começaram a conclamar o boicote das poderosas organizações beneficentes, claramente ligadas às indústrias farmacêuticas e de equipamento médico. Outras vítimas tentam levar à Justiça os responsáveis pela dissimulação dos verdadeiros perigos da energia nuclear.

Por isso, o desvio científico e a íntima relação entre a indústria e as instituições acadêmicas deveriam estar no centro das preocupações da OMS. Quando eleita diretora-geral, Margaret Chan garantiu que um dos atributos da organização era sua hegemonia sobre a saúde pública. “Nós dispomos de autoridade absoluta em nossas diretivas”, declarou. Porém, no domínio da radioatividade, seria mais justo se Chan reconhecesse que é a AIEA quem detém essa “autoridade absoluta” e tentasse mudar o quadro.

Mas não se pode contar com os Estados-membros da OMS para tomar providências. Como observou The Lancet em seu já mencionado editorial, “os governos, no âmbito nacional e regional, faltam regularmente ao dever de colocar suas populações antes do lucro”. Neste sentido, o doutor Mae Wan Ho e outros integrantes da Scientists for Global Responsability (Cientistas pela Responsabilidade Global) esboçam uma Convenção do Saber [13], com o objetivo de garantir o desenvolvimento de uma pesquisa independente e séria sobre as conseqüências sanitárias das atividades nucleares civis e militares, assim como a divulgação dos resultados sem obstrução.



[1] Charaf Abdessemed, “Les antinucléaires font le piquet devant l’OMS”, Genebra Home Information, 6 e 7 de junho de 2007.

[2] Organização autônoma colocada sob a égide das Nações Unidas em 1957, a AIEA serve de fórum intergovernamental mundial para a cooperação técnica na utilização pacífica de tecnologias nucleares.

[3] Nesta assembléia, as delegações dos 193 Estados-membros determinam as políticas da organização.

[4] “Chernobyl’s legacy: health, environmental and socio-economic impacts, 2003-2005”, Viena, abril de 2006.

[5] Michel Fernex, “La santé : état des lieux vingt ans après”, in Galia Ackerman, Guillaume Grandazzi e Frédérick Lermarchand, Les Silences de Tchernobyl, Paris, Autrement, 2006.

[6] Pierpaolo Mittica, Rosalie Bertell, Naomi Rosenblum e Wladimir Tchertkoff, Chernobyl : the hidden legacy, Londres, Trolley Ltd, 2007.

[7] Alex Rosen, [“Effects of the Chernobyl catastrophe: literature review”

[8] Le Monde, 28 de agosto de 1986.

[9] “The tightening grip of big pharma”, The Lancet, 14 de abril de 2001

[10] Rosalie Bertell, No immediate danger: prognosis for a radioactive earth, Toronto, Women’s Press, 1985.

[11] Chris Busby, Wolves of water: a study constructed from atomic radiation, morality, epidemiology, science, bias, philosophy and death, Aberystwith, Green Audit, 2006. Wladimir Tchertkoff, Le crime de Tchernobyl: le goulag nucléaire, Arles, Actes Sud, 2006. Permanent People’s Tribunal, International Medical Commission on Chernobyl, Chernobyl environmental, health and human rights, Viena, 12 a 15 de abril de 1996.

[12] Samuel Epstein, Cancer-Gate. How to win the losing cancer war, Nova York, Baywood, 2005.

[13] “Towards a Convention on Knowledge”, Cambridge, Institute of Science and Society.


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