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CULTURA / LÍNGUAS

Falar o árabe

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A retórica e a eloqüência da tradição literária árabe remontam a mais de mil e duzentos anos. Foram escritores de Bagdá, como Al-Jahiz e Al-Jurjani, que elaboraram, então, sistemas inacreditavelmente inteligentes e modernos. Seu trabalho baseou-se no texto do Corão, que se tornou o modelo de tudo o que veio depois dele em matéria lingüística

Edward W. Said - (24/03/2008)

Como falar e escrever o árabe? A questão é particularmente intrincada por depender de fatores ideológicos que não têm nada a ver com a vivência mesma da língua pelos locutores autóctones. Não sei de onde vem a concepção de que o árabe exprimiria uma violência aterradora e incompreensível, mas é evidente que todos aqueles malfeitores de turbante das telas de Hollywood dos anos 1940 e 1950, falando com sádico prazer a suas vítimas, em um tom rude e agressivo, têm algo a ver com isso. Mais recentemente, veio se somar a contribuição trazida pela verdadeira fixação da mídia norte-americana no terrorismo, que parece resumir tudo o que diz respeito aos árabes.

E, no entanto, a retórica e a eloqüência na tradição literária árabe remontam a mais de mil e duzentos anos: foram os escritores de Bagdá, como Al-Jahiz e Al-Jurjani, que elaboraram sistemas inacreditavelmente complexos e modernos de compreensão da retórica, da eloqüência e das figuras de linguagem. Mas seu trabalho baseia-se no árabe clássico escrito, e não naquele cotidianamente falado. Pois o primeiro é dominado pelo Corão, que é, ao mesmo tempo, origem e modelo de tudo o que vem depois dele em matéria lingüística.

Expliquemos este aspecto, pouco familiar aos usuários das línguas européias modernas, nas quais as versões faladas e literárias coincidem e a Sagrada Escritura perdeu inteiramente sua autoridade verbal.

Todos os árabes utilizam um dialeto falado que varia de maneira considerável de uma região a outra. Eu cresci em uma família cuja língua era uma mistura do que era comumente falado na Palestina, no Líbano e na Síria: esses três dialetos apresentavam diferenças suficientes para que se pudesse distinguir, por exemplo, um habitante de Jerusalém de outro de Beirute ou de Damasco, mas todos os três podiam se comunicar sem maiores dificuldades.

Como freqüentei a escola no Cairo, onde passei a maior parte de minha juventude, eu também falava fluentemente o dialeto egípcio – muito mais rápido e elegante do que aquele aprendido em família. Além disso, o egípcio era mais conhecido: quase todos os filmes árabes, os dramas transmitidos pelo rádio e, mais tarde, as novelas de televisão eram produzidos no Egito. Assim, a língua egípcia tornou-se familiar aos habitantes de todo o mundo árabe.

Durante os anos 1970 e 1980, o boom do petróleo acarretou a produção de novelas televisionadas em outros países, desta vez em árabe clássico. Tais novelas, pomposas e pesadas, com os personagens vestidos a caráter, deveriam supostamente se adequar melhor ao gosto dos muçulmanos (e dos cristãos antiquados, em geral mais puritanos), que poderiam se chocar com os filmes cairotas cheios de verve. Para nós, eram terrivelmente chatas! A musalsal (novela) egípcia, toda improvisada, nos divertia mil vezes mais do que o melhor dos dramas feitos sob medida em língua clássica.

De qualquer forma, de todos os dialetos, só o egípcio teve tal divulgação. Eu teria a maior dificuldade do mundo para compreender um argelino, tamanha é a diferença entre os dialetos do Machrek e do Magreb [1]. E teria a mesma dificuldade frente a um iraquiano ou a alguém que falasse com o forte sotaque do Golfo. É por isso que as informações divulgadas por rádio ou televisão recorrem a uma versão modificada e modernizada da língua clássica, que pode ser compreendida pelo conjunto do mundo árabe, do Golfo ao Marrocos.

A exemplo do que ocorreu com o latim em relação aos dialetos europeus falados até um século atrás, o árabe clássico permaneceu vivo e presente enquanto língua comum da escrita, apesar dos imensos recursos de dialetos que, com exceção do caso egípcio, nunca foram difundidos além do país em que são usados.

Mesmo os escritores ditos “regionais” tendem a utilizar a língua clássica moderna e só recorrem ao árabe dialetal ocasionalmente. Na prática, uma pessoa culta exercita, de fato, dois usos lingüísticos muito distintos. A tal ponto que, se estiver conversando informalmente em dialetal com um repórter de jornal ou televisão, quando a gravação começar de fato você passará para a língua clássica, mais formal e elaborada.

Existe, evidentemente, um elo entre os dois idiomas: as letras são idênticas e a ordem das palavras também. Mas os termos e a pronúncia diferem à medida que o árabe clássico, norma culta da língua, perde qualquer marca de dialeto local ou regional e emerge como um instrumento sonoro, cuidadosamente modulado, extraordinariamente flexível, cujas fórmulas permitem uma grande eloqüência. Corretamente utilizado, o árabe clássico é incomparável, no que diz respeito à precisão da expressão e à surpreendente maneira pela qual as variações das letras individuais em uma palavra (particularmente as terminações) permitem expressar coisas muito diferentes.

É também uma língua que funciona como ponto de convergência único relativamente à cultura árabe. Assim escreveu Jaroslav Stekevych, autor da melhor obra moderna [2] sobre o assunto: “como Vênus, ela nasceu em um estado de beleza perfeita, e conservou essa beleza a despeito das peripécias da história e das forças do tempo”. Para o estudante ocidental, “o árabe sugere uma idéia de atração quase matemática. O sistema perfeito das três consoantes radicais, as formas aumentativas dos verbos com seus significados básicos, a formação precisa do substantivo verbal, dos particípios. Tudo é clareza, lógica, sistema e abstração”. O árabe, em sua forma escrita, é também um belo objeto de contemplação. De onde o papel central e duradouro da caligrafia, arte combinatória da mais alta complexidade, mais próxima do ornamento do que da explicitação discursiva.

Durante os primeiros dias da guerra no Afeganistão, na emissora árabe de televisão Al-Jazira, eram apresentadas discussões e reportagens impossíveis de serem vistas na mídia norte-americana. O surpreendente, deixando de lado o conteúdo desses programas, era, apesar da complexidade das questões abordadas, o alto nível de eloqüência que caracterizava os participantes, mesmo os mais repulsivos, inclusive Osama bin Laden. Este falava com uma voz doce, sem hesitar nem cometer o menor lapso, o que certamente contribuiu para que adquirisse sua influência. Era também o caso, em menor grau, de não-árabes, como os afegãos Burhanuddin Rabbani e Gulbuddin Hekmatyar, que recorreram com extraordinária facilidade à língua clássica, por não dominarem o árabe dialetal.

Evidentemente, aquilo que hoje em dia é chamado de árabe padrão moderno (ou clássico) não é bem a língua em que foi escrito o Corão, há quatorze séculos. Apesar de o livro sagrado continuar sendo um texto muito estudado, sua língua parece antiga e até enfática e, portanto, não utilizável na vida diária. Comparada à prosa moderna, ela tem ares de poesia sonora.

O árabe clássico moderno é resultado do processo de modernização iniciado durante as últimas décadas do século 19 – o período da Nahda, ou Renascimento. Esse trabalho foi mérito, principalmente, de um grupo de homens da Síria, do Líbano, da Palestina e do Egito – dentre os quais, um número surpreendente de cristãos. Eles se dedicaram coletivamente à transformação da língua árabe, modificando e simplificando um pouco a sintaxe original do século 17 e promovendo uma arabização (isti’rab). Tratava-se de introduzir palavras como “trem”, “companhia”, “democracia” ou “socialismo”, que evidentemente não existiam durante o período clássico. Como? Utilizando os enormes recursos da língua, graças ao procedimento gramatical da al-qiyas, a analogia. Tais pioneiros impuseram todo um novo vocabulário, que representa atualmente cerca de 60% da língua clássica padrão. Desta forma, a Nahda levou a uma libertação em relação aos textos religiosos, introduzindo sub-repticiamente um novo secularismo.

Por sua lógica, a gramática árabe é tão sofisticada e sedutora que um aluno mais velho a estuda com grande facilidade, pois pode apreciar as sutilezas de seu raciocínio. Ironicamente, é nos institutos lingüísticos do Egito, Tunísia, Síria, Líbano e Vermont que o melhor ensino do árabe é ministrado a não-árabes.

Quando a guerra árabe-israelense de 1967 me levou ao engajamento político à distância, uma coisa me impressionou, mais do que tudo: a política não era feita em ‘ameya, ou língua do grande público, como é chamado o árabe dialetal, mas, na maioria das vezes, em rigoroso e formal fosha, a língua clássica. Compreendi rapidamente que as análises políticas eram apresentadas nas manifestações e reuniões de modo a parecerem mais profundas do que realmente eram. Para minha grande decepção, descobri que isso era particularmente verdadeiro no que dizia respeito às abordagens dos marxistas e dos movimentos de libertação da época: as descrições de classes, de interesses materiais, do capital e do movimento operário eram arabizadas e dirigidas, em longos monólogos, não ao povo, mas a outros militantes sofisticados.

Políticos populares como Yasser Arafat e Gamal Abdel Nasser, com quem tive contato, utilizavam muito melhor o dialetal do que os marxistas, que eram mais cultos do que os líderes palestino e egípcio. Nasser, principalmente, falava às massas em dialeto egípcio, ao qual acrescentava as frases sonoras do fosha. Quanto a Arafat, dado que a eloqüência árabe depende muito da entonação, tinha a fama de orador abaixo da média: seus erros de pronúncia, suas hesitações e seus circunlóquios inábeis pareciam, para o ouvido educado, um elefante em uma loja de porcelana.

A Universidade Al-Azhar, do Cairo, é uma das mais antigas instituições de ensino superior do mundo. Constitui também a sede da ortodoxia islâmica, pois seu reitor é a mais alta autoridade religiosa do Egito sunita. Mais ainda: Al-Azhar ensina – essencial, mas não exclusivamente – o saber islâmico, centrado no Corão e em tudo o que o acompanha em matéria de interpretação, jurisprudência, hadiths [3], língua e gramática.

O domínio do árabe clássico encontra-se, portanto, no próprio cerne do ensino islâmico de Al-Azhar. Pois os muçulmanos consideram o Corão como o Verbo de Deus, não criado, mas “descido” (munzal) à Terra por meio de uma série de revelações feitas a Muhammad (Maomé). Conseqüentemente, a língua do Corão é sagrada: ela contém regras e paradigmas obrigatórios para aqueles que a utilizam, apesar de, paradoxalmente, estes não poderem imitá-la, por razões doutrinárias (ijaz).

Há sessenta anos, as pessoas escutavam os oradores e comentavam incansavelmente tanto o que eles diziam quanto a correção de sua linguagem. Quando fiz meu primeiro discurso em árabe, no Cairo, há vinte anos, um de meus jovens parentes se aproximou de mim, depois que acabei, para me dizer o quanto ele estava decepcionado. “Mas você entendeu o que eu disse?”, perguntei a ele em tom de queixume – minha principal preocupação era ser compreendido em relação a alguns pontos delicados de filosofia e política. “Ah sim, é claro!”, ele respondeu em tom de desdém, “mas você não foi suficientemente eloqüente”.

Essa recriminação ainda me persegue quando falo em público. Sou incapaz de me transformar em um orador eloqüente. Misturo os idiomas dialetal e clássico de modo pragmático, com resultados sofríveis. Como alguém observou delicadamente certa vez, pareço uma pessoa que tem um Rolls Royce, mas prefere utilizar o Volkswagen.

Somente ao longo dos últimos dez ou quinze anos é que descobri isto: a melhor, a mais depurada, a mais incisiva expressão árabe que já li ou ouvi não foi escrita por críticos, mas por romancistas, como Elias Khury ou Gamal Al-Ghitany. Ou por nossos dois maiores poetas vivos, Adonis e Mahmud Darwish: cada um deles atinge, em suas odes, alturas rapsódicas tão elevadas que arrebatam enormes auditórios, em frenesi de encantamento entusiasta.

Para eles, a prosa é um instrumento aristotélico afiado como uma navalha. Seu conhecimento da linguagem é tão imenso e natural, seus dons tão poderosos, que eles podem ser, ao mesmo tempo, eloqüentes e claros, sem precisar de palavras que alongam o texto e nada acrescentam a ele, de verbosidade cansativa ou de exibição vã. Ao passo que eu, que não me formei pelo sistema escolar nacional árabe (por oposição ao sistema colonial), preciso me esforçar para pôr correta e claramente em ordem uma frase em árabe clássico – com resultados nem sempre convincentes em termos de elegância, devo admitir.



[1] Machrek significa “Levante” (ou Leste, onde o Sol se levanta), por oposição a Maghreb, “Poente”.

[2] Reorientation. Arabic and persian poetry, Bloomington, Indiana University Press, 1994

[3] Palavras e atos atribuídos ao profeta Muhammad (Maomé) e a seus companheiros.


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