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Pátria sem chuteiras

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Os clubes na periferia global são hoje quem produz ou garimpa talentos. Mas empobrecem e perdem, aos poucos, sua ligação simbólica com o torcedor. Nações como o Brasil, que têm no futebol uma pedra fundamental de sua identidade, deixam de se sentir representadas pela seleção nacional

Rafael Evangelista, Tiago Soares - (26/03/2008)

O que um atacante francês tem em comum com um marxista inglês?

Faz pouco tempo, Michel Platini, astro máximo do futebol francês, atual presidente da União Européia de Futebol (UEFA), cutucou a crônica futebolística inglesa ao defender que “é a minha filosofia proteger a identidade dos clubes e dos países. Um jogo entre Manchester United e Liverpool deveria ser entre jogadores de Manchester e Liverpool, entre jogadores dessa regiões. No Arsenal, hoje vocês não têm um treinador inglês, nem jogadores ingleses, e, talvez, o clube nem tenha um presidente inglês daqui a bem pouco tempo” [1].

Mais ou menos na mesma época, o legendário Eric Hobsbawm, historiador inglês de cepa marxista, soltava à seleta audiência do The Times Cheltenham Literature Festival, suas sacadas a respeito do futebol como “cartilha das contradições internas do capitalismo no tempo do Estado-Nação” [2].

“O processo que transformou camponeses em cidadãos franceses, bem como imigrantes em estadunidenses, vem sofrendo uma reversão”, apontou Hobsbawm. E completa: “O Estado-Nação está se esfarelando, e não conseguimos nos entender sem ele. De algum modo, o mundo não parece ser completamente globalizável. Da mesma maneira como clubes e o futebol mundial precisam coexistir, a globalização deve coexistir com os interesses nacionais que ainda têm força o suficiente para se estabelecerem.”

O argumento do sábio marxista é simples: tanto o futebol mundial é incapaz de viver sem o futebol nacional como a globalização, completamente livre do Estado-Nação, tornará o mundo algo ingovernável.

Hoje, o Manchester United disputa o campeonato inglês mais por ser uma das mais rentáveis empresas futebolísticas do mundo do que por ter vínculos com Manchester, sua cidade de origem

Platini e Hobsbawm falam do ponto de vista europeu, realidade bastante distorcida para a audiência latino-americana. Imaginamos aqui que os times da Europa, em razão da excelência de suas administrações, tornaram-se grandes pólos atrativos de verbas publicitárias de empresas e, assim, transformaram-se no lugar de trabalho preferencial dos trabalhadores mais competentes do mundo.

Mas é um pouco mais complicado. Hoje, não são exatamente clubes que competem pelas ligas européias, em especial pela Liga Inglesa. Usando os mesmos brasões e cores dos antigos times, corporações altamente internacionalizadas tomaram seu lugar. Sem muita preocupação em manter o vínculo e a identidade local, essas empresas contratam profissionais do mundo todo, transformando o vestiário do time em uma autêntica torre de Babel. Em 2007, na Champions League (o campeonato inter-continental europeu), 95 dos jogadores registrados eram brasileiros, contra 94 franceses e 45 ingleses.

Assim, o fato de um Manchester United disputar a liga inglesa tem, atualmente, mais a ver com o fato de ela ser uma das mais rentáveis empresas futebolísticas do mundo do que seus jogadores, diretores e comissão técnica terem algum vínculo com Manchester, a cidade-sede do time. Nas palavras de Hobsbawm, o futebol tornou-se um negócio global dominado pelo “imperialismo de uma poucas empresas capitalistas”.

Além disso, o que pouca genta fala é sobre como a neutralização da identidade nacional no futebol europeu, visualizada pelo historiador, anda lado a lado com a deslocalização do futebol jogado nos países exportadores de pé-de-obra. A migração desenfreada de jogadores, mais que mudar o jeito como o jogo é jogado nos países recebedores da tecnologia futebolística, transforma, também, o futebol ao Sul.

O processo afeta também as seleções nacionais. Para o mercado, a equipe brasileira é muito mais um item comercializável que uma marca da cultura do país

Não são poucos os que defendem a idéia de uma pasteurização do futebol global. Jogadores retirados novos demais de seus ambientes, antes mesmo de apreenderem os códigos específicos do jogo como conhecido em suas paragens, vão para o Norte. Enquanto isso, ao Sul, jogadores cada vez mais jovens, ansiosos, determinados a receberem noções puras, desnacionalizadas de técnica e tática, prontos para jogarem tanto na Espanha, quanto na Itália, Inglaterra, França ou Ucrânia. Afinal, jogadores adaptados ao futebol europeu têm mais liquidez enquanto ativo financeiro, coisa valiosíssima num mercado tão azeitado.

Isso tudo impacta, além dos clubes, as seleções nacionais. A tensão é clara. Para as forças de “mercado”, o time nacional, mais que uma mediação entre as muitas culturas do futebol nacional e uma ferramenta de sedimentação cultural no debate global, tornou-se uma instância de inserção do futebol brasileiro como item comercializável no mercado internacional de entretenimento.

Por motivos óbvios, não podemos, ainda, exportar a tecnologia toda. Mas nos colocamos como produtor de matéria-prima de excelência. E os estragos são claros.

Existiu um tempo em que a seleção brasileira, mais que gatilho de mercado, parecia ter um papel de diálogo. Primeiro, entre as escolas futebolísticas dos times daqui: cada jogador da seleção representava uma escola de jogo, dependendo do time do qual vinha. Isso porque o Brasil é um país grande, e essa mediação entre escolas de jogo fazia o futebol nacional fazer sentido para todos — do Rio Grande do Sul ao Nordeste. Um time com atacantes cariocas, meias paulistas, volantes mineiros, zagueiros gaúchos, laterais baianos e paranaenses misturava e obrigava todas essas escolas futebolísticas a conversarem entre si, aprenderem e trocarem informações umas com as outras.

Com personalidade forte e bastante nacionalista, Scolari restabeleceu a identidade com o torcedor. Fez o mesmo em Portugal, em 2006, como se fosse técnica de gerenciamento empresarial

De certa forma, até meados da década de 1970, é essa a tensão do futebol brasileiro. A Copa de 1982 parece ter sido o réquiem melancólico da fórmula mágica para o selecionado nacional. A geração de Zico, Sócrates, Júnior e Falcão foi a última a ter, ainda, alguma dificuldade de diálogo com o futebol europeu.

Até que, em 1994, o processo completou-se. Carlos Alberto Parreira conseguiu formar sua seleção com jogadores já com curta passagem pelo futebol nacional. Taffarel, Branco, Mauro Silva, Bebeto, tinham identificação tênue com times brasileiros. Romário era muito mais do Barcelona do que do Vasco. Não fosse a seca de Copas, a comemoração do título teria sido ainda mais pífia do que foi. Final nos pênaltis, vitórias sem empolgação. Zagallo poderia usar todo o pulmão do mundo ao gritar pela “amarelinha” que a sensação não passava: aquilo não era bem o Brasil.

Em 2002, Scolari conseguiu reverter um pouco o quadro. Os tempos de paridade artificial entre dólar e real, em meados da década de 1990, trouxeram de volta ao Brasil, ou seguraram, mesmo que por breves períodos de tempo, os craques mundiais. Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos, Kléberson, Denílson, Marcos, Luizão, Júnior, Edmílson eram jogadores que ou atuavam no Brasil, ou tinham passado por times do país muito recentemente. Com apenas duas exceções: Ronaldo, com brevíssima passagem pelo Cruzeiro, e Ronaldinho, que saiu de maneira atribulada do Grêmio.

Com personalidade forte e bastante nacionalista, Scolari restabeleceu, na escalação e no grito, a identidade do torcedor com o selecionado. Conseguiu fazer o mesmo com a seleção de Portugal, em 2006, repetindo a experiência de organizar a seleção e criar uma identidade com o torcedor como se fosse uma técnica de gerenciamento empresarial.

Embora lucrativa para os investidores, esta estrutura corre o risco de desmoronar sobre si mesma. Pior para os clubes, pior para o futebol, pior para os países

Voltando a Hobsbawm, entendemos o curto-circuito em curso atualmente. Como outros teóricos do Estado-Nação, o historiador percebe a identidade nacional não como algo dado, fixo por fronteiras geográficas. A nação é uma comunidade imaginada, uma ligação entre pessoas que se estrutura materialmente na história coletiva, mas se cristaliza na cultura e no sentimento de que todos têm algo em comum.

São os clubes que hoje estão na periferia do futebol que produzem ou garimpam os talentos. Os mesmos que empobrecem progressivamente e cuja ligação simbólica com o torcedor diminui. É a mesma situação das seleções nacionais, formadas, hoje, por cidadãos com dupla nacionalidade ou por pessoas que já passaram mais da metade de suas vidas adultas vivendo no exterior. E nações, como o próprio Brasil, que têm no futebol uma das pedras fundamentais de sua identidade, deixam de se sentir representadas por aqueles onze de chuteiras.

Ou, como sintetizado pelo historiador, “não é a identidade nacional nem local que define a economia do futebol hoje”. O que temos é um consórcio de prósperos times do oeste europeu que constroem a si mesmos como marcas globais, lucrando com a venda de camisetas e direitos internacionais de transmissão dos jogos pela televisão. Sugando os grandes talentos para as ligas européias e tornando-as um produto para consumo global, o novo futebol tira a qualidade dos campeonatos de outras partes do planeta, enfraquece os clubes (e seleções) dos países mais pobres e compete pela preferência do torcedor mundializado.

Enfim, trata-se de uma estrutura que, embora lucrativa para os acionistas/investidores do mercado global de entretenimento, corre o risco de, assentada sobre o esvaziamento da relação entre clubes e cultura de torcida, desmoronar sobre si mesma. Levando junto a identificação das arquibancadas com suas seleções nacionais. Pior para os clubes, pior para o futebol, pior para os países.



[1] Michel Platini calls for reforms to English game Telegraph.com.uk, 27/11/2007.

[2] Football and the old Marxist who says that it explains the new world. TimesOnline, 06/10/2007.

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