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LITERATURA

Mapeando a cidade invisível

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Se a mitologia penetrante e luminosa da Paris de Hemingway não é mais reproduzível, Vila-Matas acaba por conceber um tipo de mitologia pessoal e específica sobre seu romance de estréia.

Marco Polli - (29/03/2008)

Na parte final da sua vida, entre 1957 e 1960, Ernest Hemingway trabalhou em uma revisão de seus anos de juventude na capital francesa. Esse trabalho, que mistura relato e ficção, tornou-se um ícone cultural: muita gente, mesmo sem ter lido A moveable feast, reconhece a imagem da Paris artisticamente febril, festiva e eterna, tal como a narrada pelo autor americano. Porém, como qualquer elemento levado a um status mítico, essa capital é tão conhecida quanto intangível. Povoada por autores aparentemente insuperáveis e irradiando uma gravidade mitológica, a cidade verbalizada por Hemingway é simultaneamente um ponto de inspiração e uma fantasmagoria para Enrique Vila-Matas em seu romance Paris não tem fim (Editora Cosac Naify, tradução de Joca Terron).

Na década de 1970, Vila-Matas também passou por um período de formação pessoal e artística em Paris. Ele trabalhava em um romance, La asesina ilustrada, morando em uma água-furtada alugada de Marguerite Duras. Em Paris não tem fim, Vila-Matas se propõe a rever ironicamente essa época, zombando do esforço de se assemelhar a Hemingway. As suas experiências parisienses são narradas a partir de referências literárias, sejam de cenas específicas de A moveable feast, de incontáveis citações, ou de relatos sobre outros autores. Se Hemingway nos fala de encontros estendidos com Ezra Pound, Scott Fitzgerald e Maddox Ford, Vila-Matas tem, por exemplo, um esquivo George Perec, um Samuel Beckett de relance, e um duvidoso Borges.

“O caráter se forma nos domingos à tarde” (Ramon Éder), “A vida é curta, e ainda assim nos aborrecemos” (Jules Renard), “O crime deve ser solitário e sem cúmplices” (Oscar Wilde). Do mesmo modo que em seus livros anteriores, como O mal de montano e Bartleby e companhia, o texto de Vila-Matas aqui é construído de forma fragmentária, impulsionado antes de tudo pela profusão de citações literárias. (Vários dos diálogos também contêm referências, algumas não explicitadas, tal quando um amigo diz que “claro que há [esperança], mas não para nós”, uma alusão a Kafka). Dessa forma, Paris não tem fim não exibe feições de romance linear, e temas como ironia, memória e composição literária são visitados repetitivamente em digressões, numa abordagem quase cubista. Percebe-se o esforço de Vila-Matas para criar ângulos diferenciados: ele traz essas numerosas citações e aponta a força da literatura passada, mas, simultaneamente, tenta recombinar esses elementos e construir um olhar pessoal.

Enquanto cita e fala de grandes autores, o jovem Vila-Matas se vê protelando o término da sua primeira obra. Ele tem certeza que a publicação servirá apenas para expor o seu amadorismo. Várias das suas decisões a respeito de La asesina ilustrada vão sendo explicadas e contextualizadas – sua grande decepção é descobrir que uma das suas idéias principais já havia sido utilizada por Agatha Christie. E se a mitologia penetrante e luminosa da Paris de Hemingway e outros grandes autores não é mais reproduzível, Vila-Matas, também ao misturar memória e ficção, acaba enfim por conceber um tipo de mitologia pessoal e específica sobre seu romance de estréia [1]. Em Paris não tem fim, há uma discussão sobre a natureza da ironia – fuga ou confrontação da realidade? –, o livro demonstra que ela também é uma forma de confrontar e reaproveitar os nossos mitos mais importantes.



[1] Em termos exatos, apesar do que indica Paris não tem fim, La asesina ilustrada (1977) é o segundo romance publicado de Vila-Matas. O primeiro foi Mujer en el espejo contemplando el paisaje (1973).

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