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CULTURA PERIFÉRICA

Arte de rua, democracia e protesto

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São Paulo saúda, a partir de 27/3, o grafite. Surgido nos anos 70, e adotado pela periferia no rastro do movimento hip-hop, ele tornou-se parte da paisagem e da vida cultural da cidade. As celebrações terão colorido, humor e barulho: contra a prefeitura, que resolveu reprimir os grafiteiros

Eleilson Leite - (28/03/2008)

Nesta quinta-feira, 27 de março, a ONG Ação Educativa e dezenas de artistas deram início mais uma vez às comemorações do Dia do Grafite. A data, celebrada desde 1988, faz referência à morte de Alex Vallauri, um dos pioneiros da arte de rua no Brasil, ocorrida no ano anterior. O dia 27 de março, porém, nunca foi oficializado nacionalmente. No final da década de 80, o então deputado federal Fabio Feldmann (PSDB/SP) chegou a apresentar um projeto de lei na Câmara dos Deputados com esse objetivo, mas a proposta acabou sendo engavetada. Em 2004, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou projeto do vereador Odilon Guedes (PT) e criou a lei 13903/2004, que finalmente reconhecia a data, pelo menos na capital paulista. A decisão foi sancionada pela prefeita Marta Suplicy, e o Dia do Grafite passou a integrar o calendário de datas e eventos oficiais da Cidade.

A lei foi proposta a pedido de jovens grafiteiros da periferia do Jabaquara, com os quais Odilon Guedes se relacionava na época em que foi sub-prefeito da região. O curioso é que a Ação Educativa comemorava desde 2004 o Dia do Grafite, sem ter conhecimento do projeto em tramitação. Em 2006, a ONG procurou a vereadora Soninha, cuja assessoria “descobriu” a Lei. No ano passado, portanto, o 27 de março já foi comemorado com consciência da oficialização.

Mas a alegria dos grafiteiros paulistanos durou pouco. Por conta da Lei Cidade Limpa, que retirou os anúncios publicitários externos e disciplinou o uso das placas de identificação dos estabelecimentos comerciais na cidade, o grafite começou a ser perseguido em 2007. Muitas pinturas foram apagadas pela prefeitura. Até desenhos de grafiteiros famosos como os Os Gêmeos, foram retirados. Questionada, a administração municipal negou ação deliberada contra o grafite. Andrea Mattarazzo, secretário das Sub-Prefeituras, alegou que as empresas terceirizadas muitas vezes não distinguem o grafite da pichação e acabam cometendo equívocos. O fato é que muitas obras sumiram da Cidade. Diversos casos foram relatados pela imprensa e a polêmica se estabeleceu.

A gestão do prefeito Gilberto Kassab tenta se explicar, mas nunca deu a devida importância para o grafite e não fez valer a data oficial. A prefeitura teria por obrigação comemorar a data. Deveria mobilizar as secretarias de Cultura, Educação, coordenadoria de Juventude e todos os órgãos afeitos ao tema para realizar atividades voltadas à arte de rua. Passaram 2005 e 2006 e nada, ou muito pouco, foi feito. A Ação Educativa procurou as autoridades e não obteve nenhum apoio.

Protesto colorido terá intervenções itinerantes pelo centro e principalmente nas periferias. Durante cinco finais de semanas, mais de cem grafiteiros nas ações

Até que, em 2007, Kassab tomou uma atitude. Mas seu gesto é uma afronta ao grafite. Ele retira, por meio da Lei 14485/2007, o Dia do Grafite do calendário oficial da Cidade de São Paulo. Mais do que uma omissão, a decisão abre uma brecha para a criminalização da arte do spray, que ficou sem amparo legal. Para a lei, é crime.

Seu valor artístico foi o que lhe conferiu certa tolerância. Fosse o grafite reconhecido pela legislação municipal, o artista teria uma salvaguarda diante de uma ação policial, por exemplo. Agora, isso acabou. Grafiteiros e pichadores, que sempre se respeitaram, estão no mesmo barco. Artistas do spray, uni-vos, vocês são todos criminosos em potencial!

Diferente da pichação, o grafite é feito, na maioria das vezes, sob consentimento do proprietário do muro — seja privado ou público. Até porque uma pintura pode levar dias para ficar pronta. Grafite é arte. É artetude, como dizem alguns. Já pensou, um policial retirar o spray de um artista no meio de um desenho? Seria um “empata foda” fenomenal, como se diz no Ceará.

Preocupados com essa situação, os grafiteiros reunidos pela Ação Educativa, neste 27 de Março, estão protestando. Um protesto em cores vivas com alegria e humor. Ao invés de as atividades do evento ficarem restritas ao Espaço de Cultura da ONG, desta vez os artistas farão intervenções itinerantes pelo Centro e principalmente nas periferias da região metropolitana. Nos cinco finais de semana seguintes à data comemorativa, acontecerão pinturas. Começa no Bixiga, segue para o Grajaú, Cidade Tiradentes, Centreville ( Santo André), Cachoeirinha e Tucuruvi. Veja datas e locais no site da Ação Educativa. Mais de cem grafiteiros participarão das ações. E quem quiser ver o grafite transposto do muro para a tela vá ao espaço de Cultura da ONG.

Arte democrática e humanizadora: embora autorais, o desenho ficam expostos a todos. A condição efêmera lhe confere sentido de desprendimento e elimina a noção de posse

O grafite surgiu nas ruas de São Paulo na década de 1970, primeiro através das pichações poéticas e depois com a stencil art, técnica que consiste em aplicar desenhos moldados em máscaras de papel-cartão grosso, com reprodução seriada. Rapidamente, esse tipo de intervenção artística foi ganhando adeptos, tornando-se um movimento artístico de grande influência na capital paulista, chamando a atenção de todo o País.

Já na década de 1980, alguns grafiteiros tiveram seus trabalhos expostos na Bienal Internacional de Arte de São Paulo e passaram a ser requisitados para eventos e para trabalhos de publicidade. Durante a gestão da prefeita Luiza Erundina (1989 a 1992), grafiteiros foram chamados a realizar intervenções coletivas na cidade, iniciativa que contribuiu para superar o preconceito de setores da sociedade que confundiam o grafite com pichação.

Com o apogeu do movimento hip hop na década de 1990 o grafite amplia sua presença para as periferias e despertou a vocação artística de muitos jovens de baixa renda. Hoje, está incorporado de tal forma na vida urbana da metrópole que já faz parte da identidade paulistana. Exemplo maior disso é o sucesso da exposição O peixe que comia estrelas cadentes dos grafiteiros Os gêmeos, que levou mais de 50 mil pessoas a uma galeria de arte de São Paulo nos meses de julho a setembro de 2006, fato inédito no Brasil.

Com grande apelo junto aos jovens, o grafite é também um grande fator de mobilização social. Em todas as regiões metropolitanas do país, centenas de projetos sociais utilizam-se dele grafite como forma de inserção deste segmento em ações de cidadania. Em São Paulo, destaca-se o Projeto Quixote, ONG vinculada a Universidade Federal de São Paulo que proporcionou o aprendizado artístico de centenas de jovens e chegou a constituir uma cooperativa para abrir oportunidades de trabalho aos grafiteiros a ela associados. Outro exemplo é a ONG Escola Aprendiz, que transformou um beco abandonado na Vila Madalena numa galeria a céu aberto, visitada por turistas do mundo inteiro. Na Periferia da Zonal Sul, o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) de Interlagos destaca-se na arte do spray, formando inúmeros artistas e mantendo um espaço de cultura voltado para o grafite no Grajaú. Finalmente, há a ONG Ação Educativa, que tem em sua sede, na Vila Buarque, um Espaço de Cultura onde há um núcleo dedicado ao grafite e uma sala de exposição de grafites em tela, denominada Grafiteria.

Data recorda o pioneiro Alex Vallauri. Nasceu na Etiópia, adotou o Brasil. Criou personagens reproduzidos em stencil por toda a cidade. Participou de três edições da Bienal

O grafite é uma arte radicalmente democrática. Embora autoral, o desenho fica exposto a todos os cidadãos sem distinção ou qualquer tipo de restrição. A condição efêmera desta arte lhe confere um sentido de desprendimento que elimina a noção de posse da obra. O mais importante no grafite é a expressão. Nesse sentido é uma arte que humaniza o espaço urbano, dando cor e beleza aos muros da cidade.

No dia 27 de março de 1987 morreu Alex Vallauri, pioneiro do grafite no Brasil. Nascido na Etiópia em 1949, filho de italianos, Vallauri foi grafiteiro, pintor, artista gráfico, desenhista, cenógrafo e gravador. Chegou ao Brasil em 1965, em Santos, e logo se transferiu para São Paulo. Fez graduação em comunicação visual na FAAP onde, anos mais tarde tornou-se professor.

Depois de realizar especialização em Estocolmo, na Suécia, Vallauri inicia seus trabalhos em grafite em São Paulo. Passa uma temporada em Nova York entre 1982 e 1983, realizando grafites nesta Cidade com Jean Michel Basquiat entre outros artistas da época. De volta ao Brasil, intensifica seu trabalho como grafiteiro, criando personagens em stencil que são reproduzidos por toda a cidade. Participou de três edições da Bienal Internacional de Arte de São Paulo, sendo o primeiro grafiteiro a participar do evento. Na Mostra do MAM – Museu de Arte Moderna que se realiza na OCA do Ibirapuera em 2006 pode ser vista uma de suas principais obras.

Serviço:

Exposição Comemorativa :27 de Março Dia do Grafite
São 26 obras em tela e outros suportes.
Curadoria: Binho, Cedeca Interlagos, Celso Gitahy, Eymard Ribeiro, Júlio Dojcsar, Thiago Vaz, Tikka e Tota.
Período de Exposição: 28 de Março a 24 de Maio. Horário: das 10h as 20h de segunda a sexta-feira e das 10h as 16h aos sábados.
Rua General Jardim, 660, Vila Buarque, São Paulo, Fone 3151.2333 www.acaoeducativa.org
Grátis.

Mais:

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

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