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LITERATURA

Personagens de todos nós

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Por que a enorme riqueza cultural do Brasil não fez de nós, até hoje, um país de leitores? Retratos da noite memorável em que Chico Buarque, Caetano Veloso, Mia Couto e outros celebraram a obra de Jorge Amado, inspirando a busca de respostas para uma questão que permanece em aberto

Carolina Gutierrez, Marília Arantes - (31/03/2008)

Na platéia, estavam todos. Donas Flores, Vadinhos, Doutores Teodoros, Perpétuas, Tietas, Gabrielas, Teresas, Adalgisas, Cearenses, Gumas, Natários, Pedros Bala, Quincas. O público transmutava-se, sem saber, nos personagens daquele baiano Jorge – Jorge Amado.

No palco, uma máquina de escrever, disposta de frente para o público-personagens — como que dizendo escrevam-me, escrevam-se, leiam-me, leiam-se — espelhava, justamente pela sua postura dialógica, a obra de Amado: as pessoas, o povo brasileiro.

O evento realizado pelo Sesc Pinheiros, no último dia 25 de março, foi um mote para reviver os personagens de Jorge, relançados, agora, pela editora Companhia das Letras. O lotado teatro Paulo Autran aguardava dois homens que nem Dona Flor agüentaria: Chico Buarque e o arretado Caetano Veloso. Acompanhados de Mia Couto, Alberto Costa e Silva, Milton Hatoun e outros, todos deram suas interpretações da obra de Jorge.

Depois de Caetano quase sentar no colo de Danilo Miranda, diretor do Sesc, na tentativa desastrada de uma entrada discreta, subiram ao palco Miranda, Luiz Schwarcz – editor da Cia das Letras – e Paloma Amado, filha do escritor. Em seus dizeres, Paloma dividiu com o público, o que para ela é o grande ensinamento de seu pai : “O sonho é o bem mais precioso e ninguém pode tomar”. E citou, por iniciativa própria, a parte final do livro Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso.

Para Costa e Silva, Amado se fez tão brasileiro, que sua obra adquiriu a força de um imperialismo cultural e urbano. Levou todo povo brasileiro a ter um quê de baiano

O ator baiano Luis Miranda personificou os diversos malandros amadianos e comandou o espetáculo, uma mescla de leituras e dramatizações.

Saiu o malandro e uma luz azul tomou conta da penumbra do palco. Uma baiana, interpretada por Edna Aguiar, surgiu benzendo o palco com o canto de Iemanjá. Com a máquina de escrever, símbolo de toda uma obra, benzida por flores, as (re)leituras iniciaram-se. Odoyá!

Com o povo aprendi tudo quanto sei, dele me alimentei e, se meus são os defeitos da obra realizada, do povo são as qualidades porventura nela existentes. Porque, se uma virtude possui, foi a de me acercar do povo, de misturar-me com ele, viver sua vida, integrar-me em sua realidade. (AMADO, 1981: 12) [1]

Para o historiador Alberto Costa e Silva — o primeiro a ocupar a mesa de leitura — Amado materializou parte de si próprio e do mundo a sua volta em sua obra e personagens. O escritor era um grande observador e pôde, por isso, criar seus personagens de dentro para fora; afinal, os romances imitam a vida. “Jorge Amado foi testemunha de uma Bahia em transformação dos anos 30, 40, 50, 60. Assim, sua obra contém o ontem o hoje e o amanhã, de uma Bahia eternizada, restabelecida”, destacou Costa e Silva. Segundo ele, o autor se fez tão brasileiro, que sua obra adquiriu a força de um imperialismo cultural e urbano. Levou todo povo brasileiro a ter um quê de baiano.

Vadinho surgiu na pele do ator Marat Descartes. Ou seria o contrário? Provocador, malandro e inebriante, Vadinho-Descartes agarra-se às curvas de Dona Flor, entre gaiatas risadas. Chico leu justamente um trecho de Dona Flor e seus dois maridos. Entre risadas e olhares de quem acha graça, Chico, como que para compensar sua timidez, deu voz ao finado Vadinho — que volta dos mortos — numa passagem cravejada de Exuns, Iansãs, Oxóssis, Oxuns, sensualidade, embriaguez. E gritou: Saravá!

Mia Couto revela: "Falávamos uma língua que não nos falava. O português do Brasil revela outro lado da língua natal. O brasileiro de Jorge Amado nos devolvia a fala"

Caetano, mais aparecido que Chico, fez de tudo — cantou, leu e interpretou. Cantou É Doce Morrer no Mar, canção que Jorge Amado compôs com Dorival Caymmi, e Milagres do Povo. E leu dramaticamente um trecho de Mar Morto.

Fora as presenças ilustres, em pessoas ou imagens, a parte mais intensa do encontro veio à tona com a participação “transgressora” do escritor moçambicano Mia Couto. Ele preferiu pronunciar a importância de Amado aos africanos, em vez de simplesmente ler parte de um texto.

“Jorge Amado destacava o osso e a pedra da realidade brasileira”. Para Couto, Jorge Amado é uma literatura do povo — a poesia do trabalhador, do comum. E é, justamente, pela a simplicidade e naturalidade da obra e dos personagens-tipos de Amado que nasceu o fascínio africano por sua obra.

“A qualidade literária, a espontaneidade de suas histórias e personagens, tão reais como se os tivesse de encontro numa conversa, à sombra de uma varanda. Seus personagens transitavam por Maputo, por Luanda. Os vizinhos da vida passeavam pelas páginas de Amado: nossos malandros, nossas comidas, a sensualidade de nossas mulheres, víamos nós mesmos em Jorge Amado”, declarou Couto.

Para o moçambicano, Jorge Amado não escrevia livros, escrevia um país. “Foi assim que o Brasil chegou à África. É um Brasil que regressava à África. Precisávamos deste Brasil como alimento, num momento histórico que nos enriquecia com uma imagem que faltava, mesmo que caricata".

Quem devolve a fala, devolve também a leitura. A linguagem simples e a narrativa fluida podem atrair mais facilmente a leitura. Talvez o adubo Jorge Amado faça crescer a vontade de ler

A fala de Couto faz lembrar o que escreveu Luciano Suassuna, no artigo "O Brasil sem Jorge Amado" [2]: ”como o caixeiro viajante que, a cada passagem vê uma nova cidade, Jorge Amado somava tipos a cada livro, reconstruía o País e sua brasilidade”.

Mia Couto ainda ressaltou a função lingüística da obra amadiana. “Falamos um português sem Portugal. Falávamos uma língua que não nos falava”. O português do Brasil revela um outro lado da língua natal. “O brasileiro de Jorge Amado nos devolvia a fala. Uma outra, mais dançada, com mais jeito de ser nosso”. Com isso, explicou a literatura brasileira enquanto libertária para uma África que sonha em casa, que troca com o Brasil mutuamente identidades históricas. E fechou: “É como sonhar em casa, fazendo do sonho uma (só) casa”. Brasiliafricanidades.

Se Jorge Amado devolve a fala, devolve também a leitura. A linguagem simples e a narrativa fluida podem atrair mais facilmente a leitura. Mas, num país de tanto analfabetismo, essa tem de ser incentivada.

Segundo matéria "Brazil’s disregard for books", do The Economist [3], no Brasil, de cada três adultos alfabetizados, somente um lê livros. Os brasileiros médios lêem 1,98 livro não-acadêmicos ao ano – metade do índice europeu e norte-americano. Uma pesquisa recente de hábitos de leitura revelou que o Brasil se encontra na 27ª posição, entre 30 países. O brasileiro gasta em média, apenas, 5,2 horas por semana lendo um livro.

Num terreno infértil como esse, talvez o adubo Jorge Amado, faça crescer a vontade de ler.



[1] AMADO, Jorge. Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras. In: CURRAN, Marck. J. Jorge Amado e a literatura de cordel. Fundação Cultural do Estado da Bahia - Fundação Casa de Rui Barbosa. 1981

[2] SUASSUNA, Luciano. "O Brasil sem Jorge Amado" In:. IstoÉ Gente, 13 de agosto de 2001, p. 8.

[3] Brazil: A nation of non-readers. Mar 16th 2006.

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