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CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

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Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Daniel Cariello - (31/03/2008)

Um dia desses apareceu uma goteira na cozinha de casa. Era na parede, no alto, em cima de um armário. Provavelmente uma infiltração vindo do apartamento do vizinho de cima.

Quando morava no Rio, aconteceu uma situação semelhante. E o meu banheiro ficou inundado. Apesar da lentidão e da falta de boa vontade do habitante do andar superior, a situação se resolveu com alguns telefonemas. Eu liguei pra ele, que chamou a imobiliária. Alguns dias depois o Seu Luís, um simpático pedreiro e pintor da Tijuca, estava lá consertando tudo. Foi simples, como deve ser.

Aqui na França a coisa tomou uma outra proporção.

Assim que vi a goteira, liguei pro vizinho, que não atendeu. Deixei recado. Como o cara já tem um histórico de causador de problemas no prédio, todo mundo tem o telefone dos pais dele. Liguei lá também, outra vez sem sucesso. Então me restou chamar os bombeiros, antes que minha casa virasse uma extensão do Rio Sena.

— Vamos passar aí amanhã de manhã.

— Merci.

Na dia seguinte, batem à porta. Três bombeiros entram. Não eram hidráulicos, mas os de salvamento. Eu achei exagerado. Mas como não sou daqui, não disse nada a respeito.

— É aquela goteira ali? Enquanto um deles apontava, os outros dois faziam cara de preocupados, segurando o queixo.

— Sim.

— Sai água fria ou quente?

Sei lá a temperatura da água que sai da goteira. Não costumo ficar embaixo, esperando pingar.

— Acho que é fria.

— O vizinho está aí?

— Não.

— Vamos ter que entrar na casa dele pela janela.

— Hein?

— Você não quer parar a infiltração?

— Bem, quero...

Dito isso, saíram em fila indiana. Pouco depois, voltaram. Agora eram seis, e carregavam capacetes, cordas, lanternas e uma escada que se acoplava à varanda, pelo lado de fora do prédio. A SWAT francesa.

Montaram uma operação de guerra. Um segurava a escada. Outro subia. E um terceiro gritava ordens pela sacada. O restante contemplava o fio d’água que escorria desafiador. Logo veio a sentença, com voz soturna.

— O registro dele estava fechado. A infiltração parece vir pela tubulação comum do prédio. Não há nada que possamos fazer. Você vai ter que chamar um bombeiro hidráulico. Sentimos muito.

Os seis saíram, um atrás do outro. Dois minutos depois, batem à porta. Eram eles de novo, agora acompanhados por três policiais. Estavam se multiplicando como gremlins. Fiquei pensando no que podiam fazer. Interrogar a goteira? "Desde quando você começou a perturbar esse pessoal, hein? Por que não vai pingar em outro lugar? Circulando, circulando!".

Entraram, anotaram algumas coisas e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage.

Aquela mísera goteira já tinha mobilizado metade da defesa pública de Paris e ninguém foi capaz de dar cabo. Restou chamar os bombeiros hidráulicos. Chegaram com seus cintos de utilidades equipados de machado, martelo, alicates e dezenas de outros apetrechos, tipo batman, e foram decididos ao banheiro. Olharam pra cima, pra baixo, atrás do vaso, embaixo da banheira, desmontaram a estante, examinaram os canos e deram o veredicto.

- Não dá pra fazer nada agora. Só verificando os canos do apartamento de cima. A única solução é esperar o morador de lá chegar.

Vejam que situação: agora tenho que torcer para o vizinho voltar. O mesmo que eu desejei que sumisse.

Só por via das dúvidas eu tô contando minhas economias. Acho que vai ser mais fácil pagar uma passagem pro Seu Luís da Tijuca vir aqui resolver isso.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



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