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LITERATURA

Criando fama sem cama

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É terrível e fascinante sujeitar-se à objetividade de si mesmo. Há volúpia e desânimo em sair de si e olhar-se como um objeto midiático, um produto, uma possibilidade. Posicionar-se em relação aos outros idiotas cheios de som e fúria

Simone Campos - (04/04/2008)

Pelos últimos textos, posso ter dado a impressão de que detesto marketing. Que nada, releia-os e perceba: o que desprezo é a propaganda enganosa. Aprendi várias coisas na faculdade de produção editorial, e uma delas é que o marketing é nosso amigo. Desde que, como tudo o mais, exercido com ética. O ser você mesmo não impede ninguém de se fazer interessante; o problema está em todos abandonarem suas personalidades singulares (ou pior, nem chegarem a construir uma) para correr atrás de uma mesma utopia cool.

As pessoas adoram fofoca. Mas fofoca não é literatura. Ao autor introvertido e cioso da privacidade, não a um nível Salinger, mas como essa que vos fala, resta um remédio: escrever bem. Ser original. É difícil ser ouvido num salão cheio de vozes.

Todo esse assunto está encravado no âmago da crise na sociedade atual. Por algum motivo, que deixo a quem entende mais disso do que eu, as pessoas andam refratárias a qualquer aprofundamento. É triste pensar que uma cultura como a brasileira, que nem chegou a se criar direito, já está se malcriando, crééééu. Acho que Baudrillard está certo quanto à gravidade do problema. Só não acho que estejamos todos de mãos atadas. Ainda acho que nos restam truques na manga para lidar contra a preguiça mental. Chama o Nietszche: nessa coluna, pretendo mergulhar de cabeça na tão execrada palavra com m – vocês sabem, marketing.

Vergonha alheia

“A fama”, me disseram outro dia, depois que eu desdenhei veementemente da velha musa, “também é necessária”. Mas é muito ruim ficar falando do que você gosta na cama só para aparecer, argumentei. E aí? Que fazer? Há maneiras e maneiras de aparecer, e só algumas estão disponíveis para o escritor.

Falar de si é uma delas. Falar do modo como encara o mundo, do porquê de escrever e dos autores preferidos é o mais comum, às vezes sob forma de perguntas em entrevistas, às vezes sem qualquer solicitação. Sim, há essa mania infeliz, que dá ibope evidentemente, de se psicanalisar em público: falar de como tem se sentido ao levantar pela manhã, de perguntar por que as pessoas são más consigo, do perrengue que passou para se livrar do alcoolismo. Sabe aquela velhinha que puxa conversa no ônibus? Sei que ela é patética, mas ainda assim me inspira alguma ternura, pois ela tem toda uma vida atrás dela e deve ser solitária. Se você não é solitário, nem idoso, e ainda assim teima em fazer isso, a ternura não comparece. O que vem é vergonha alheia.

O que acho que poderia ser mais extrapolado sem prejuízo à intimidade ou seriedade do escritor é o processo criativo, que ainda circula de burka pela cidade, só com os olhinhos de fora, quando poderia muito bem vestir um skinny jeans. Talvez os escritores tenham medo de dividir seus segredos e perder a primazia sobre os temas que estão na sua mira, mas esse medo é irracional. Duas pessoas que passem pela mesma praça à mesma hora quase sempre irão reparar e escrever sobre duas coisas completamente diferentes; e, mesmo que escrevam sobre a mesma coisa, não é tanto o que se escreve, mas como. É um clichê, mas um que eu sinto como verdade.

Falar de si até que é fácil. Escritor costuma ser voltado para dentro, e eu mesma não fujo dessa regra. Agora, para alguém que detesta circo, é difícil se acostumar com a necessidade (porque o é) de falar para fora, com o mundo, e atrair atenção sobre si. Só que estamos na sociedade do espetáculo e, com essa introversão toda, tanto introvertido como sua arte vão entrando pelo cano e cedendo terreno a futilidades genéricas – como fofoca, inclusive a disfarçada de literatura. Por isso, você, autor produto de seu tempo, ceda: é bom procurar saber mais sobre marketing. Em que você é bom, além de escrever (presumindo que seja)? Paradoxo dos paradoxos, vou ter que começar a me usar como exemplo aqui. Não tenho outro modelo tão íntimo. Eu passaria este trecho para a terceira pessoa, mas já é arrepiante do jeito que está.

Bloqueios e atalhos

Fotos de divulgação. Aos 15 anos ganhei de presente um book, uma sessãozinha de modelo, a qual passei toda repetindo eu não queria estar aqui. Eu quero é ser escritora. Até hoje não parei de dizer isso. Escritor sempre tem que tirar foto. Não tenho nada contra fotos, apenas gostaria que saíssem boas por mágica, sem ter que me concentrar como se quisesse entortar um garfo. Eu sempre saio com cara de quem está olhando para uma câmera. Um objeto intruso que vai capturar a minha imagem e distribuir para todo mundo sem critério. Saio sempre com os olhos vidrados, desconfiada, ou distante como só. Ou seja: por mais adorável que seja o meu rostinho, esse marketing não é para mim.

Ir a festas literárias é outra coisa-que-não-consigo-fazer, figurando em primeiro na lista. Tenho preguiça de tanto ego junto, só gosto de acampar se for dentro do quarto e tenho trauma de infância com Paraty. Minha porção leitora gosta de ir a feiras do livro, desde que dêem desconto. E só. Pessoas – pessoas boas, amigos meus – dizem que dá visibilidade ao autor (e por conseguinte à sua obra) comparecer a estas feiras/festas. Eu tenho um grande bloqueio: a sensação de que vou ofender todo mundo, primeiro por não saber quem essa pessoa na minha frente é, segundo por me apresentar a ela como “Simone” e nada mais. Não suporto me apresentar com sobrenome ou aposto, mas às vezes faço isso, porque é até pior quando descobrem depois. Dizem “mas por que você não disse que era a Simone Campos de No shopping, ao que sinto uma incontrolável tentação de responder “para ver se mudava o tratamento”. Enfim, esse marketing de troca de créditos sociais também não é para mim.

Mas eu tenho que prestar em alguma coisa, não é mesmo? A falta do friozinho na barriga em palestras ou entrevistas ao vivo vem desde a primeiríssima ocasião. Quando sei (e sei pensar sobre) do que estou falando, não costumo me embananar. Posso não ser fotogênica, mas sou videogênica. Inclusive estou elaborando uns vídeos aqui. Só vejo vantagens em vídeo. Você pode esperar um dia em que tenha acordado simpático, inspirado, de bom humor e com o cabelo bom. Então você pode editar, colocar no YouTube e falar quase que diretamente com o leitor, sem o inconveniente de ter que conviver com os chatos. E tem mais tempo para trabalhar. Métodos audiovisuais então são um bom marketing para mim.

Horror dos horrores, escrever bem também é marketing. O maior deles. O efeito é de longo prazo, mas pouco a pouco as pessoas vão marcar o seu blog, o seu nome, talvez, também, infelizmente, a sua cara, tudo porque querem ler “mais daquilo”.

Também temos que lutar, como eu já disse, contra a preguiça mental do possível leitor, contra a vontade dele de simplesmente sentar e morgar após uma longa e extenuante jornada de trabalho. Aí a novela ganha de 10 a 0 do proverbial romanção. O meio de lutar contra isso é planejar o efeito do que se escreve. Estou num momento de escrever em camadas, sem muito hermetismo. E começos são importantes. A primeira e a segunda linha. O leitor iniciante deve ser fisgado pela identificação, mas talvez fique com a pulga atrás da orelha, sem saber o que naquele texto o fascina; talvez assim, pela via da curiosidade, ele se anime a ler e estudar mais. Já o leitor experiente vai estar de posse da chave para enxergar outros sentidos, outros níveis mais profundos incrustados no texto, e talvez queira repetir a leitura para descobrir novos segredos.

Objetividade de si mesmo

É terrível e fascinante sujeitar-se à objetividade de si mesmo. Há volúpia e desânimo em sair de si e olhar-se como um objeto midiático, um produto, uma possibilidade. Posicionar-se em relação aos outros idiotas cheios de som e fúria. E/Mas ninguém vai fazer isso por você (não no Brasil), é necessário e funciona como exercício de projeção mental, extremamente útil para qualquer ser humano, especialmente para aqueles que sentem gosto em projetar suas quimeras na mente dos outros. Chega de hipocrisia. Quem não quer ser lido? De que vale fingir ou procurar inocência? De que vale fingir que literatura não é trabalho, que não é valor, comércio, se, de um modo ou de outro, até ser introvertido pode virar marketing? É o que ando pensando aqui com meus botões. Concluí que muitas dessas pessoas já são vítimas do marketing – do artista maldito ou ermitão. Têm medo de virar, não sei, a Ivete Sangalo. E, olha, até podem, se não entenderem nada de marketing e não controlarem a própria exposição. Então é bom, ou útil, ousar chamar o marketing pelo nome, abrir o livro do Kotler e começar a ler.



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