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Banheiro do Papa: engajamento agridoce

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Comédia popular de beleza plástica e certos efeitos (como montagens aceleradas e enquadramentos acrobáticos), o filme de Fernandez e Charlone celebra a inventividade, o jeitinho brasileiro-latino, a recusa à melancolia. Falta-lhe a crítica política — aparentemente, sua intenção inicial

Bruno Carmelo - (10/04/2008)

Uma visita do Papa, numa terra tradicionalmente católica como a América Latina, é sempre um grande evento. Principalmente se Sua Santidade escolheu curiosamente visitar um vilarejo paupérrimo e minúsculo, esquecido na fronteira entre Uruguai e Brasil.

Esse visitante vai mudar completamente a vida dos cidadãos. Vivendo principalmente do contrabando, de pequenos comércios ou da corrupção (no caso, policiais que lucram também com o transporte ilegal de produtos pela fronteira), esses uruguais vêem no Papa um sinal direto de prosperidade. Porque religiosidade e ilegalidade caminham, no filme, de mãos dadas.

O primeiro significado da visita é de ordem puramente moral: o pontífice traria paz, prosperidade e alegria ao povo. Uma televisão local se encarrega de inflar a importância do evento e o amor da pequena região ao Papa. Como acontece freqüentemente, a figura do líder maior da Igreja serve a reacender aquela fé há certo tempo esquecida.

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"Um invariável halo dourado, que dá a impressão de ser sempre fim de tarde no Uruguai"

Caso a prosperidade não venha até eles, eles vão buscá-la: contando com a chegada de milhares de turistas brasileiros, a cidade se mobiliza para armar barracas de comidas, bebidas e lembrancinhas. Mais inusitado ainda é Beto, protagonista da história, que tem a feliz idéia de criar banheiros para os visitantes.

A narrativa se declara abertamente como uma comédia sobre a precariedade de vida dos uruguaios. Nada de tristeza frente ao pauperismo. Essas pessoas são todas alegres e atrapalhadas, e as alternativas encontradas por elas para driblar os problemas despertam riso. A esposa de Beto quer vender medalhas brasileiras aos brasileiros, Beto faz pesquisa sobre banheiros, a televisão local é de um amadorismo atroz, os contrabandistas têm meios simplícissimos de driblar a vigilância.

Consumada a visita e o prejuízo, Beto aparece frente ao seu banheiro pouco utilizado, gritando “eu tenho uma idéia!”. Nada de tristeza: a platéia explode em risos. A vida continua

O Banheiro do Papa é um certo elogio ao “jeitinho brasileiro”, aqui expandido em versão latino-americana. Essa consciência da capacidade de “se virar” mesmo nas situações mais adversas e ainda que seja contra as normas, sempre foi uma qualidade da qual latino-americanos aprenderam a se orgulhar (mesmo que exista um elemento depreciativo nessa obrigatoriedade de rir da miséria). Aqui, os pobres são divertidos justamente por sua ingenuidade, por serem bons homens tolos.

Poderíamos ver no filme uma crítica contra o catolicismo? Contra as mídias? Embora a visita do Papa seja menos frutífera financeiramente do que se esperava, e os habitantes fiquem todos no prejuízo face a uma quantidade enorme de produtos jogados fora (numa certa de impacto, com intenção de denúncia social), Beto aparece na cena seguinte, frente ao seu banheiro pouco utilizado, gritando “eu tenho uma idéia!”. Nada de tristeza: nessa hora, a platéia explode em risos. E a vida continua.

A direção, igualmente, não traz à estética do filme nada de particularmente engajado. Junto do uruguaio Enrique Fernandez, o brasileiro César Charlone (fotógrafo de Cidade de Deus) assina a direção e transpõe ao filme seu eterno deslumbramento pela luz do sol, de modo a contornar todos seus personagens de um invariável halo dourado, que dá a impressão de ser sempre fim de tarde no Uruguai. O movimento também o agrada particularmente, e todas as cenas dos personagens com suas bicicletas são compostas de montagem acelerada e enquadramentos acrobáticos.

Ao fim da sessão, grande parte da platéia mostrava um grande sorriso nos lábios. O Banheiro do Papa funciona muito bem como comédia popular, e apresenta uma grande beleza em suas imagens. Somente a parte de crítica política ganha menor importância que esses outros fatores; o que é uma pena, já que a intenção do projeto parecia ser justamente essa ironia política.

O Banheiro do Papa (El Baño del Papa)
Co-produção Brasil-França-Uruguai.
Dirigido por Enrique Fernandes e César Charlone.
Com César Troncoso, Virgínia Ruiz, Virgínia Mendez.
Ano de produção: 2006.
Duração: 1h35.

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Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

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