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CULTURA PERIFÉRICA

Cultura, consciência e transformação

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A cada dia fica mais claro que a produção simbólica articula comunidades, produz movimento, desperta rebeldias e inventa futuros. Mas a relação entre cultura e transformação social é muito mais profunda que a vã filosofia dos que se apressam a "politizar as rodas de samba"...

Eleilson Leite - (12/04/2008)

“Muitas vezes, uma comunidade extremamente pobre, pode ser culturalmente rica”. Ouvi essa frase do diretor técnico de relações culturais e científicas da Agência Espanhola de Cooperação Internacional, Alfons Martinelli, numa palestra proferida esta semana, no Centro Cultural da Espanha em São Paulo. O diplomata espanhol, que passava por aqui para participar de evento internacional realizado no Instituto Itaú Cultural, reafirmou, com sua fala, nossa crença de que a cultura, vista como central no processo de desenvolvimento humano, pode efetivamente produzir transformações. Daí a necessidade de passar a contemplar os processos culturais nas aferições do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano. “O IDH não estará completo sem a cultura”, completou Alfons.

A cultura é por si geradora de desenvolvimento na medida em que estimula processos criativos, individuais ou coletivos. Todo ser humano tem potencial criativo e por isso é um agente cultural em potencial. A cultura é a expressão da criatividade humana. É a produção simbólica de um grupo, uma comunidade, um povo. A arte é apenas uma dimensão da cultura. A culinária, o vestuário, as manufaturas, o conhecimento e as maneiras de transmiti-lo, as tradições, crenças, arquitetura — enfim, todas as formas que os homens e mulheres desenvolvem para viver são manifestações culturais. E nada é mais revelador de um povo do que a sua cultura. Porque nela está sua identidade. E a afirmação da identidade de um povo produz um sentido de pertencimento que pode mobilizar multidões.

Por isso, é importante ressaltar a cultura feita nas periferias urbanas. Nessas regiões, as comunidades se organizam em torno de sua cultura. A comunidade se expressa em função do que tem — diferente do movimento social reivindicatório, que se manifesta em função do que não tem. Essa manifestação tem uma carga política poderosa, que o pensamento tradicional de esquerda pouco percebeu ao longo da História. A mais importante exceção, pelo menos na tradição marxista, é o Gramsci.

Gramsci percebeu que só há cultura subalterna enquanto as classes populares não são conscientes de si. Vejo esta consciência como algo que vai muito além da idéia de exploração capitalista

O pensador italiano, ativista revolucionário, morto em 1937 com apenas 46 anos, deixou em seu legado teórico essa visão da centralidade da cultura nos processos políticos. E Gramsci não falava em alta cultura e cultura popular. Não via a cultura em termos de hierarquia e também entendia bem a diversidade cultural. Ele falava em cultura hegemônica e subalterna, ensinando-nos que a cultura só é subalterna enquanto as classes populares não tiverem consciência de si. E eu acredito que essa consciência vai além da percepção da exploração capitalista que pesa sobre o trabalhador, foco do pensamento marxista clássico. Vejo na produção artística feita nas periferias urbanas — seja nos fundões miseráveis, seja nas áreas mais estruturadas — um elemento fundamental de afirmação de classe. Afirmar a cultura dos que estão nas beiradas da cidade significa, portanto, produzir um processo político contra-hegemônico.

Tem gente que fala que é necessário “politizar”, por exemplo, as rodas de samba. Ora, é preciso fazer um rebuliço na cabeça de quem pensa dessa maneira. Vá ao Sarau da Cooperifa e ouça poesias feitas por gente que mal domina os códigos letrados e que, por meio dos versos, expressa sua consciência de classe. Em um dos saraus de março, comemorativo do Dia da Mulher, uma senhora negra, magra, com um sorriso do tamanho do rosto pegou o microfone. Na primeira estrofe do poema de sua autoria, o burburinho sumiu. Todo mundo ficou ligado na declamação. Não me lembro o nome dela. Foi a primeira vez que ela apareceu no Zé Batidão. Com um humor desconcertante, esta empregada doméstica contou em seu poema o quanto sofreu na mão das patroas abusadas, até que um dia resolveu dar um pé na bunda de uma delas, largando a “mardita” em seu apartamento de luxo. Eliane Brum estava por lá e ouviu. Esta jornalista tem, como poucos, o dom de ver a vida que ninguém vê. Espero que escreva sobre essa mulher, revelando-nos o quanto a sensibilidade artística pode revolucionar vidas.

Certa vez, uma repórter perguntou ao poeta Sergio Vaz quantos jovens, entre os freqüentadores do sarau da Cooperifa, teriam deixado o crime, depois do contato com a poesia. Vaz, com sua sagacidade impagável, respondeu que não sabia mas que, por outro, lado conhecia dois ou três que entraram no crime depois de terem se tornado poetas. Brincadeira à parte, a gente pode interpretar, com essa fictícia história de poeta criminoso, uma tomada de consciência. Por que uns bacanas podem andar de rolex por aí e eu não tenho o que comer? Essa indagação pode ser o combustível para um delito. Na quebrada, não dá para esperar ter consciência de classe para depois dar um jeito na vida. As vezes é preciso fazer uns corre.

Evidentemente, roubar seja o que for, de quem quer que seja, não é uma virtude. Não quero fazer apologia do crime. Tem muito nóia na quebrada que rouba trabalhador pra comprar droga. O fato é que o roubo, o saque são possibilidades que estão ao alcance dos que nada têm. Certos delitos apóiam-se na miséria. O roubo pode ter motivação de classe. Aliás, o historiador marxista inglês Eric Hobsbawn cunhou a brilhante definição “bandido social” no livro Bandidos. Nesta obra, de 1969, ele fala até do nosso glorioso Lampião, cuja morte completa 70 anos em 2008. O Rei do Cangaço é muito celebrado por artistas da periferia. Você sabia que o nome Ferréz, é inspirado no Virgulino Ferreira? O Reginaldo Ferreira da Silva é fã do Lampião. Quem também rende homenagens ao cangaceiro é o Gaspar, MC do famoso grupo Z’África Brasil. No disco Quem tem cor age, tem um belo rap dedicado ao nosso “bandido social” do Nordeste.

Nada é mais despolitizado que o papo de "inclusão" cultural. Cultura gera movimento, desperta consciências, promove transformações. É prazer, diversão, delícias, encantamento

Retomando a fala do Alfons Martinelli, a questão é que a cultura gera desenvolvimento porque desperta capacidades. A gente só não pode ficar muito no discurso idealista do desenvolvimento humano. Uma concepção que só vê virtude nos que aderem ao projeto de uma ONG, que freqüentam as oficinas de batuque, enfim dos que se alinham naquela visão de “inclusão cultural”. Não há nada mais despolitizado do que esse papo de inclusão. A cultura gera movimentação social, desperta consciências, embrenha processos políticos, promove transformações. E a cultura é prazer, diversão, delícias, encantamento. A cultura tem valor em si. Ela se distingue em função da distinção dos grupos sociais. Por isso falamos de cultura da periferia. E por mais que uma cultura seja representativa de um grupo, ela é sempre universal. Isso, o professor espanhol Alfons Martinelli também nos lembrou, em sua palestra.

É um equívoco querer instrumentalizar a cultura. É um tal de cultura contra a violência, cultura para a educação, cultura pra tirar criança da rua. A cultura virou uma panacéia que serve para tudo. A cultura é um caldeirão de caldo grosso. Nesse caldo tem muito tempero. Tem o doce aroma de ervas verdes mas tem pimenta brava, também. Dele fazem parte diferentes atores sociais, que agem de várias formas. Uns com o pincel ou spray, outros com o tamborim, a dança o canto. E tem os que agem com o canivete ou uma pistola numa mão e a caneta na outra. Faz parte.

O processo social tem que ser visto na sua complexidade. Assim a gente vai perceber que numa localidade pobre, periférica, tem vida cultural brotando — e pode se tornar uma frondosa árvore. Tem muita gente que se diz revolucionária e desqualifica o funk pancadão, por exemplo, esquecendo-se que, com seu desprezo, vai junto o povo que gosta dessa música, ou seja, o povo do qual este suposto revolucionário espera adesão a seu discurso iluminista. É preciso observar a cultura como uma dimensão essencial da dinâmica social. Perceberemos assim que a cultura tem centralidade nos processos políticos. Para isso, basta a gente ver a cultura pelo que ela é — e não por aquilo que a gente quer que ela seja.

Mais:

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

É tudo nosso!
Quase ausente em É tudo Verdade, audiovisual produzido nas periferias brasileiras reúne obras densas, criativas e inovadoras. Festival alternativo exibe, em São Paulo, parte destes filmes e vídeos, que já começam a ser recolhidos num acervo específico

Arte de rua, democracia e protesto
São Paulo saúda, a partir de 27/3, o grafite. Surgido nos anos 70, e adotado pela periferia no rastro do movimento hip-hop, ele tornou-se parte da paisagem e da vida cultural da cidade. As celebrações terão colorido, humor e barulho: contra a prefeitura, que resolveu reprimir os grafiteiros

As festas deles e as nossas
Num texto preconceituoso, jornal de São Paulo "denuncia" agito na periferia e revela: para parte da elite, papel dos pobres é trabalhar pesado. Duas festas são, no feriado, opção para quem quer celebrar direito de todos ao ócio, à cultura, à criação e aos prazeres da mente e do corpo

Arte independente também se produz
Às margens da represa de Guarapiranga, Varal Cultural é grande mostra de arte da metrópole. Organizado todos os meses, revela rapaziada que é crítica, autogestionária, cooperativista e solidária — mas acredita em seu trabalho e não aceita receber migalhas por ele

Nas quebradas, toca Raul
Um bairro da Zona Sul de São Paulo vive a 1ª Mostra Cultural Arte dos Hippies. Na periferia, a pregação do amor e liberdade faz sentido. É lá que Raul Seixas continua bombando em shows imaginários, animando coros regados a vinho barato nas portas do metrô, evocando memórias e tramando futuros

No mundo da cultura, o centro está em toda parte
Estamos dispostos a discutir a cultura dos subúrbios; indagar se ela, além de afirmação política, está produzindo inovações estéticas. Mas não aceitamos fazê-lo a partir de uma visão hierarquizada de cultura: popular-erudita, alta-baixa. Alguns espetáculos em cartaz ajudam a abrir o bom debate

Do tambor ao toca-discos
No momento de maior prestígio dos DJs, evento hip-hop comandado por Erry-G resgata o elo entre as pick-ups, a batida Dub da Jamaica e a percussão africana. Apresentação ressalta importância dos discos de vinil e a luta para manter única fábrica brasileira que os produz

Pirapora, onde pulsa o samba paulista
Aqui, romeiros e sambistas, devotos e profanos lançaram sementes para o carnaval de rua, num fenômeno que entusiasmou Mário de Andrade. Aqui, o samba dos mestres (como Osvaldinho da Cuíca) vibra, e animará quatro dias de folia. Aqui, a 45 minutos do centro da metrópole

São Paulo, 454: a periferia toma conta
Em vez de voltar ao Mercadão, conheça este ano, na festa da cidade, Espaço Maloca, Biblioteca Suburbano Convicto, Buteco do Timaia. Delicie-se no Panelafro, Saboeiro, Bar do Binho. Ignorada pela mídia, a parte de Sampa onde estão 63% dos habitantes é um mundo cultural rico, diverso e vibrante

2007: a profecia se fez como previsto
Há uma década, os Racionais lançavam Sobrevivendo no Inferno, seu CD-Manifesto. O rap vale mais que uma metralhadora. Os quatro pretos periféricos demarcaram um território, mostrando que as quebradas são capazes de inverter o jogo, e o ácido da poesia pode corroer o sistema

No meio de uma gente tão modesta
Milhares de pessoas reúnem-se todas as semanas nas quebradas, em torno das rodas de samba. Filho da dor, mas pai do prazer, o ritmo é o manto simbólico que anima as comunidades a valorizar o que são, multiplica pertencimentos e sugere ser livre como uma pipa nos céus da perifa

A dor e a delícia de ser negro
Dia da Consciência Negra desencadeia, em São Paulo, semana completa de manifestações artísticas. Nosso roteiro destaca parte da programação, que se repete em muitas outras cidades e volta a realçar emergência, diversidade e brilho da cultura periférica

Onde mora a poesia
Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores

O biscoito fino das quebradas
Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4/11, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica



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