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CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Como falar francês sem falar francês

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Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Daniel Cariello - (10/04/2008)

Quando cheguei a Paris meu francês não era grandes coisas. E mesmo quando não entendia o que falavam, sempre mantive a pose de totalmente fluente, fruto de algumas técnicas que desenvolvi.

É verdade que existem livrinhos de consulta rápida com frases prontas em diversas línguas. Normalmente divididos por temas, como "chegando na cidade", "saindo pra jantar" ou "pedindo informações", são ótima opção para garantir ao menos uma comunicação básica.

Mas se o que você quer é fazer todos acreditarem que você aprendeu francês na Sorbonne, anote as dicas a seguir. Para ser tão didático quanto o Monsieur Gérard [1], dividi os ensinamentos em capítulos.

Cinq minutes de merde

O que é

A primeira técnica, batizada de "Cinq Minutes de Merde", foi criada por causa de um fato estranho que acontecia comigo. Mesmo que o assunto fosse fácil e as pessoas não falassem muito rápido, eu demorava cinco minutos pra dar um boot no meu sistema operacional interno e ajustar o cérebro à conversa. Era como um rádio meio fora da estação, onde você pesca algumas palavras mas não consegue entender o contexto.

O que fazer

Primeiro, fique com um leve sorriso na cara o tempo todo. Dá um ar de quem está por dentro do assunto. Mas não exagere, pra não ter expressão de idiota. Olhe para quem está falando, mas não muito, pois ele pode te pedir uma opinião. O ideal é balançar um pouco a cabeça e ficar atento às outras pessoas da roda. Se elas rirem, ria também. Se fizerem cara de espanto, coçe o queixo.

Quando entender um pouco, solte um "je vois" ou um "oui" de tempos em tempos. São os equivalentes ao nosso "sei, sei...", que não quer dizer nada, mas diz tudo.

Mas quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas NUNCA peça pra repetir. É o momento ideal de procurar o banheiro.

Faisant des ronds dans l’espace

O que é

É o tradicional circular pelo ambiente. Técnica fundamental, pois ninguém te pega no canto pra tentar desenvolver uma conversa. Se for uma festa é mais fácil. Mas se for uma mesa de bar o problema é maior.

O que fazer

Há duas possibilidades para essa situação: ambientes onde você pode e onde você não pode se locomover.

Na primeira categoria encaixam-se festas, aperitivos, recepções e afins. É moleza se livrar. Basta circular com um copo quase vazio na mão. Quando alguém se aproximar, antecipe o passo e pergunte se ainda tem vinho. A frase-chave é "il y a encore du vin?". Sirva-se e depois dê o sumiço. Claro que você pode trocar pela sua bebida preferida. Um rápido guia de referência: cerveja é bière, água é eau e coca é coca mesmo.

A segunda possibilidade é mais complicada, e ocorre em jantares, mesas de bar e ocasiões onde todo mundo fica sentado. Torça para ninguém te perguntar nada. E quando houver uma pausa na conversa, lance você um assunto. Aliás, lance e em seguida vá ao banheiro. O banheiro é fundamental em todas as situações descritas aqui. É lá que você vai se refugiar por alguns preciosos minutos. O tempo suficiente para que se esqueçam um pouco da sua presença. Mais detalhes sobre lançar um assunto no capítulo seguinte.

En disant des courgettes

O que é

Conhecida em português como "falando abobrinhas", é uma técnica avançada, para aqueles que já têm ao menos uma pequena noção de francês. Consiste em preparar alguns tópicos para usar no momento certo.

O que fazer

Se você souber que vai sair, separe 30 minutos do seu dia para buscar umas palavras no dicionário e organizar um ou dois temas com os quais você tenha familiaridade. Uma boa dica é falar de futebol, pois eles não perdem a chance de se vangloriar em cima dos brasileiros, e você não precisará dizer muita coisa. Frases fundamentais: "C’est vrai, mais le Brésil est cinq fois champion du monde" (é verdade, mas o Brasil é cinco vezes campeão do mundo) e "Pelé a marqué plus de mille buts. Et Zidane?" (Pelé marcou mais de mil gols. E o Zidane?). Solte na hora em que você desconfiar que todo mundo está falando das derrotas de 1998 e 2006.

Um outro tema interessante é caipirinha. Os franceses adoram a bebida. Se algum deles não provou ainda, certamente conhece alguém que já o fez e contou maravilhas a respeito. Boa pra soltar ali pelo meio da noite, quando o nível alcóolico das pessoas deverá estar mais elevado. Frases fundamentais: "J’aime bien boire de la caipirinha sur la plage d’Ipanema" (eu adoro tomar caipirinha na praia de Ipanema) e, se você for do tipo polêmico, solte uma "la caipirinha c’est mieux que le vin" (a caipirinha é melhor do que o vinho). Mas aí você vai precisar estar preparado pra responder.

Com essas técnicas, aplicadas nas horas certas, posso garantir que seu francês será elogiado por todos. Quando isso acontecer, faça um ar meio blasé e tenha outra frase na ponta da língua: "merci beaucoup, mais j’espere que la prochaine fois on parlera en portugais" (muito obrigado, mas tomara que da próxima vez a gente converse em português). E saia.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



[1] Monsier Gérard, é personagem do blog Chéri à Paris, de Daniel Cariello. Para ler a crônica em que ele é apresentando, clique aqui

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