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CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Protesto!

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Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Daniel Cariello - (23/04/2008)

Francês adora uma manifestação e todas as suas derivações. Desde que uma delas deu certo e a Bastilha caiu, há duzentos e tantos anos, pegaram um grande gosto pela coisa. Todo dia tem uma em Paris, pelos motivos os mais diversos. Ontem mesmo, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Não entendi direito o que significava, e parece que os donos dos bichos também não. Mas os cachorros, que obviamente marcavam presença, pareciam bem contentes, e babavam e latiam de felicidade.

Quando cheguei em casa, encucado com a situação, comecei a fazer uma lista de possíveis novas manifestações, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia. Compartilho-a com vocês:

Movimento Mais Manteiga no Croissant (MMMCrô)

Nada mais triste do que comprar um croissant amanteigado e ele estar seco, duro e sem gosto. Se o nome diz "croissant na manteiga", então que venha realmente com o que promete.

Palavra de ordem: Ô, Pierre, assim já não vai dar / Coloca mais manteiga ou o bicho vai pegar, uh la la

Aliança Pró Vinho Tinto nas Escolas (Bebe, bebê)

Todo francês um dia vai acabar bebendo vinho tinto, então melhor começar logo cedo. Chega de suco de laranja encaixotado! Chega de água com calcário! Vinho tinto para todos.

Palavra de ordem: O vinho tinto / Por ele tenho apreço / Está sempre comigo / Começa já no berço

Bastiões do Mau Humor Francês (BoF!)

O mau humor é uma instituição francesa, como a Torre Eiffel e o biquinho. Não se pode mexer nisso. Essa coisa de rir à toa não pega muito bem por aqui. Antes que consigam transformar a França em um país de sorridentes, saiamos às ruas!

Palavra de ordem: não tem, pois as pessoas podem achar engraçado, e não é essa a intenção.

Manifestação Contra o Direito de Usar Calça Capri (MaCaCa)

O verão na França é agradável, ainda mais depois de seis meses de frio. Mas tem uma coisa nessa estação que definitivamente não é legal: é só começar a esquentar e milhares de pessoas saem às ruas com suas calças capri, aquelas de pegar siri, que acabam no meio da canela. A calça capri é uma das mais execráveis peças de vestuário já inventadas, junto com a pochete e a camiseta regata. Lutar contra isso é mais que nosso direito, é nosso dever.

Palavra de ordem: Ei, você de calça capri nesse horrível tom vermelho / Você não se enxerga ou quebrou o seu espelho?

Passeata dos Que Estão à Toa (Paquetô)

Tá em casa de bobeira? Deu aquele comichão para dar uma reclamadinha? Junte-se a eles. Não se preocupe com o motivo da manifestação, qualquer um vale. Importante: traga suas próprias bandeirolas, pois se a passeata é coletiva, os protestos são individuais.

Palavra de ordem: Eu vim pra reclamar / Não vim pra fazer média / Se motivo me faltar / Acho um na enciclopédia

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



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