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LITERATURA

Um final entediante

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Ao extrair do inimigo sua força e sapiência, Pullman diminuiu o valor deste e, por conseqüência, o desfecho nada mais é do que uma vitória de Pirro, que não convence a ninguém

Dida Bessana - (18/04/2008)

Em A luneta âmbar, de Philip Pullman, terceiro volume da trilogia Fronteiras do universo (Editora Objetiva), Lyra, seqüestrada pela própria mãe, que resolve protegê-la da Autoridade, é mantida desacordada pelos efeitos de uma poção mágica preparada pela própria sra. Coulter. Contrariando os anjos Balthamus e Baruch, que passaram a proteger Will e tentam convencê-lo a entregar a faca sutil a Lorde Asriel, o menino insiste em encontrar sua companheira. Com a ajuda de Baruch ele a resgata e fogem para a cidade dos mortos. Antes, porém, têm de passar por uma espécie de subúrbio do mundo dos mortos, de onde um barqueiro de “idade inimaginável” (uma variação do mito grego de Caronte que, neste caso, se encarrega ele mesmo de remar o barco para a travessia do rio) obriga Lyra a abandonar seu dimon na margem, levando-a realizar mais uma das profecias preditas ainda no primeiro volume: cometer uma grande traição.

Após a travessia, encontram Roger em um lugar sem esperança, onde harpias torturam os mortos contando-lhes reiteradamente suas más ações em vida. Convencida agora de que seu fado é livrá-los daquele inferno, ela e Will resolvem abrir uma fenda para que os fantasmas possam escapar, mesmo sendo advertidos pelos galivespianos de que “isso vai desfazer tudo... A Autoridade vai ficar sem nenhum poder” (p. 314). Para que as harpias deixem os fantasmas passar, Lyra convence-as de que, em vez de verem o pior nas pessoas, como a Autoridade lhes concedeu desde o princípio dos tempos, elas agora serão pagas ouvindo a verdadeira história daqueles seres, colaborando assim para pôr fim a toda dor e sofrimento dessas criaturas, que poderão seguir seu caminho e reintegrar-se ao universo em forma de energia.

Pouco depois, deparam com Mary Malone, uma ex-cientista do mundo de Will que se põs a seguir cegamente as ordens ditadas por um computador em seu laboratório e foi para outro mundo: a terra dos mulefas, seres em forma losangular que andam sobre rodas (estes, aliás, são tão enfadonhos que, na Web, pululam sites e blogs em que leitores da trilogia destacam sua chatice.)

Vitória de Pirro

Enquanto em outro plano Lorde Asriel e a sra. Coulter unem-se para, em uma armadilha urdida e executada às pressas, lutar contra Metatron (o profeta Elias, príncipe dos anjos) e arrastá-lo para o abismo, Lyra, sem perceber, mata Yahweh (ou a Autoridade). Tanto uma contra outra “batalha” são tão inexpressivas, que só se pode concluir que o autor optou pelo reducionismo. Ao extrair do inimigo sua força e sapiência, Pullman diminuiu o valor deste e, por conseqüência, o desfecho nada mais é do que uma vitória de Pirro, que não convence a ninguém.

Para traçarmos apenas um paralelo com um clássico do mesmo gênero, em O senhor dos anéis J. R. R. Tolkien, em sua investida contra as forças do mal (Sauron, Saruman e seus asseclas), para derrotá-las, em toda sua opulência, esperteza e proficuidade de artimanhas, coloca seus protagonistas diante das mais severas provações e promove embates grandiosos, cheios de escaramuças e vitórias parciais até o grande desenlace.

Se até aqui, a algumas páginas do fim da trilogia, pouco há de surpreendente e/ou vibrante para o leitor, o que se segue continua no mesmo tom.

Mary Malone, a personificação da serpente que deveria insuflar em Lyra o desejo para que ela cedesse, como a primeira Eva, à tentação e cometesse novamente o pecado original, opta por contar sua experiência e como, descrente em Deus e em Satã, abandonou sua vida religiosa por ter descoberto que responsabilidade e prazer podem coexistir. “Bem e Mal são apenas nomes que se dá ao que as pessoas fazem, não para o que elas são (uma ação é boa porque ajuda, ou má porque prejudica”, p. 448). E conclama os jovens a auxiliar os homens a encontrar a sabedoria, pois a história da humanidade tem sido uma luta entre o conhecimento e a ignorância: os anjos rebeldes, os seguidores do conhecimento sempre tentaram abrir a mente das pessoas, mas a Autoridade e suas igrejas sempre tentaram mantê-las fechadas, ignorantes (p. 484). Quanto ao Pó, representa tudo que o que há de bom no mundo (p. 497).

Melancolia e tédio

Conformados em ter cumprido sua sina, Will e Lyra vêem-se obrigados a voltar cada um para sua Oxford, sobrepostas no tempo, pelo bem da humanidade, pois todas as passagens precisam ser fechadas para que nenhum grão a mais de Pó vaze pelas bordas de todos os mundos. Sem poder viver o amor adolescente que acabam de descobrir que nutrem um pelo outro, combinam de se encontrar no mesmo lugar, uma vez por ano do restante de suas vidas, em um banco do Jardim Botânico da cidade no dia de solstício de verão.

Mais melancólico ainda é o fim de Lyra. De volta à Jordan, sem o poder ou a “graça” de interpretar o aletiômetro, recebe de uma amiga do reitor, Dama Hannah, o convite para conhecer e estudar no internato feminino Santa Sophia. Para a menina que percorria o telhado dos prédios da faculdade e, curiosa, escarafunchava os arredores para encontrar novidades e aventuras, nada mais entediante.

Mas, como “inescrutáveis são os caminhos do Senhor”, nem Lyra merecia esse fa(r)do, nem o Vaticano deveria preocupar-se com esse arremedo de obra blasfema. Já houve sagas melhores e livros que, de fato, faziam jus ao Index, como o Paraíso perdido de John Milton, que, como o próprio Pullman afirma, foi uma de suas grandes inspirações.

Por último, uma palavrinha a respeito da tradução dos três volumes. Uma vez feitos por profissionais diferentes, há discrepâncias na nomenclatura: dimon no primeiro livro transforma-se em daemon nos demais; aeróstato, em aeronauta; Junta de Oblação, em Conselho de Oblação; e câmara anbárica (sic), em ambárica.



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