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LITERATURA

Mountolive

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O que mais impressiona na engenhosa construção de “O Quarteto...” é a perícia com que Durrell, a partir de uma trama obscura, repleta de ambigüidades, racionaliza e vai contrapondo novos elementos para criar um universo perfeito que o leitor depois irá desvendar — e que irá surpreendê-lo

Luiz Paulo Faccioli - (18/04/2008)

— Onde? — Soando da embarcação mais distante, o estampido surdo de uma arma estremeceu o ar e o horizonte foi cortado em dois por uma nova revoada, mais lenta, deixando uma cicatriz rosada ao dividir terra e ar; lembrava o interior de uma romã irrompendo pela casca. Então, passando de rosa a escarlate, pintou-se de branco e caiu sobre o lago como neve, fundindo-se ao encostar na água.
— Flamingos — gritaram ao mesmo tempo, rindo, e as trevas abateram-se sobre eles, aniquilando o mundo visível.

Logo no início de Mountolive, terceiro volume de O Quarteto de Alexandria, do qual venho registrando minhas impressões de leitura, sou brindado com a passagem aí em cima. Sei que esse não é o mais nobre dos sentimentos, mas confesso ter sido assaltado por uma pontinha de inveja. Que maravilha! Eis aí algo que eu gostaria de ter escrito. Meu amigo Sergio Faraco já havia declarado seu entusiasmo com o estilo de Lawrence Durrell, um esteta da palavra na acepção mais exata do termo. E agora o melhor de Durrell estava de novo ali, resfolegante à minha frente, como se tivesse vencido uma grande batalha para manter a mesma pureza com que veio ao mundo, numa língua tão distante do exótico português em que aparece agora.

O estilo primoroso de Durrell sobrevive à tradução? Sim, sobrevive. E se impõe com tal força que fica muito fácil perceber: nessa que é a primeira versão brasileira da obra, os eventuais problemas estilísticos são decorrentes de cochilos do tradutor — e, por extensão, do revisor. Aqui surge uma novidade: em meus quase cinqüenta anos de vida — e quase quarenta de leitor — nunca antes havia me dado conta de quão importante é a colocação pronominal. Só agora descubro que o pronome, esse elemento absolutamente indispensável da língua, tão melhor colocado estará quanto menos aparecer no texto. Admito que meu grau de exigência vem crescendo ao longo do tempo e o que antes passava por mim batido agora incomoda bem mais do que talvez seja o padrão do grande público. Mas a verdade é que um pronome mal colocado é algo traiçoeiro. Ele fica à espreita, escondido no meio de um parágrafo ou mesmo da vastidão de uma página, para quando o leitor estiver completamente entregue ao texto, distraído de qualquer outro acontecimento secundário, pimba!, atacá-lo de modo inclemente. Um banho de água gelada. Foi o que senti, a páginas tantas, quando tropecei num desses tipinhos abjetos. Fiz que não o vi, segui em frente, nem perdi tempo sublinhando-o a lápis e acabei por perdê-lo. Várias páginas adiante, topo com outro: “creio que agora farão menos reservas ao fato de eu não ser judeu, pois em breve casarei-me com uma judia”. Aí ficou difícil não registrar. E o livro vinha tão bem... Posso dizer, sem pestanejar, que Mountolive é o melhor dos três até agora, ainda que tenha detectado nele cinco desses casos horrendos de ênclise impossível. Trata-se aqui de erro grotesco de gramática, transcendente a uma mera questão estilística e que já havia aparecido de forma acintosa em Justine, serenou depois em Balthazar e ressurge agora em conta-gotas — portanto, de forma ainda mais deletéria. No último parágrafo, a grande surpresa: uma mesóclise! O primeiro sentimento foi o de regozijo, afinal não estava tudo perdido: “passar-se-iam três dias antes que a casa pudesse expiar sua tristeza”. Mas logo a feiúra da construção falou mais alto e destruiu minha alegria. Se Durrell conhecesse o português, posso apostar que ele não cunharia jamais uma frase como aquela. E justo no fecho de uma bela história.

A história vista por um ângulo inédito

Mas, antes que meu leitor comece a se inquietar na cadeira, passo de imediato ao que de fato interessa. Relembrando: Justine e Balthazar compartilham basicamente o mesmo narrador em primeira pessoa, um aprendiz de escritor até então anônimo que tenta resgatar, em forma de romance, uma história vivida anos antes em Alexandria. Esse personagem-narrador encontra-se auto-exilado numa pequena ilha do Mediterrâneo. O entrecho, com forte conotação sexual, é tratado sob dois diferentes pontos de vista, o que lhe garante previsivelmente a originalidade ao ser retomado no segundo romance. Como num quebra-cabeças, Balthazar consegue fechar várias lacunas deixadas abertas em Justine, além de aclarar outras tantas passagens que haviam ficado nebulosas e dar nova interpretação a alguns fatos, contrariando o que já se tinha por definitivo. Ainda assim, uma das versões está firmemente calcada na outra. O que mais me agradou em Balthazar foram as histórias da família do personagem Nessim que, se não eram indispensáveis à trama principal, davam ao livro um colorido todo especial.

Mountolive afasta-se de seus antecessores já pela escolha do narrador, agora em terceira pessoa. É uma mudança de peso, pois a narrativa adquire com isso um outro caráter. Sai de cena a voz, às vezes claudicante, do escritor anônimo que buscava lembrar — e compreender — o que se passara numa trama em que fora um dos protagonistas; entra a firmeza proporcionada pela neutralidade da terceira pessoa (em dado momento, há um lapso e o “eu” reaparece do nada numa frase; a solução soa estranhíssima). A história, composta dos mesmos personagens, é vista por um ângulo de todo inédito. E é possível afirmar que se trata realmente de uma nova história: se antes era explorada ao máximo a passionalidade ambígua dos triângulos amorosos, agora o discurso é mais racional e linear em sua forma, ainda que mantido seu apelo erótico. Mountolive, jovem diplomata de carreira, passa dois meses em Alexandria a convite do pai de Nessim, o rico marido de Justine, com o objetivo de aprender árabe, e se torna amante de Leila, mulher de seu anfitrião. Anos mais tarde, volta ao Egito como embaixador da Inglaterra. Uma conspiração política está em curso envolvendo pessoas com quem tinha feito amizade na primeira visita, inclusive a família que o acolhera, e revelando os bastidores da diplomacia, com seus ritos e protocolos — e com os quais Durrell demonstra ter grande familiaridade. Eis aí os ingredientes de uma boa trama de suspense da qual, em respeito ao leitor, não seria prudente dizer mais. As razões da mudança de tom estão de certo modo refletidas em outra bela passagem:

É impossível escrever mais de uma dezena de cartas de amor sem ficar ansioso por mudar de assunto; a mais rica das experiências humanas é também a mais limitada em sua expressão. Palavras matam o amor, assim como matam todo o resto. Leila já havia planejado transferir suas relações para um plano mais rico, porém Mountolive ainda era jovem demais para tirar proveito do que ela tinha a oferecer — os tesouros da imaginação.

Por outro lado, Durrell avança nas duas histórias que mais me encantaram em Balthazar: a de Leila e a de Naruz, irmão caçula de Nessim. Se no segundo livro ambas têm uma função periférica, agora elas ganham importância a ponto de se tornarem essenciais ao desfecho.

O que mais impressiona na engenhosa construção de O Quarteto... é a perícia com que Durrell, a partir de uma trama obscura, repleta de ambigüidades, racionaliza e vai contrapondo novos elementos para criar um universo perfeito que o leitor depois irá desvendar — e que irá surpreendê-lo. Dito desta maneira, mais parece a receita de um livro de mistério. A distinção fica então por conta da quantidade de peças envolvidas e do aprofundamento dos diversos pontos de vista. Numa clássica história de detetive, por exemplo, espera-se que no fim as peças todas se encaixem e que a única conclusão possível seja apresentada aos protagonistas. Não é essa a proposta de Durrell. À medida que as facetas e os desdobramentos da trama vão sendo desvendados pelo leitor, os personagens continuam com suas próprias histórias e verdades — um simulacro da vida real, colorido pelo exotismo do cenário e de seus atores.

Duas últimas considerações:

Talvez por eu ter gostado de Mountolive mais do que dos outros, a capa foi também a que mais me agradou. De um céu azul profundo, que se confunde com a cor da base, saltam três domos de mesquita fotografados em magnífico enquadramento. A luz pode indicar aurora, mas aposto numa cena crepuscular. Os domos são ricamente rendilhados, lembrando um crochê. O nome do autor e do livro, que vinham no alto em Justine e desciam para o centro em Balthazar, agora caem quase para o pé da página, deixando que ela seja dominada pela imponência solene da construção. Uma beleza.

Por fim, algo que me intrigava fica finalmente esclarecido: chama-se Darley o escritor-narrador até então anônimo. Mas não descobri razão alguma para que o segredo fosse mantido até a entrada da terceira pessoa... De idiossincrasias, nenhum escritor está livre. Nem mesmo Durrell.



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