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Vozes hispânicas – 4

José Watanabe: o guardião do gelo

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A presença da cultura japonesa na obra de José Watanabe não se limita a elementos biográficos, mas está arraigada numa série de características que revelam um longo convívio com a tradição literária do haicai

Marco Catalão - (25/04/2008)

Há um ano, no dia 25 de abril de 2007, falecia em Lima o poeta José Watanabe. Nascido em Laredo, no norte do Peru, em 1946, e tendo publicado seu primeiro livro, Album de familia, em 1971, foi com sua segunda obra, El huso de la palabra, aparecida apenas em 1989, que Watanabe foi reconhecido pela crítica como um dos mais importantes escritores contemporâneos em língua espanhola. A partir da década de 90, passou a publicar com maior regularidade: Historia natural, de 1994, Cosas del cuerpo, de 1999, La piedra alada, de 2005, e Banderas detrás de la niebla, de 2006, reúnem o essencial de sua produção poética.

A presença da cultura japonesa em sua obra não se limita a elementos estritamente biográficos, mas está arraigada numa série de características que revelam um longo convívio com a tradição literária do haicai: o papel central da imagem como recurso poético; a linguagem contida, direta, sem afetação; a recusa em aceitar falsas hierarquizações entre o “elevado” e o “baixo”, o “grande” e o “pequeno”, o “banal” e o “transcendente”; o humor que envolve mesmo as circunstâncias mais dolorosas; o sentimento de fugacidade da vida como eixo central de sua visão poética.

Por outro lado, Watanabe incorpora a esses elementos tradicionais uma experiência de corporeidade que talvez seja o principal responsável pelo caráter singular da sua poesia: o contato do corpo com a montanha, do dedo humano com o louva-a-deus, e deste com a ambígua língua da sua fêmea, revelam, de forma concisa, o júbilo efêmero e a precariedade inevitável de toda existência, de todas as “formas puras” que se derretem inapelavelmente sob o sol. A deterioração imposta pelo tempo não poupa sequer os santos de pedra, e ao poeta cabe apenas a perplexidade do “amor rápido”, o ofício inútil de guardar o que está destinado à perda e à dissolução.

La mantis religiosa

Mi mirada cansada retrocedió desde el bosque azulado por el sol
hasta la mantis religiosa que permanecía inmóvil a 50 cm. de mis ojos.
Yo estaba tendido sobre las piedras calientes de la orilla del Chanchamayo
y ella seguía allí, inclinada, las manos contritas,
confiando excesivamente en su imitación de ramita o palito seco.

Quise atraparla, demostrarle que un ojo siempre nos descubre,
pero se desintegró entre mis dedos como una fina y quebradiza cáscara.

Una enciclopedia casual me explica ahora que yo había destruido
a un macho
vacío.
La enciclopedia refiere sin asombro que la historia fue así:
el macho, en su pequeña piedra, cantando y meneándose, llamando
hembra
y la hembra ya estaba aparecida a su lado,
acaso demasiado presta
y dispuesta.

Duradero es el coito de las mantis.
En el beso
ella desliza una larga lengua tubular hasta el estómago de él
y por la lengua le gotea una saliva cáustica, un ácido,
que va licuándole los órganos
y el tejido del más distante vericueto interno, mientras le hace gozo,
y mientras le hace gozo la lengua lo absorbe, repasando
la extrema gota de sustancia del pie o del seso, y el macho
se continúa así de la suprema esquizofrenia de la cópula
a la muerte.
Y ya viéndolo cáscara, ella vuela, su lengua otra vez lengüita.

Las enciclopedias no conjeturan. Ésta tampoco supone qué última palabra
queda fijada para siempre en la boca abierta y muerta del macho.
Nosotros no debemos negar la posibilidad de una palabra
de agradecimiento.

O louva-a-deus

Meu olhar cansado se desviou do bosque azulado pelo sol
para o louva-a-deus que permanecia imóvel a 50 cm de meus olhos.
Eu estava estendido sobre as pedras quentes à beira do Chanchamayo
e ele continuava ali, inclinado, as mãos contritas,
confiando excessivamente em sua imitação de galhinho ou pauzinho seco.

Quis pegá-lo, demonstrar-lhe que um olho sempre nos descobre,
mas se desintegrou entre meus dedos como uma casca fina e quebrada.

Uma enciclopédia casual me explica agora que eu tinha destruído
um macho
vazio.
A enciclopédia refere sem assombro que a história foi assim:
o macho, em sua pequena pedra, cantando e se movendo, chamando
fêmea
e a fêmea já estava ali a seu lado,
talvez demasiado pronta
e disposta.

Duradouro é o coito dos louva-a-deus.
No beijo
ela desliza uma longa língua tubular até o estômago dele
e pela língua goteja-lhe uma saliva cáustica, um ácido,
que vai liquefazendo seus órgãos
e o tecido do mais distante meandro interno, enquanto lhe provoca gozo,
e enquanto lhe provoca gozo a língua o absorve, repassando
a extrema gota de substância do pé ou do cérebro, e o macho
continua assim da suprema esquizofrenia da cópula
à morte.
E, já o vendo casca, ela voa, sua língua outra vez lingüinha.

As enciclopédias não fazem conjecturas. Tampouco esta supõe que última palavra
fica fixada para sempre na boca aberta e morta do macho.
Nós não devemos negar a possibilidade de uma palavra
de agradecimento.

***

Animal de invierno

Otra vez es tiempo de ir a la montaña
a buscar una cueva para hibernar.

Voy sin mentirme: la montaña no es madre, sus cuevas
son como huevos vacíos donde recojo mi carne
y olvido.
Nuevamente veré en las faldas del macizo
vetas minerales como nervios petrificados, tal vez
en tiempos remotos fueron recorridos
por escalofríos de criatura viva.
Hoy, después de millones de años, la montaña
está fuera del tiempo, y no sabe
cómo es nuestra vida
ni cómo acaba.

Allí está, hermosa e inocente entre la neblina, y yo entro
en su perfecta indiferencia
y me ovillo entregado a la idea de ser de otra sustancia.

He venido por enésima vez a fingir mi resurrección.
En este mundo pétreo
nadie se alegrará con mi despertar. Estaré yo solo
y me tocaré
y si mi cuerpo sigue siendo la parte blanda de la montaña
sabré
que aún no soy la montaña.

Animal de inverno

Outra vez é tempo de ir à montanha
procurar uma cova para hibernar.

Vou sem mentir para mim: a montanha não é mãe, suas covas
são como ovos vazios onde recolho minha carne
e esqueço.
Novamente verei nos sopés do maciço
veios minerais como nervos petrificados, talvez
por calafrios de criaturas vivas.
Hoje, depois de milhões de anos, a montanha
está fora do tempo, e não sabe
como é a nossa vida
nem como acaba.

Está ali, bela e inocente entre a neblina, e eu entro
em sua perfeita indiferença
e me enovelo entregue à idéia de ser de outra substância.

Vim pela enésima fez para fingir minha ressurreição.
Neste mundo pétreo
ninguém se alegrará com meu despertar. Eu estarei sozinho
e me tocarei
e se meu corpo continuar a ser a parte branda da montanha
saberei
que ainda não sou a montanha.

***

El devoto

En este profundo depósito
de catedral, hieráticos
como una triste cuadrilla de obreros de yeso
los santos esperan al restaurador.
En un altar y otro
fueron deteriorándose, atacados por las moscas,
las polillas y los abusos
de la fe.
Aquí ya no son San Francisco, San Valentín, San Judas,
cualquiera es cualquiera, bultos
humanos, desfigurados y sin nombre, esperando
al viejo restaurador
que murió hace tiempo.
Estos anónimos
que fueron rezados, celebrados, contemplados
con infinita devoción
son ahora mis santos. Aquí soy el único fiel y el prelado.
Ante ellos me arrodillo
y rezo con más solidaridad que fe.

O devoto

Neste profundo depósito
de catedral, hieráticos
como um triste bando de trabalhadores de gesso,
os santos esperam pelo restaurador.
Num altar e noutro
foram se deteriorando, atacados pelas moscas,
as traças e os abusos
da fé.
Aqui já não são São Francisco, São Valentim, São Judas,
qualquer um é qualquer um, vultos
humanos, desfigurados e sem nome, esperando
pelo velho restaurador
que morreu faz tempo.
Estes anônimos
que foram rezados, celebrados, contemplados
com infinita devoção
são agora meus santos. Aqui sou o único fiel e o prelado.
Diante deles me ajoelho
e rezo com mais solidariedade que fé.

***

El guardián del hielo

Y coincidimos en el terral
el heladero con su carretilla averiada
y yo
que corría tras los pájaros huidos del fuego
de la zafra.
También coincidió el sol.
En esa situación cómo negarse a un favor llano:
el heladero me pidió cuidar su efímero hielo.

Oh cuidar lo fugaz bajo el sol…

El hielo empezó a derretirse
bajo mi sombra, tan desesperada
como inútil.
Diluyéndose
dibujaba seres esbeltos y primordiales
que sólo un instante tenían firmeza
de cristal de cuarzo
y enseguida eran formas puras
como de montaña o planeta
que se devasta.

No se puede amar lo que tan rápido fuga.
Ama rápido, me dijo el sol.
Y así aprendí, en su ardiente y perverso reino,
a cumplir con la vida:
yo soy el guardián del hielo.

O guardião do gelo

E coincidimos no vento
o sorveteiro com seu carrinho avariado
e eu
que perseguia os pássaros fugidos do fogo
da colheita.
Também coincidiu o sol.
Como se negar nessa situação a um favor simples:
o sorveteiro me pediu para cuidar de seu efêmero gelo.

Oh cuidar do fugaz sob o sol...

O gelo começou a derreter
sob a minha sombra, tão desesperada
quanto inútil.
Diluindo-se
desenhava seres delgados e primordiais
que só por um instante tinham firmeza
de cristal de quartzo
e em seguida eram formas puras
como de montanha ou planta
que se devasta.

Não se pode amar o que tão rápido foge.
Ama rápido, me disse o sol.
E assim aprendi, em seu ardente e perverso reino,
a cumprir a vida:
eu sou o guardião do gelo.

***



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