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LITERATURA

Se fosse ficção

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Talvez a palavra resolva seguir ao lado da literatura, mas também se mantém sozinha, também é seu próprio alicerce. Apenas ela pode se narrar

Renata Miloni - (03/05/2008)

O silêncio da literatura veio num dia tão normal e pálido, que quase foi um domingo. Ninguém quis reagir, todos ignoraram como se ignora um escritor da nova geração. Dentro da própria ficção, a literatura não se assustou, muito menos se dissipou do rumo. Ao perder os escritores, o que ela fez foi existir sozinha para se manter. A palavra foi partida em pedaços minúsculos, agora se publica para talvez escrever. Agora apenas se publica. De outro lado, hoje só resta o eco das vagas constatações. Com a palavra quebrada, não se gravará mais a memória.

Mergulhados no anseio de se aproximarem da literatura (já que hoje é o suficiente para fazer parte dela), pretensos escritores se amontoam em pilhas de desequilíbrio e convulsão. Chegam com pressa, não olham para os lados e, quando olham para frente, seus olhos ficam embaçados, como se fosse uma doença. O mesmo acontece com fanáticos leitores, formando também suas pilhas, tentando deixar ao máximo parecidas com as de quem provoca tamanha salvação em suas mentes nubladas.

A diferença nas pilhas dos leitores é a colocação de placas para categorização de cada uma. Não de maneira organizada, leitores não têm tempo para organização, isso sempre esteve explícito. Eles não encostam em outros de categorias diferentes, isso seria garantia de semanas com náuseas e manchas esverdeadas pelo corpo. Leitores sofrem e se desesperam quando não conseguem afirmar tamanha dor a quantos cantos puderem inventar — não, leitores nunca precisaram da palavra, da memória e muito menos da literatura para inventar (mas não se espantam por querer cada uma).

A literatura assiste a tudo de longe, distante do que pensam ser ela mesma, alheia ao que defendem em seu nome. A encenação permanecerá a piscar por longas décadas a partir de agora, até chegar o dia em que néscios pretensos em suas pilhas transformarão o que buscam em sua própria arte: a de apagar a arte, já que estarão além dela.

A memória do homem será extinta, pois a literatura se cala. Histéricos escritores queimarão em praça pública a memória registrada como forma de manifestação por direitos e fins dos quais já não se lembram mais. A literatura se exime e evita o constrangimento de ser confundida com o que fizeram de seus vestígios. Aqueles que antes se achavam dignos de mantê-la possível para todos, hoje são gladiadores que lutam pela meta alcançada sempre pelo outro. Digladiam por algumas árvores, mas cortam todas as raízes.

A palavra não mais lhes pertence, como eram convictos. Agora esmagada, ela já não registra criações. Não suporta mais as chances dos novos, pois não pode esperar longos segundos para que apareçam. A palavra, agora chutada, já se cansou de desculpas, de explicações e teorias de por que a usam para os mesmos detalhes e por que mentem, dizendo que criaram. Talvez a palavra resolva seguir ao lado da literatura, mas também se mantém sozinha, também é seu próprio alicerce. Apenas ela pode se narrar.

Durante a tarde do possível domingo, a literatura se dedicou a presenciar cada minuto de seu silêncio. Para expurgar o que contrariou em sua conturbada passagem, sentou na calçada da esquina e colocou as mãos sobre o rosto. Chorou por alguns minutos, que é o quanto tudo foi digno, ergueu a cabeça e seguiu para outros ares.



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