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LITERATURA

Ficção Científica: sobre nós e nossa condição

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Lá fora, nos Estados Unidos e na Europa, a ficção científica já saiu da infância há muito tempo. A zona de sombra, a zona do crepúsculo, a Twilight Zone da incerteza aumenta cada vez mais. Os tons de cinza estão cada vez mais ricos. E é nessas frestas entre os tentáculos da besta que a ficção científica atual tem encontrado seu nicho

Fábio Fernandes - (03/05/2008)

Falar em ficção científica no Brasil é sempre um negócio arriscado. Ou você fala de um lugar da cultura relacionado às novas tecnologias, cibercultura e áreas do conhecimento santificadas e sancionadas pelo senso comum – e aí ocorre o paradoxo, pois a ficção científica nesse contexto não é necessariamente ficção científica, mas uma análise sobre mídias digitais e congêneres – ou você fala a partir do lugar do especialista. E o especialista em ficção científica não é necessariamente um especialista em ciência, tecnologia ou em algum campo consagrado do conhecimento, mas em cultura pop.

A cultura pop já foi redimida há tempos por Andy Warhol, o grupo Fluxus, John Cage e, em terra brasilis, pelos irmãos Campos, Caetano, Leminski, Arnaldo Antunes e uma honrosa galeria de gerações de artistas e performers que nos precede em décadas. Mas a cultura pop tem mais tentáculos que um monstro saído da imaginação de H. P. Lovecraft (e se você entendeu essa referência sem consultar o Google, você provavelmente é um especialista em cultura pop), e um desses tentáculos é justamente o gênero literário chamado ficção científica.

A origem da ficção científica é mais controvertida que o tal paradoxo do ovo e da galinha. Há estudiosos que traçam a origem a Luciano de Samósata, escritor sírio do século II que influenciou autores como Jonathan Swift e Voltaire com seus escritos satíricos e irreais. Em Uma história verdadeira, Luciano de Samósata relata uma fantástica viagem à Lua e menciona a existência de vida extraterrestre.

A influência sobre Swift e Voltaire é óbvia quando nos lembramos de As viagens de Gulliver e Micrômegas, obras no mesmo registro de Uma história verdadeira, relatando viagens fantásticas ou encontros com seres de outros planetas. Os séculos 17 e 18 não foram pobres nesse tipo de literatura fantástica: entre outros, podemos citar Johannes Kepler e seu livro Somnium, que descreve uma viagem fantástica de um discípulo do astrônomo Tycho Brahe à Lua, mas – como as obras citadas abaixo – ele se vale de forças ocultas para essa viagem e a usa como um meio para atingir seu objetivo, que é escrever um tratado de astronomia.

Verne, Wells e Gernsback

A ficção científica só começaria a surgir como literatura efetivamente, ou seja, com o foco voltado para a ciência, pelas mãos de Jules Verne e H. G. Wells. Isto hoje é mais aceito por nós, embora na época em que eles publicaram suas obras isso não fosse um consenso – principalmente da parte de Wells, que, dizem, criticava ferozmente Verne porque este não teria tanta preocupação com a coerência e a verossimilhança científica em suas histórias. Seja como for, o fato é que ambos foram precursores da ficção científica.

Mas o culpado foi mesmo Hugo Gernsback. Cientista de Luxemburgo radicado nos Estados Unidos, Gernsback criou entre 1908 a 1936 cerca de trinta diversas revistas pulp de divulgação científica em diversas áreas do conhecimento, de mecânica (Science and Mechanics, Aviation Mechanics) a comunicação (Radio Craft, Short Wave Craft) e, por incrível que pareça, sexologia (Sexology)! Entre todos esses assuntos tão díspares, Gernsback tinha especial predileção pelas revistas que divulgassem a ciência de maneira didática e atraente: foi esse interesse que levou à criação de revistas de histórias de ficção envolvendo invenções e tecnologia. Assim surgiram a Science Wonder Stories, Air Wonder Stories e Amazing Stories. Foi nessa época (final da década de 1920) que Gernsback cunhou o termo “scientifiction” para definir o tipo de história que suas revistas publicavam. Daí para refinar melhor a palavra e torná-la mais palatável, transformando-a em “science fiction”, foi um pulo – mas, parafraseando Neil Armstrong ao pousar na Lua (um antigo sonho da ficção científica tornado realidade em 1969), um grande passo para a humanidade.

No entanto, é preciso definir de que humanidade estamos falando. A maioria esmagadora dos mais de sete bilhões de habitantes do mundo só conhece a FC por intermédio do cinema e da TV. Os poucos que sequer sabem que existe uma literatura do gênero tendem a não levá-la a sério. É preciso que, de tempos em tempos, intelectuais como Umberto Eco, Joyce Carol Oates, Susan Sontag (e, aqui no Brasil, o saudoso José Paulo Paes) reconheçam a existência e a qualidade do gênero – ainda que cum grano salis. Dificilmente a ficção científica é assumida como literatura com L maiúsculo. Há uma certa condescendência generalizada que admite quando muito a classificação da FC como literatura de entretenimento – colocando, por exemplo, os livros de Michael Chabon e Jonathan Lethem, apenas para citar dois autores da nova geração que são incensados pela mídia (com razão) e publicados aqui por editoras como a Companhia das Letras, como, na melhor das hipóteses, literatura especulativa ou fantástica. Muito embora tanto Chabon quanto Lethem publiquem constantemente contos em revistas de FC nos Estados Unidos sem o menor pudor.

Portanto, ser um especialista em cultura pop, literatura de entretenimento, e particularmente literatura de ficção científica, requer um bom embasamento, do tipo newtoniano, ou seja: é preciso estar bem montado sobre ombros de gigantes para se obter carta branca para mencionar o assunto sem correr o risco de ser ridicularizado. Isto, claro, não vale se você for Quentin Tarantino (mas Tarantino é que nem mãe ou Highlander, só tem um); caso contrário, você passa a ser classificado pelo rótulo nem sempre meritório de – um termo que já virou pejorativo e que não se aplica necessariamente ao especialista do gênero.

Daí se vê que o primeiro problema que alguém enfrenta na hora de falar desse gênero tão elusivo (no Brasil, ressalto novamente) é o preconceito. A idéia disseminada há décadas pelo senso comum passa pelo filtro do audiovisual, pela ficção científica cinematográfica ou das séries de TV – que, com raras e honrosas exceções, está atrasada cerca de trinta anos em relação ao que se faz na literatura do mesmo gênero hoje em dia. Querem um exemplo? As recentes adaptações de filmes de Philip K. Dick, já falecido há 26 anos – e várias dessas histórias têm 40 ou 50 anos de idade.

Um gênero em plena maturidade

A literatura de ficção científica já saiu dos robôs e espaçonaves há tempos: conceitos ainda praticamente desconhecidos por aqui como teleporte quântico, singularidade, pós-humanos e computação pervasiva (apenas para citar muito poucos) já estão entrando para a galeria de lugares-comuns na literatura anglo-americana do gênero. Sem contar que a tecnologia nem é a coisa mais importante num gênero literário que usa muito bem esses tropes, esses arquétipos, mas que sempre tratou muito mais da reação do ser humano às mudanças (sejam políticas, sejam tecnológicas) do que propriamente da ciência.

Lá fora, nos Estados Unidos e na Europa, a ficção científica já saiu da infância há muito tempo. 2001 chegou e foi embora, e não ficamos nem com os sonhos utópicos dos Jetsons – mas podia ser pior, mesmo com os atentados do 11 de setembro: a guerra fria de Reagan e companhia, que tantas noites de sono nos fez perder na década de 1980, não deu em nada – não diretamente, sob a forma dos cogumelos nucleares. A ameaça ainda existe, mas a zona de sombra, a zona do crepúsculo, a Twilight Zone da incerteza aumenta cada vez mais. Os tons de cinza estão cada vez mais ricos. E é nessas frestas entre os tentáculos da besta que a ficção científica atual tem encontrado seu nicho.

A ficção científica também sofreu, sentiu as mudanças e mudou com elas. Dos sonhos de robô de Isaac Asimov e do 2001 vislumbrado pelo recém-falecido mestre Arthur C. Clarke, a literatura chamada especulativa já quase mudou de nome diversas vezes e ganhou um sem-número de grupos e movimentos em seu interior. A New Wave dos anos 1960 (batizada assim em homenagem à nouvelle vague de Godard e Truffaut pelo inglês Christopher Priest, autor do livro The Prestige, que rendeu um ótimo filme recentemente com Hugh Jackman e David Bowie), onde a exploração agora assumia novas fronteiras sem medo de ser feliz: a sexualidade e as diferenças entre idiomas e culturas (vale lembrar que isso foi na época da guerra do Vietnã, uma guerra travada, entre outras coisas, por ideologias, entre povos de culturas e idiomas totalmente diferentes).

Então, nos anos 1980, vieram os cyberpunks, metendo literalmente a bota Doc Martens velha e fedorenta, cheia de tachas, para botar abaixo as relíquias de casa velha da FC. De certa forma, conseguiram: as visões tecnoxamânicas de William Gibson e Bruce Sterling, hoje gurus de um pensamento cibercultural e tecnopolítico mais do que literário, abriram caminho para uma maior aceitação do gênero, principalmente na Academia. Hoje, tanto nos EUA e na Europa quanto no Brasil, multiplicam-se dissertações, teses, coletâneas de artigos e textos dos mais variados calibres sobre a relação da ficção científica com conceitos que fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa, como ciborgues, ciberespaço, implantes, comunicação wireless. Não falta quem diga que o futuro é hoje. Um lugar comum que faz sentido quando paramos nas avenidas de qualquer grande cidade do mundo e vemos a quantidade de gente que circula com seus celulares, PDAs, mochilas com notebooks a tiracolo, minúsculos aparelhos de som, roupas de microfibra impermeáveis à chuva, piercings e tatuagens que determinam novas tribos urbanas. São paisagens urbanas que Wells e Gernsback não imaginaram, mas que autores posteriores, como Arthur C. Clarke e William Gibson, entre muitos outros, pensaram – e de certa forma ajudaram a moldar com seus escritos.

Temas e autores novos

Hoje, essa literatura se expandiu e, embora ainda mantenha o rótulo por questões comerciais e de hábito, apresenta uma pletora de temas novos e de autores idem, a maioria deles ainda desconhecida (por enquanto) no Brasil.

Alguns exemplos? Vamos lá: Cory Doctorow, autor de Down and Out in the Magic Kingdom e Eastern Standard Tribe, entre outros, que incorpora à sua narrativa conceitos tirados da Web como Karma Points, a busca do Google, os dilemas dos nerds que trabalham como analistas de sistemas. E foi o primeiro (e até agora, único) a disponibilizar TODA sua obra passada, presente e futura pelo Creative Commons – no que está sendo seguido, devagar e cautelosamente, por vários outros autores e até editoras, que estão lançando na Web livros publicados há 2 ou 3 anos, geralmente a parte 1 de uma trilogia cujo segundo volume está saindo agora somente em papel.

Charles Stross, autor de Accelerando, um Neuromancer para o século 21, que trata de pós-humanidade e da reação do ser humano a novos paradigmas tecnológicos e sociais. (Accelerando também foi recentemente disponibilizado na Web.)

Alastair Reynolds, um dos nomes mais importantes do momento: astrofísico que trabalhava para a Agência Espacial Européia e parou para viver de sua literatura, escreve histórias ambientadas em futuros distantes, onde a humanidade já abandonou a Terra há muito tempo e abraçou diferentes modos de viver, tanto nos planetas habitados quanto em gigantescas naves que cortam a galáxia.

E nem estamos entrando em grandes detalhes aqui. Faltou falar do romance noir pós-humano de Richard K. Morgan, com tons altamente chandlerianos, as aventuras galácticas de Dan Simmons e Steph Swainston, que não só nada têm de ridículas como resgatam o sentido do maravilhoso, o sense of wonder que atualmente só o cinema (e mesmo assim de vez em quando) parece nos dar. É que não se conhece a literatura.

A FC e nós

Em artigo recente para a revista Wired, o jornalista Clive Thompson escreveu que a FC é “o último bastião de uma literatura filosófica”. Se eu concordo? Sim e não. Não porque não é o último bastião; para falar dos instintos, pulsões e comportamento humano, a literatura policial ainda parece a melhor pedida, já que está lidando sempre dentro dos limites do que convencionamos chamar de realidade. Por outro lado, a literatura de FC já deixou de ser exclusivamente uma literatura de idéias há muito tempo (Isaac Asimov era o maior defensor dessa tese), e também é uma excelente analista do comportamento humano – apenas lida com o que não está lá. E daí? Freud escreveu uma literatura inteira sobre pulsões e medos de pessoas que muitas vezes sentem coisas que não existem sobre coisas que não estão lá. É uma maneira bastante canhestra de falar de psicanálise, mas a questão fundamental é: a FC não fala do futuro, nunca falou. O futuro é o glacê do bolo, o pano de fundo, a mobília da casa. E, embora a mobília seja importante para o conforto dos habitantes da casa, o que dá a medida de um lar é quem o habita.

A FC é uma literatura que trata das reações humanas à tecnologia (ou à sua ausência). Não se trata mais de discutir esta ou aquela invenção; novos subgêneros como a New Weird e a New Space Opera já abriram mão de discutir exclusivamente a importância desta ou daquela invenção para a humanidade. Como disse Cortázar quando lhe perguntaram o que achava da personagem de quadrinhos de Quino, Mafalda: “Não importa o que eu acho da Mafalda. O que importa é o que a Mafalda pensa de mim”.

Para a FC atualmente, não importa mais discutir o que é a FC semântica ou semioticamente, e nem mesmo transformá-la numa paródia de si mesma. Importa é saber o que ela discute sobre nós. Num mundo em rápida transformação ecológica, econômica e política, podemos precisar.



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