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Zona do Crime, alienação e fascismo social

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Três garotos favelados aproveitam-se de uma pane elétrica para vencer os muros de um condomínio de luxo. Em seu filme de estréia, o mexicano Rodrigo Plá vê a caçada movida contra eles como metáfora de uma sociedade que pratica a brutalidade permanentemente, quase sem enxergar que o faz

Bruno Carmelo - (05/05/2008)

La Zona é um condomínio fechado ultra-protegido, em um bairro mexicano cercado de favelas. Dentro dos altos muros, uma comunidade de ricos leva uma vida à parte, com suas mansões padronizadas e seus grandes carros. Quando uma pane de eletricidade corta momentaneamente a vigilância do local, três moradores da favela decidem aproveitar essa oportunidade única para entrar no condomínio.

Lá dentro, numa tentativa de roubo, eles são surpreendidos pela proprietária da casa. A sucessão de fatos leva à morte da senhora que estava armada, ao posterior assassinato de dois dos assaltantes pelos moradores e à fuga do último, que se esconde em uma das casas.

Tudo isso se passa nos primeiros dez minutos de Zona do Crime. Num mesmo ritmo intenso, o diretor estreante Rodrigo Plá mescla temas como a luta de classes, decadência do poder e das leis, o fascismo. Ou seja, nada de casos particulares: o diretor dedica-se a criar um cruel panorama de toda uma geração contemporânea.

As ações violentas, ou claramente fascistas nunca são gratuitas. Há sempre uma justifictiva, uma lógica distorcida que acalme a consciência de cada um

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"La Zona é um retrato da tendência atual das sociedades ricas de abrirem mão da liberdade em troca de segurança"

As pretensões e ações são grandes. A Zona, mais do que um condomínio residencial, é uma comunidade em que o traço que mais salta aos olhos são as leis próprias criadas pelo grupo. Todos eles concordam em não chamar a polícia (“porque a justiça não serve para nada”) e procurar o ladrão restante sozinhos. Armados de todos tipos de facas, pistolas e arpões, vigiam dia e noite as ruas de suas casas em busca de um sinal do suspeito.

Essa rejeição da justiça exterior é um reflexo direto da alienação dos moradores. No caso, um pai explica ao filho adolescente que, no passado, quando seu irmão havia sido baleado, a demora dos policiais teria sido responsável por sua morte. Logo, a polícia não era digna de confiança. Essa lógica se mostra extremamente individualista, porque só analisa os efeitos sobre si mesmo, e recusa ver o papel desta instituição no resto da sociedade.

O mais interessante de tudo isso é que as ações violentas — e claramente fascistas — nunca são gratuitas. Há sempre uma justificativa, uma lógica distorcida que acalme a consciência de cada um. Se eles mataram brutalmente os dois garotos e esconderam os corpos, foi em legítima defesa. Se ainda procuram o último ladrão, na intenção de matá-lo, é porque ele ainda pode ferir outros moradores. A sociedade é necessariamente má e predatória, e portanto eles precisam se defender.

Zona do Crime é um retrato da tendência atual das sociedades ricas, de abrirem mão da liberdade em troca de segurança. Pensamos diretamente nos EUA pós-11 de setembro, com suas câmeras e listas infindáveis de suspeitos. Ou nas ações terroristas na Inglaterra, que fizeram com que policiais à paisana perseguissem e matassem erroneamente um brasileiro, para serem inocentados depois. O medo extremo da classe alta de perder seu capital justifica qualquer tipo de ação violenta. Num mundo onde julgam-se o centro e a cobiça de todos, qualquer ação é justificada pela legítima-defesa.

Mesmo se um policial tenta investigar o caso, é logo abafado pelo suborno. Plá mostra o interessante mecanismo nos quais os poucos policiais conscientes são engolidos pelo sistema, impedidos de concluir suas investigações. Do mesmo modo, os moradores da Zona que se opõem às regras internas são calados e punidos.

Plá aprecia o ritmo intenso e poder de persuasão dos filmes norte-americanos. Ao utilizar essa estética num roteiro tão corrosivo, produz, no mínimo, uma interessante ironia

Ao tocar em tantos assuntos delicados e polêmicos, Rodrigo Plá atinge extremos e chega a momentos questionáveis. O início apresenta-se como um certo maniqueísmo de esquerda, no qual todo morador da favela é inocente e todo morador da Zona é necessariamente fascista e paranóico. Felizmente, o desenrolar do filme destrói os estereótipos e complexifica o cenário, de modo que reste unicamente uma descrença em todas as instituições, em todo o sistema. Qualquer ato de violência leva a outro, e esse a um terceiro... infinitamente.

O diretor foi igualmente acusado pela crítica de incoerência, ao basear seu filme na estética dos grandes títulos de ação norte-americanos. Ora, como fazer uma obra tão crítica apoiada na estética dominante? Um crítico do jornal Libération apresentou um pensamento mais plausível sobre esse aspecto, indicando que Plá aprecia o ritmo intenso e poder de persuasão dos filmes norte-americanos, e que a utilização dessa estética num roteiro tão corrosivo produziria, no mínimo, uma interessante ironia.

Por fim, Zona do Crime é uma obra de complexidade ímpar, e fica difícil mostrar admiração pelo filme sem ser acusado de partidarismo. Como os brasileiros bem conhecem após a polêmica recente em torno de Tropa de Elite, é possível defender algumas obras justamente por elas serem discutíveis, por se prestarem a tentar entender de uma vez só um grande funcionamento social. A pretensão pode ser grande, e seria impossível abordar todos os aspectos influentes dessa realidade, mas o material para reflexão é vasto e significativo. Contra Tropa de Elite, ainda, La Zona tem o mérito de não recorrer à defesa de tal ou tal grupo, constituindo uma obra de análise ao invés de um filme panfletário.

La Zona (2008)
Filme mexicano dirigido por Rodrigo Plá.
Com Daniel Gimenez Cacho, Maribel Verdú, Carlos Bardem.

Confira as fotos e trailer do filme:

Fotos
Trailer

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

Os estupradores castos
Deliver Us From Evil, da norte-americana Amy Berg, examina de modo impiedoso e indigesto a pedofilia na Igreja Católica — e sua inacreditável impunidade. Uma das provocações: numa religião em que o sexo é pecado, molestar uma criança não seria equivalente a transar com uma pessoa qualquer?

Banheiro do Papa: engajamento agridoce
Comédia popular de beleza plástica e certos efeitos (como montagens aceleradas e enquadramentos acrobáticos), o filme de Fernandez e Charlone celebra a inventividade, o jeitinho brasileiro-latino, a recusa à melancolia. Falta-lhe a crítica política — aparentemente, sua intenção inicial

Mein Führer, ousadia e frustração
Lento e forçadamente debochado, o filme mais recente de Dani Levy pretende debater a relação entre Hitler e o poder. Mas, ao criar a imagem de um ditador pobre-coitado, converte-se em obra estéril, que não dialoga nem com a História, nem com a atualidade.

Greenaway dialoga com Rembrandt
Em seu mais novo filme, diretor inglês debate as artes plásticas. Mas a abordagem — inovadora, ousada, livre de referências banais — perde-se, em parte, na tentativa de criar suspense policial e apontar, em Ronda Noturna, a imagem de um assassinato

Filme debate o estado do mundo
Seis diretores aceitam desafio de organização portuguesa e produzem obra coletiva sobre o tempo em que vivemos. Contribuições enxergam crise e necessidade de mudanças, mas o fazem por meio de poesia e metáforas — exceto no caso do curta brasileiro de Vicente Ferraz...

Hou Hsiao Hsien celebra a criação
Em Le Voyage du Ballon Rouge, novo filme do diretor chinês, os artistas são trabalhadores comuns, que andam pelas ruas, fazem compras, pagam aluguel. Mas uma série de surpresas estéticas sugere quanto é singular o seu ofício: propor outras formas, ousadas e inventivas, de enxergar o mundo e a vida

A morte é para toda a vida
Coluna revê El espíruto de la colmena (1973), primeiro filme de Victor Erice. Muito mais que homenagem ao cinema, ou debate sobre influência da TV, obra investiga o amadurecimento, em especial o trauma provocado pela noção de que teremos fim

Alexandra, o elemento perturbador
Em seu novo filme, Alexandre Sokurov introduz uma avó num acampamento de soldados russos na Tchetchenia. Por meio de um jogo de opostos, ele passeará por temas como as relações familiares, os desejos incestuosos, os conflitos entre Rússia e vizinhos e, em especial, a banalidade da guerra

Como se não fosse ficção
Abdellatif Kechiche dá ares de documentário a La Graine et le Moulet, seu novo filme — talvez para fundir prosa e poesia e criar obra sutil em que afirma, sem descambar para o panfleto, a igualdade entre franceses e marroquinos, cristãos e muçulmanos

XXY aborda um tabu
Diretora argentina encara o desafio de tratar do hermafroditismo, um tema quase ausente do cinema. Mas falta uma pitada de ousadia: opção por narrativa lateral, baseada sempre em metáforas e alusões, produz clima opressivo, que contrasta com humanismo da proposta

Garage: o mito do homem bom
Filme irlandês premiado em Cannes traça, delicado e flertando com o humor negro, o retrato de um ser solitário, que não tem idéias próprias nem opiniões divergentes. Alguém tão puro que não encontrou seu lugar na sociedade

California Dreamin’ e os absurdos do poder
Premiado em Cannes, filme de Cristian Nemescu serve-se da comédia e do absurdo para revelar impasses da autoridade, impotência oculta do militarismo e limites de certas resistências. Mesmo inconclusa, por morte do diretor, obra revela ascensão do novo cinema romeno

Suspiria, arte e sentidos
Avesso às fórmulas e clichês dos filmes de terror, o italiano Dario Argento produz obras marcadas por cenários, tons e música incomuns; tempo e espaço não-lineares; debates psicanalíticos. Texto inaugura nova coluna do Diplô, agora sobre cinema e diversidade



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