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LITERATURA

A casa no morro – Parte 3

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O cachorro tinha uma mancha de sangue na cabeça e estava próximo a uma porta que devia sair para o lado de fora. O chão me pareceu limpo. Ou sujo o suficiente para que o sangue sequer aparecesse. Inclinei-me por sobre o cachorro e olhei a porta. Dedos na maçaneta

Olivia Maia - (16/05/2008)

Não vi nada quando contornei a casa. Tampouco ouvi qualquer coisa. Havia ainda aquele silêncio estático. Olhei para o carro estacionado. A janela do lado do passageiro estava escancarada. Pensei logo que Manuel podia estar escondido ali dentro, enfiado aos pés do banco traseiro, arma em mãos, esperando que eu me aproximasse.

E eu deveria temer? Ele estaria acuado, sem ter para onde fugir.

A vantagem era minha.

Olhei em volta. As janelas da casa estavam todas fechadas. Pelas frestas era possível ver que o lado de dentro estava escuro. Nenhuma luz acesa.

Andei um pouco mais para me certificar que não haveria ninguém atrás da outra parede. Vi ainda outra janela fechada. O zumbido de uma mosca. E mais nada. Nem uma merda de uma brisa. Tudo era a poeira suspensa e silenciosa. Quis voltar e chamar meu parceiro, e subiu-me uma raiva por aquela alergia despropositada. Ergui a arma e dei alguns passos em direção à janela aberta do Escort.

Pude ver que o banco do passageiro estava muito para trás e um pouco deitado. O banco do motorista estava ajustado para frente. Talvez fosse o contraste de posições que me perturbava. Não parecia certo que alguém pudesse estar escondido atrás do banco deitado. Ou que estivesse todo encolhido atrás do banco do motorista.

Merda.

Tirei o dedo do guarda-mato da arma e o encostei no gatilho. Deveria gritar. Mão na cabeça! Seria estúpido gritar para o ar. Para o pó. Estou te vendo, sai daí!

Mas eu não estava vendo coisa alguma.

Mais alguns passos. Senti os músculos do corpo se retesando e preparei-me para atirar.

Nada.

Não havia ninguém no carro. Afrouxei a pegada da arma e espiei o lado de dentro. Aos pés do banco de trás havia um dinossauro azul de plástico que me pareceu inofensivo o suficiente. O carro estava sujo. Pelo vidro aberto, abri o porta-luvas. Encontrei um isqueiro e alguns recibos. Duas fitas cassete que deveriam estar ali havia alguns anos. Uma flanela suja e duas canetas. No chão, um jornal velho e um copo de refrigerante, vazio.

Incomodava-me a posição dos bancos. Manuel poderia ter passado a noite no carro. Talvez tivesse dormido no banco do passageiro.

E então...?

Afastei-me. Restava a casa. Ia sair dali para falar com Iuri, mas algo no chão brilhou com o reflexo do sol.

Era a chave do carro.

* *

- – Acho que vi alguma coisa.

- – Eu também – respondi, mostrando a Iuri a chave do carro.

- – Onde é que estava isso?

- – No chão.

- – Você acha que ele perdeu as chaves?

–- Não acho nada. Não gosto disso. O que você viu?

Iuri fez uma careta. Respirava pela boca. Seu rosto estava muito inchado e os olhos estavam vermelhos.

–- Minha vista está um pouco embaçada. O que você quer fazer?

- – Vou entrar.

- – Sozinho?

Cruzei os braços e o encarei. Se quisesse entrar sozinho não estaria ali conversando com ele. Iuri pareceu contrariado, mas tirou a arma do coldre e fez um gesto genérico em direção à casa.

– Você acha que ele está lá dentro?

- – Onde mais?

Ele olhou em volta. O matagal era muito amarelo e pálido, e nada vivo poderia se esconder ali. As árvores e o mato mais alto só começavam para baixo do morro, de onde havíamos vindo. Manuel não podia ter fugido.

- – Você vai acabar me matando – Iuri disse.

–- Quem está armado e quase cego é você.

Voltei para a viatura e peguei uma lanterna no porta-luvas. Andamos até a porta de entrada da casa. Iuri mantinha-se atrás de mim. Seria o mais lógico. Ele era uns vinte centímetros mais alto que eu.

Bati na porta. Ela cedeu, e veio de dentro uma poeira.

–- Manuel!

Meu grito deslocou ar, espalhando pó. Iuri afastou-se com um palavrão em alemão.

–- Porra, Pedro – completou.

E ele não era um de falar palavrões. Ou xingava em alemão, que era sua primeira língua. Eu não entendia o que dizia, mas sabia: estava xingando.

De dentro da casa, nenhuma resposta. Nenhum som. Empurrei a porta com a arma e veio de dentro outra nuvem de poeira. Iuri cobriu a boca e o nariz com a mão e afastou-se espirrando.

–- Manuel! – gritei.

Senti os pêlos na nuca se eriçando e segurei um espirro quando uma brisa leve trouxe mais poeira em minha direção. O cheiro no ar era insuportável. Havia algo de podre. Acendi a lanterna. Das frestas das janelas fechadas entrava uma nesga de luz, mas nada que me deixasse enxergar melhor o espaço. Pensei que não poderia de fato encontrar o homem naquele buraco. Ninguém conseguiria ficar escondido ali por muito tempo.

- – Iuri – chamei.

Ele continuava do lado de fora, espirrando. Também espirrei. Tudo parecia cinzento. Tudo era pó. A luz da lanterna só fazia iluminar uma névoa acinzentada que envolvia todo o cômodo. Ao olhar para baixo eu mal via meus pés.

- – Iuri.

- – Espera.

Outro espirro. Péssima hora para se trabalhar com alguém alérgico. Era só um pouco de poeira. Uma casa abandonada muito próxima a uma fábrica de tijolos.

Esfreguei os olhos com as costas da mão e tentei enxergar. Senti o pé acertando alguma coisa leve e apontei a lanterna. Uma caixa de papelão. Vazia.

–- Iuri.

Sem resposta. Minha vista estava se acostumando e eu já via uma estrutura de cama sem estrado nem colchão. Também um móvel de madeira escura encostado ao fundo, ao lado da cama, e as gavetas todas espalhadas pelo chão. Tudo parecia coberto por um manto cinzento.

Pelo que havia visto do tamanho da casa, imaginei que havia apenas aquela sala e, talvez, um banheiro e uma cozinha. Eu via duas portas abertas. Uma ao fundo, ao lado do gaveteiro, e outra na parede adjacente, à minha esquerda.

Voltei-me para a caixa de papelão. Num dos cantos próximos à porta notei alguns papéis e revistas espalhados.

Apontei a lanterna para o chão procurando por pegadas. Logo as encontrei. Pegadas de sapato ou bota, e sobrepunham-se pelo chão, sem muita lógica. Então seguiam para a porta que devia ser a da cozinha.

Havia naquelas pegadas qualquer incoerência que me gritava. Se fosse de fato Manuel, seria certo pensar que estivesse ansioso, e andasse de um lado para o outro, sem parar.

Mas então aquela desordem?

Andei em direção ao móvel e às gavetas empilhadas. Mirei a luz por sobre o móvel quando achei que havia ali uma mancha mais escura. Era uma marca de dedos. Mais que isso, quase uma mão inteira. E era recente porque sobre tudo mais havia a camada de poeira.

E ainda aquele cheiro nojento de salsicha estragada.

–- Iuri!

- – Verdammt, Pedro! – ele gritou, distante.

- – Porra!

Segui as pegadas em direção à porta lateral. Era uma cozinha. Senti o cheiro mais forte. Algumas moscas entravam zunindo por uma fresta da janela, e iam pousar sobre o que descobri ser um cachorro deitado, inerte. Um tipo vira-lata de pêlo escuro e tamanho médio. E parecia-me bem morto. Mais pelo cheiro do que pelas moscas lhe rondando o nariz e as orelhas.

Merda.

Não era o que eu estava procurando.

Os poucos armários estavam todos escancarados e vazios, e não me surpreendi ao encontrar mais marcas de dedos nos pegadores. Também a marca de uma mão por sobre o pó que cobria o balcão. E as pegadas.

O cachorro tinha uma mancha de sangue na cabeça e estava próximo a uma porta que devia sair para o lado de fora. O chão me pareceu limpo. Ou sujo o suficiente para que o sangue sequer aparecesse. Inclinei-me por sobre o cachorro e olhei a porta. Dedos na maçaneta.

Voltei para a sala e olhei as gavetas espalhadas. Marcas nos puxadores. E todas vazias.

Diabo.

Espiei ainda a outra porta. Um banheiro sujo e vazio.

Saí pela porta de entrada. Avistei Iuri próximo à encosta do morro, apoiado em um pedaço de cerca velha. Ele continuava vermelho e inchado, e tinha a mão na testa. Aproximei-me.

–- Você é uma bicha, Iuri.

–- Vai se foder. Scheisse.

–- Tem um cachorro morto na cozinha.

–- Cachorro? Há muito tempo?

–- Está fedendo.

–- Isso não quer dizer nada.

–- Alguém andou ali. Procurando alguma coisa.

– E o Manuel?

–- Não tem ninguém lá dentro. E a droga da chave do carro estava jogada no chão ali atrás. O vidro do carro está aberto. A casa está toda fechada. Não sei que merda isso significa.

–- Foi o que eu pensei. Lembra que eu falei que tinha visto alguma coisa?

–- Você disse que era sua vista embaçada.

–- Achei que fosse. Não era.

Ele apontou em direção ao matagal. Próximo à encosta havia um monte pequeno de terra remexida. Andamos até ele. Reparei em algumas pegadas, quase apagadas por aquela eterna assentação de poeira. E então vi o que Iuri queria mostrar. Da lateral do monte, era possível perceber parte do que devia ser um dedo humano, metido para fora da terra.



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