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ORIENTE MÉDIO

Por uma nova resistência palestina

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No 60º aniversário de Israel, Ignácio Ramonet entrevista Mustafá Barghouti, líder da Iniciativa Nacional Palestina. Ele vê o Estado judeu dominado pelo aparato industrial-militar e propõe, contra a ocupação de seu país, uma luta de massas e não-violenta. alternativa à Al Fatah e ao Hamás

Ignacio Ramonet - (19/05/2008)

Nascido em 1954 em Jerusalém, Mustafá Barghouti é médico, formado nas universidades de Moscou, Jerusalém e Stanford. É secretário-geral da Al-Mubadara (Iniciativa Nacional Palestina), organização política laica criada em 2002, com participação ativa de Edward Said [1]. Foi ministro da Informação no governo palestino de união nacional constituído em 2007, depois das eleições legislativas. Em 2006, foi candidato à presidência. Obteve um terço dos votos, derrotado pelo atual presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas. Líder da principal organização de resistência de massa, militante da não-violência, o Dr. Barghouti adota, como referência, o modelo de Gandhi, pai da independência da Índia, na luta contra os britânicos, em estratégia de não-violência. Na sociedade palestina, atormentada por 60 anos de conflitos, cansada da corrupção da Al Fatah e descrente do fundamentalismo religioso do Hamás, o apoio popular às teses da Al-Mubadara não pára de aumentar – especialmente entre os grupos laicos. Barghouti conta também com significativo apoio internacional, como se viu na recente visita que lhe fez, em Ramallah, mês passado, o ex-presidente Jimmy Carter, dos EUA. O movimento pacifista israelense também o apóia.

Mustafá Barghouti trabalha por uma sociedade palestina edificada sobre os princípios de uma democracia radical, enraizada nos movimentos sociais e baseada nos princípios éticos e de transparência da boa governança e do respeito aos direitos humanos. Para alcançar a plena soberania, Barghouti prega a resistência determinada, mas pacífica, contra a ocupação. (Ignacio Ramonet)

14 de maio de 2008 marca o 60º aniversário da criação de Israel e do que os palestinos chamam a Nakba, a catástrofe. Neste momento, qual sua opinião sobre o estado atual das relações entre Israel e os palestinos?

Depois de 60 anos de espoliação, 41 anos de ocupação, 17 anos da Conferência de Madri, 15 anos dos acordos de Oslo, e de várias resoluções do Conselho de Segurança da ONU, especialmente a 242 (1967) e a 338 (1973), à procura de uma solução justa e durável para décadas de conflitos entre Israel e os palestinos, não sou otimista. Já teríamos de estar mais perto da paz.

E não estão?

Não. Ao contrário. O problema é cada dia mais complicado e mais complexo, dada a intransigência das autoridades de Israel. E isto, seja qual for a atitude dos palestinos. Já se tentou tudo: resistência armada, resistência não-violenta, participação, não-participação etc. Sem qualquer resultado concreto. A cada dia que passa, a situação fica mais difícil, na Palestina.

O senhor esquece a intransigência do Hamás

Hoje, fala-se muito do Hamás, nos jornais, na televisão. Há 20 anos, o Hamás não existia. Nem existia o Hizbollah libanês. Israel, de certo modo, provoca o surgimento destes grupos, por sua atitude de afrontamento sistemático contra os palestinos. Para ser objetivos, temos de reconhecer também que o Hamás e o Hizbollah são resultado da intransigência de Israel. Mas, desde o final dos anos 1980, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) tem-se mostrado disposta a negociar e a encontrar soluções.

Mas os atentados não cessaram. E é compreensível que a população em Israel preocupe-se com a segurança. O senhor não acha?

Acho. Mas, como médico, posso garantir que um dos erros mais graves, que se pode cometer é confundir causas e sintomas de uma doença. Quem age assim corre o risco de matar o doente.

O que se vê é que, em sua prática de propaganda, Israel mistura muito habilmente sintomas e causas. Praticamente todos os veículos de comunicação que noticiam o conflito palestino-israelense dão destaque à violência. Mas esquecem sempre de dizer que a violência é sintoma, manifestação da doença, do mal-estar, expressão de uma outra coisa. Esta outra coisa, de que ninguém fala, é a causa. São poucos os que lembram que a causa da violência é a ocupação da Palestina por Israel. Esquecem de dizer que – como aconteceu na França, por exemplo, de 1940 a 1944 – a pior de todas as violências é a ocupação.

O senhor vê semelhanças entre a situação dos palestinos hoje e a dos franceses sob a ocupação alemã?

Não, não quero comparar situações tão diferentes. O que estou dizendo é que a ocupação da França, entre 1940 e 1944, não foi causada pela violência da Resistência. Tampouco a violência dos indianos revoltados contra a presença colonial dos ingleses foi causa da colonização inglesa na Índia. A causa sempre é a ocupação. A violência contra a ocupação é sintoma. “Causa” e “sintoma” são conceitos completamente diferentes, que não podem ser confundidos. Os veículos de comunicação, a midia, mistura sistematicamente os dois conceitos. E confunde tudo.

Na Palestina, pede-se aos que vivem sob ocupação que garantam a segurança dos ocupantes. A mídia começou por confundir a mente dos israelenses, e aos poucos confundiu o mundo todo

Talvez porque os palestinos cometem atentados contra civis israelenses.

É uma situação estranha, e efetivamente trágica. Na Palestina, pede-se aos que vivem sob ocupação que garantam a segurança dos ocupantes. É surreal. Para explicar uma situação muito simples – um país foi ocupado, seus habitantes defendem-se contra os ocupantes –, chegamos a ponto de confundir: as vítimas seriam os agressores, e os agressores, as vítimas. Começaram por confundir a mente dos próprios israelenses. Depois, pouco a pouco confundiram todas as mentes.

E como o senhor explica este processo?

Existe, em Israel, um importante complexo militar-industrial, semelhante ao que, desde 1960, o presidente Eisenhower denunciava, nos EUA. E este complexo militar-industrial lucrou muito com as sucessivas guerras de Israel contra os Estados árabes, assim como lucra com o conflito contra os palestinos.

Como o senhor define este complexo militar-industrial?

É muito mais sofisticado que seu homólogo norte-americano. Pode-se defini-lo como um complexo militar-industrial-computacional. É alimentado por todas as guerras que se sucederam desde 1948. E faz de tudo para manter os enfrentamentos e a conflitualidade em geral, à custa dos próprios cidadãos israelenses, eles mesmos as primeiras vítimas.

Israel é, não só uma potência nuclear mais importante, por exemplo, que a França; também se tornou um dos principais exportadores mundiais de armas e de dispositivos de segurança.

O senhor não estará exagerando?

Segundo estatísticas recentes, Israel é o quarto maior exportador de armas do mundo: depois de EUA, Rússia e França. Mas não se contenta com exportar armas. Cada vez mais, Israel exporta dispositivos eletrônicos de segurança, sistemas de alerta e de defesa, técnicas de controle, equipamentos de vigilância e prevenção etc. E, como o senhor sabe, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a venda destes produtos aumentou muito.

O senhor realmente acredita que o caráter de exportador de armas, de Israel, determina sua política em relação aos palestinos?

Sim. Porque não se compreende a evolução de Israel, se não se analisa a evolução do aparato militar. No começo, entre 1920 e 1948, quando a Palestina era administrada pela Grã-Bretanha, havia a Hagana, a organização militar clandestina judaica que obteve as primeiras vitórias – mediante atentados – contra os britânicos; e o grupo Stern, que aterrorizava os palestinos. Naquele momento, eram civis em funções militares. Depois, outras organizações armadas, como o Irgun, fundiram-se com as duas primeiras, para constituir o exército israelense. O exército profissionalizou-se; mas, pouco a pouco, os civis deixaram de comandar os militares. A situação inverteu-se. E os generais começaram a comandar a sociedade israelense.

Os militares influenciaram tanto? Israel, afinal de contas, é uma democracia.

Sim, mas que estranha democracia! Nesta democracia, os militares muitas vezes exercem funções determinantes. Pense, por exemplo, em Ariel Sharon, Ehoud Barak, Benyamin Netanyahou, Yitzhak Rabin ou Menahem Begin. Todos militares ou egressos de organizações militares. Todos foram primeiros-ministros de Israel.

O exército israelense tem grande número de oficiais e os renova constantemente. Do ponto de vista militar, é bom, porque o alto oficialato é jovem e conhece bem as técnicas mais modernas de guerra. Mas, também conseqüência do rápido turn-over, as forças armadas aposentam um número muito grande de generais. Estes, liberados das funções militares, passam a interessar-se pela política. E não raras vezes alcançam os cargos mais altos da vida civil. O exército, assim, ocupa também muitos postos políticos no governo e no serviço público.

E então, conduzidos os postos políticos, os jovens generais aposentados põem-se a procurar o que fazer. Assim chegam às indústrias de armas e passam a se interessar pela exportação de sistemas de segurança.

O complexo industrial-militar de Israel é o principal responsável pela guerra sem fim. Exerce enorme influência na política e faz tudo para manter o conflito, à custa dos próprios cidadãos israelenses

A guerra como indústria de exportação...

É isto. Os conhecimentos adquiridos no exército ou nas atividades de repressão, eles os põem a serviço de empresas especializadas em segurança e na prevenção de ataques ou em controles sobre a vida dos cidadãos. Assim, Israel tornou-se um dos maiores exportadores mundiais de sistemas de vigilância e segurança.

Por esta mesma lógica, pode-se dizer que Israel usa, em vários sentidos, a Cisjordânia e Gaza como laboratórios para testar e aperfeiçoar novas técnicas de controle de indivíduos. São técnicas que também, adiante, poderão ser exportadas.

Não há dúvidas de que muitos países têm interesse em comprar a grande experiência dos militares israelenses nesta matéria.

Há rumores sobre a presença de oficiais norte-americanos nas invasões da Cisjordânia, onde observam e estudam os métodos de vigilância, de controle, de prevenção e de repressão criadas pelos especialistas israelenses. Em seguida, usam-nas no Iraque.

Sejam estes rumores verdadeiros ou não, é direito dos palestinos perguntar se é normal que a democracia israelense seja comandada por exportadores de armas e indústrias de segurança que, naturalmente, lucram com a guerra e rejeitam a paz.

Isto explicaria, na sua opinião, por que, depois do “Mapa do Caminho”, de abril de 2003, e da conferência de Annapolis, em novembro de 2007, houve tão pequenos avanços na direção da paz?

O célebre “Mapa do Caminho”, redigido há cinco anos pelo “Quarteto” (EUA, ONU, Rússia e União Européia) fracassou. Ali se fixavam, essencialmente, dois objetivos: 1) Israel pararia a colonização; e 2) os palestinos garantiriam a segurança dos israelenses. Mas cinco anos depois do “Mapa do Caminho” a colonização foi intensificada. E, mesmo depois de Annapolis, Olmert anunciou novas construções nas colônias!

E quanto à segurança dos israelenses?

A Palestina não tem exército, nem soberania, nem controle sobre as fronteiras. Mesmo assim, exigem que garanta a segurança dos israelenses; em especial, a segurança de colonos que, como o nome diz, colonizam terras palestinas, confiscadas aos palestinos, que foram expulsos, manu militari, de suas propriedades.

O “Mapa do Caminho” só fala da segurança dos israelenses. Só dela. A segurança dos ocupantes deve ser garantida pelos ocupados. Jamais se viu idéia semelhante!

Mas o “Mapa do Caminho” foi aceito e adotado pelos representantes da Autoridade Palestina.

Segurança é também segurança social, segurança do emprego, segurança da propriedade, segurança para ir e vir etc. Ora, os palestinos vivem privados de todas estas seguranças. E exige-se que os palestinos, que vivem privados de todas estas seguranças, responsabilizem-se e garantam a segurança dos que ocupam seu país. É o mundo às avessas!

Sou defensor ativo da não-violência. Mas repare: em 2000, a proporção entre o número de mortos palestinos e o de israelenses era 4 por 1. Nos três primeiros meses de 2008, já é de 46 por 1!

Contudo, nada justifica atentados contra populações civis.

Concordo integralmente. Mas – e falando só da segurança física – consideremos os números oficiais, das estatísticas israelenses. Em 2007, foram mortos 13 israelenses, dos quais quatro soldados e quatro colonos, em confrontos armados. No mesmo período, 404 palestinos foram mortos por israelenses. Os números crescem em proporções alucinantes. O senhor sabe que sou defensor empenhado da não-violência, mas os números não podem ser ignorados.

Em 2000, a proporção entre o número de mortos palestinos e o número de mortos israelenses era 4 por 1. Para cada israelense morto, havia 4 palestinos mortos. Em 2006, a proporção chegou a 27 por 1! Em 2007, foi de 31 por 1! E nos três primeiros meses de 2008, já é de 46 por 1!

De 2000 até hoje, foram mortas cerca de mil crianças palestinas. Depois da conferência de Annapolis, em novembro de 2007, foram mortos mais de 330 palestinos. Cerca de quarenta crianças. Não faz sentido falar de segurança para um lado, ficando o outro lado sem qualquer tipo de segurança.

Por que a situação deteriorou-se a tal ponto?

Em minha opinião, por três razões. Pela fraqueza do campo da paz, em Israel; pela fraqueza dos palestinos; e por causa do grande silêncio internacional. Além do mais, as autoridades israelenses estão convencidas de que merecem total impunidade. Podem fazer tudo, sem risco de sofrer qualquer sanção nem, sequer, de receber crítica séria. Por isto, também, alguns dirigentes políticos israelenses estabelecem hoje um verdadeiro apartheid.

O que o leva a dizer isto?

Tomemos o exemplo da água, que é bem escasso e precioso nesta região semi-árida. Se se consideram as fronteiras de 1967, a Cisjordânia pode contar com, em média, 936 milhões de metros cúbicos de água. Mas só 132 milhões estão concretamente acessíveis aos palestinos. O restante, 804 milhões de metros cúbicos, são reservados aos colonos israelenses. Isto significa que um palestino só pode usar, por ano, 50 metros cúbicos de água para todas as necessidades da vida: para beber, lavar-se, cozinhar, para a agricultura, a indústria etc. Por outro lado, cada colono ilegal tem garantidos, por ano, 2.400 metros cúbicos de água, 48 vezes mais! É um escândalo.

Ironia cruel é que, além do mais, são os palestinos que, essencialmente, financiam esta água. Cada palestino paga 5 shekels [cerca de 1 euro] por unidade de água, quando, pela mesma unidade, um colono paga menos da metade deste preço.

O senhor pode citar outro exemplo?

Sim. Acontece o mesmo, também, em matéria de energia. Ao longo dos últimos anos, as autoridades israelenses destruíram a única empresa que produzia energia elétrica na Cisjordânia. Começaram por proibir que a empresa comprasse novos geradores. Depois, obrigaram-na a fornecer energia aos colonos por preço reduzido. Resultado: a empresa perdeu condições de continuar a produzir eletricidade e ficou obrigada a comprar a eletricidade vendida em Israel. Conseqüência disto é que, hoje, a Cisjordânia importa de Israel toda a energia que consome. Também neste caso a energia é vendida aos palestinos por preço duas vezes superior ao cobrado dos colonos. Os colonos pagam, por unidade de energia elétrica, apenas 6,3 shekels; pela mesma unidade, os palestinos pagam 13 shekels.

Assim, os palestinos contribuem para financiar a própria colonização. O que é ainda mais injusto, porque há diferença abissal entre a riqueza de Israel e a miséria dos palestinos. Há quatro anos, a renda anual média por habitante, na Palestina, equivalia a 1.600 dólares (cerca de 1.000 euros). Hoje, não passa de 800 dólares. A renda anual média por habitante, em Israel, já chega a 24 mil dólares. É 36 vezes maior!

Apesar desta enorme disparidade, os palestinos são obrigados a importar de Israel a maior parte dos produtos que consomem. Ao preço de mercado, fixado conforme o padrão de vida israelense. Em resumo, temos de viver com produtos tão caros quanto em Israel. E nossa renda é 36 vezes menor...

Uma das "inovações" da ocupação israelense é a segregação de estradas Se eu tomar uma via para israelenses, serei imediatamente preso e condenado a seis meses de prisão — ainda que esteja a pé

Quando o senhor disse “apartheid”, supus que falasse da barreira de separação.

Sim, também há este Muro do Apartheid e mais centenas de pontos de controle, que impedem a livre circulação dos palestinos. E há, sobretudo, uma “segregação de estradas”. É uma inacreditável medida de discriminação, que jamais se adotou antes, em país algum. É uma das inovações da ocupação israelense. Não houve, sequer, na África do Sul em tempos de apartheid; nem nos EUA em tempos de segregação racial. Nestes países houve, sim, linhas de ônibus diferentes para brancos e para negros, ou bancos diferentes, nos mesmos ônibus, para brancos e para negros. Mas os ônibus circulavam pelas mesmas estradas.

Na Palestina, as autoridades israelenses de ocupação construíram estradas reservadas exclusivamente aos colonos e aos israelenses. São interditadas ao tráfego de palestinos. Se eu, por exemplo, embora deputado do Parlamento palestino e ex-ministro, tomar uma destas estradas – e mesmo que esteja a pé – serei imediatamente preso e condenado a seis meses de prisão.

A mesma segregação aplica-se aos palestinos de Jerusalém Leste. Que sequer saíram de suas casas. São palestinos que vivem há séculos em Jerusalém. Eles não se mudaram para Israel. Aconteceu que, um dia, em 1967, Israel, por conquista militar, "mudou-se” para lá. E então, imediatamente, cerca de 340 mil palestinos passaram a ser “residentes temporários”.

O que significa isto?

Significa sursis [2]. A qualquer momento, poderão ter cassado o direito de residir em Jerusalém. Um exemplo: só muito raramente Israel fornece autorização para construir, a palestinos residentes em Jerusalém Leste — e sempre depois de muita demora e longas obstruções. Se um daqueles palestinos decidir construir uma casa na Cisjordânia, porque quer se casar ou por outro motivo qualquer, perderá, imediatamente, o direito de residir em Jerusalém, onde nasceu!

Ao mesmo tempo, um judeu, recém-chegado de qualquer parte do mundo, recebe imediatamente, ao chegar a Israel, a cidadania israelense e o direito a uma casa na Cisjordânia, se quiser. A partir do instante em que ponha os pés em Israel, esta pessoa tem mais direitos que um palestino nascido aqui, cuja família vive aqui há séculos, quando não há milênios.

Há séculos, se não há milênios, os judeus têm sido vítimas de segregação, de perseguição, de racismo. Na Europa, foram vítimas, até, de uma monstruosa tentativa de exterminação. Não é normal que Israel acolha todos os que desejem viver protegidos contra o anti-semitismo?

Sou o primeiro a condenar o anti-semitismo e a reconhecer que os judeus sofreram terrivelmente, no genocídio pelos nazistas. Como meu amigo Edward Said, digo que nós, palestinos, temos de ter consciência de que o Holocausto foi um crime monstruoso. Mas isto não significa, de modo algum, aceitar a idéia de que o genocídio absolveria o sionismo, e justificaria os sofrimentos infligidos aos palestinos.

O fato de ter sofrido tantas perseguições não dá aos judeus o direito de praticar, por sua vez, uma política de ocupação, contra um povo ao qual não se pode atribuir qualquer responsabilidade pelos crimes cometidos contra os judeus. Aqui e agora, é Israel, sua política de segregação e de injustiça, que rouba milhares de vidas palestinas. Eu acrescentaria que os que nos perseguem hoje não são as vítimas diretas do Holocausto. Tenho quase certeza de que, se soubessem o que os palestinos estão sofrendo, os judeus de hoje não aceitariam as políticas de Israel. O que sofremos hoje os faria lembrar os próprios sofrimentos pelos quais passaram os judeus.

Há famílias palestinas nas quais marido e mulher não podem viver juntos. Se um deles, por exemplo, sair de Jerusalém Leste para encontrar o outro na Cisjordânia, perderá o direito de residente e, portanto, seu ganha-pão, em Jerusalém. É terrível.

Ainda mais terrível é o silêncio internacional, diante de todas estas injustiças. Chegamos a pensar que o mundo não quer tomar conhecimento de nossa tragédia. Que fechou olhos, boca e orelhas. A desgraça palestina está órfã.

A Palestina precisa de uma alternativa. Propomos uma saída não-fundamentalista, e somos pela não-violência. Mas não nos opomos à resistência: ela é legítima, desde que não faça vítimas entre os civis

Fale-me sobre sua organização, Al-Mubadara, a Iniciativa Nacional Palestina.

Com um dos fundadores da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), o Dr. Haidar Abdel-Shafi [falecido em 25/9/2007], com Ibrahim Dakkak, Edward Said e outros intelectuais, decidimos, em junho de 2002, fundar este novo movimento, a Iniciativa Nacional Palestina (INP) .

Estávamos chocados com os acordos de Oslo, de 1993. Participei da delegação palestina à Conferência de Madrid, em 1991. Oslo não passou de instrumento para nos enganar. O verdadeiro objetivo de Oslo foi desmantelar o projeto palestino de soberania. Os acordos de Oslo substituíram a idéia de independência e soberania, pela idéia da Autoridade Palestina. Foi um truque, um golpe-de-mão. Na prática, Oslo tentou criar um bantustão [3].

Por que a OLP aceitou firmar aqueles acordos?

Penso que a OLP foi apanhada numa armadilha. De fato, Yasser Arafat estava muito inquieto. Ao tornar-se presidente da nova Autoridade, deixaria de ser chefe da OLP. Mas tampouco desejava criar um líder alternativo, permitindo que se elegesse um novo chefe que o substituísse à frente da OLP. Por isto preferiu diluir sua organização no bojo da Autoridade Palestina.

O senhor, várias vezes, acusou de corrupção a Autoridade Palestina.

Sim, temos denunciado uma grande corrupção. Corrupção que, indiscutivelmente, é encorajada por Israel, que deu à Autoridade palestina o monopólio de inúmeros serviços e obras. Isto, inevitavelmente, levaria, como levou, a fraudes, extorsões, enriquecimentos ilícitos. Então, muitos cidadãos desiludiram-se e voltaram-se para o Hamás, organização que, sim, é fundamentalista, mas que, a partir de uma posição de integridade, denunciava a desonestidade e o aviltamento moral da Autoridade Palestina.

A Iniciativa Nacional Palestina representa uma solução, uma alternativa, à Autoridade Palestina?

Não só à Autoridade. Pensamos que a Palestina carece, sim, de uma alternativa. Mas que não seja fundamentalista. Propomos uma alternativa não-fundamentalista. E somos pela não-violência. Mas não nos opomos à resistência. Porque a resistência, de um povo que vive sob ocupação é legítima, reconhecida e autorizada também pelo Direito internacional, desde que não faça vítimas entre os civis.

A Iniciativa Nacional Palestina prega a resistência não-violenta?

Sim. Nossa idéia é a resistência não-violenta, de massas. Penso, por exemplo, na primeira Intifada ou “a guerra das pedradas”, iniciada em dezembro de 1987, que salvou a OLP do desastre. É um bom exemplo de resistência não-violenta, de massas.

Se tivéssemos podido concluir as negociações com Israel naquele momento, sem desperdiçar os resultados da primeira Intifada [que durou até setembro de 1993], não teria havido Oslo, e teríamos uma paz sustentável. Mas os israelenses optaram por assinar aqueles acordos com uma liderança da OLP que, naquele momento, estava enfraquecida.

Hoje, a maioria dos palestinos está decepcionada, reduzida a uma escolha binária: ou o Fatah, subserviente e corrupto, ou o Hamás, religioso fundamentalista. A Iniciativa Nacional Palestina constitui uma alternativa, para conduzir a resistência.

O senhor acredita que a resistência não-violenta seja opção realista?

Temos de entender bem. Partimos de uma estratégia de quatro faces: 1) fomentar a resistência não-violenta, de massas; 2) ajudar a população a resistir, estimulando as forças de cada um e ajudando na vida diária; 3) buscar apoio em forte movimento de solidariedade internacional, como o que houve contra o apartheid na África do Sul; e 4) sob liderança unificada.

O fracasso do mundo árabe é conseqüência de não haver um único regime realmente democrático. Politicamente desprezados e socialmente empobrecidos, os cidadãos voltam-se ao fundamentalismo religioso

De que modo o senhor espera alcançar a massa-crítica necessária para que sua estratégia dê resultados?

O Fatah e o Hamás dependem da força. Queremos a democracia. A questão da democracia é decisiva para nós. A democracia é condição fundamental para que haja paz. A paz só será durável e sustentável se for negociada entre formações democráticas. Nenhum partido pode impor-se aos demais pela força. Não há nem jamais haverá democracia se o poder político depender da força. Seja em Gaza seja na Cisjordânia, nem o Hamás nem o Fatah são democráticos. Em vez de gastar energia disputando entre eles os cargos da administração, o Hamás e o Fatah melhor fariam se apostassem na democracia. A verdade é que os dois partidos praticam modalidades particularmente inaceitáveis de violência interna: o clientelismo e o nepotismo.

Quanto a isto, a INP é muito diferente do Hamás e do Fatah, que permanecem enraizados nos defeitos e desvios da sociedade tradicional. Seus partidos tendem a converter-se em tribos. Não digo que as duas organizações sejam idênticas; há diferenças entre elas. O Hamás, por exemplo, não é corrompido e, no plano político, é partido muito coerente. Mas há pontos em que os dois são semelhantes. Sobretudo, porque ambos tendem ou ao clientelismo ou ao nepotismo.

Quais são suas chances de sucesso?

O futuro depende de nossa capacidade para convencer os palestinos quanto à eficácia de nossa estratégia de quatro pontos, de que já falamos. Além disto, temos uma agenda social. Exigimos respeito ao Estado de direito, aos direitos ligados à cidadania, aos direitos das mulheres, das crianças, dos portadores de deficiências, aos direitos sociais. Em resumo, respeito integral aos direitos humanos. E entendemos que esta agenda social deve estar diretamente articulada à nossa agenda política.

Que fórmula política o senhor preconiza, para pôr fim a este conflito interminável?

Somos pela solução dos dois Estados, que nos parece a melhor. É o modo mais fácil de pôr fim a tantos sofrimentos. Mas não sei se esta solução ainda é viável. Porque, para implementar a solução dos dois Estados, Israel tem de demolir o Muro do apartheid, parar definitivamente a colonização e demolir os prédios dos colonos — o que jamais fez. E prossegue a colonização, selvagem ou autorizada. Continuam a construir prédios e a colonização, na verdade, está avançando. Entre 1993 e 2006, o número de colonos mais que duplicou. São mais de 230 mil em Jerusalém Leste e mais de 250 mil na Cisjordânia. Já são 25% da população da Cisjordânia e ocupam mais de 40% de nosso território. Se isto continuar, não se pode prever o que acontecerá. O que posso garantir é que os palestinos jamais aceitarão que os convertam em alguma espécie de escravos de um bantustão.

Ao mesmo tempo, posso também garantir que, se os israelenses aceitarem a solução dos dois Estados, nos termos da Conferência de Madri, os palestinos a aceitarão. Até o Hamás aceitará.

E se não aceitarem?

Neste caso, resta a solução de um só Estado, no qual co-habitem israelenses e palestinos. Esta solução só será viável se este Estado for realmente democrático, sem segregação nem discriminações. Mas, em termos profundos, sinto que devemos nos preparar para uma longa luta contra um novo tipo de apartheid.

O que os palestinos e os Estados árabes podem esperar?

O mundo árabe está dividido, manipulado, também, por Israel, que é o adversário mais astuto que o mundo árabe jamais enfrentou. Está em condições lastimáveis, por razões internas: ausência de democracia, regimes instáveis. E por serem instáveis e vulneráveis, estes regimes precisam do Ocidente.

O fracasso do mundo árabe é conseqüência de não haver, em todo o mundo árabe, um único regime realmente democrático. Politicamente desprezados e socialmente empobrecidos, os cidadãos voltam-se ao fundamentalismo religioso. Mas é preciso lembrar que o mundo árabe também é caracterizado pela ausência de inúmeros direitos – sobretudo os direitos da mulher e dos mais jovens. Ora, a população é muito jovem. Na Palestina, por exemplo, 70% dos habitantes têm menos de 30 anos. Estes jovens precisam de mudanças, de novas visões de mundo, de perspectivas novas — em resumo, de esperança. E nada vêem à frente. Se não lhes oferecermos alguma esperança, os jovens vão, eles também, aderir ao fundamentalismo. Um dos problemas dos principais partidos árabes tradicionais é que não fazem o trabalho de formação da juventude. Assim, deixam o campo livre para a ação dos movimentos religiosos.

A opção por permanecer aqui é o maior acerto estratégico dos palestinos. O povo a tomou espontaneamente. Nossa sociedade é mais avançada que os dirigentes e mantém viva uma incrível atitude de resistir, de recomeçar

Em março de 2002, na Cúpula Árabe de Beirute, a Arábia Saudita propôs uma “iniciativa de paz árabe”. O senhor acha que esta proposta continua atual?

A “iniciativa de paz árabe” prevê três pontos: 1) o fim da ocupação por Israel, da Cisjordânia, de Jerusalém Leste, da Faixa de Gaza e do Golan; 2) o direito de retorno, para os refugiados palestinos; e 3) sendo atendidos estes dois primeiros pontos, Israel será reconhecido pelo conjunto do mundo árabe.

Mas Israel não deseja esta solução. Basta ver que sua reação a esta proposta foi reocupar a Cisjordânia, cometendo um massacre. Em seguida, em abril de 2003, os EUA tiraram da cartola o “Mapa do Caminho”, com o objetivo, precisamente, de neutralizar a “iniciativa de paz árabe”. Seja como for, a experiência mostra que Israel destrói sistematicamente qualquer possibilidade de haver um Estado palestino independente e viável.

E, de modo geral, o mundo árabe deixa barato...

Exatamente. Sobretudo, porque há enorme contradição entre as ambições dos líderes árabes, de um lado, e, de outro lado, as aspirações das sociedades árabes. Os dirigentes vivem quase sempre separados do povo e desconfiam do povo.

Há extremistas, em Israel, que propõem expulsar os palestinos para além do rio Jordão. Isto o preocupa?

Expulsar os palestinos é, sim, o objetivo manifesto dos extremistas israelenses. Mas é também o objetivo dissimulado, oculto, mascarado, de todo o establishment israelense. Evidentemente, não podem fazer abertamente o que fizeram em 1948 – como Ilan Pappé, historiador israelense, denunciou magistralmente. Hoje, limitam-se a criar condições de vida que são insuportáveis para os palestinos. Estão apostando no desalento, na desesperança, no cansaço, no medo. Estão apostando na idéia de que, dado que a vida torna-se literalmente impossível aqui, os palestinos partirão, mais dia menos dia. Estimulam os palestinos a partir, a emigrar.

Atualmente, os israelenses gostariam de anexar Gaza ao Egito, como antes de 1967, para se desembaraçar de 40% do problema palestino.

Em 1967, ante o avanço fulgurante das forças armadas de Israel, alguns palestinos partiram. Mas a maioria ficou. Porque lembraram-se dos que fugiram em 1948 e que estão, até hoje — aqui mesmo, na Cisjordânia, em Gaza, no Líbano ou na Jordânia — em campos de refugiados. Não quiseram sofrer a mesma humilhação nem passar pelo calvário pelo qual ainda passam os refugiados-expulsos de 1948.

O senhor tinha 13 anos em 1967. Lembra-se da chegada das forças israelenses?

Sim, é claro. Era muito jovem, mas lembro que meu pai nos disse: “Nós ficaremos. Não nos moveremos daqui. Melhor morrer na nossa terra, do que como errantes sem teto.” A escolha por não nos mover daqui é o maior acerto estratégico dos palestinos. Ironia, sim, é que seja estratégia muito bem-sucedida que não foi pensada ou decidida por qualquer equipe de especialistas. Foi decisão coletiva que o povo tomou espontaneamente. Como a primeira Intifada, iniciada em dezembro de 1987. Isto mostra que o povo palestino está mais avançado que os dirigentes. E que mantém viva uma incrível atitude de resistir, de recomeçar.

Em 1967, não partimos. Os israelenses não conseguiram assustar-nos para expulsar-nos. Continuamos aqui.

Em meio a tanta violência, por que o senhor ainda aposta na não-violência? Seu projeto não lhe parece um pouco utópico?

Muita gente diz que Israel só entende o idioma da força. Neste sentido, Israel comporta-se como todas as demais potências coloniais. Nenhum Estado colonialista jamais entendeu por que os colonizados queriam vê-lo pelas costas. Aconteceu, por exemplo, com o Estado francês na Argélia, com o Estado inglês na Índia, no Quênia, no Iêmen.

Mas para mim, não há só a força militar. Foi a força da não-violência que pôs fim ao colonialismo na Índia e ao regime racista do apartheid na África do Sul.

Se conseguirmos mobilizar uma maioria de cidadãos palestinos, a favor da idéia de uma resistência de massa, não-violenta, creio que começaremos a ter paz nesta região. Uma paz justa para os dois lados, fundada em justiça e democracia. E que nos leve a uma prosperidade partilhada.

Tradução: Caia Fittipaldi
caia.fittipaldi@uol.com.br

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Intitulada Pour une résistance de masse non-violente contre Israël, esta entrevista de Mustafá Barghouti a Ignacio Ramonet foi publicada originalmente em 12/5/2008, no site da ONG canadense Alternatives. Bargouthi e Ramonet encontraram-se em Ramallah, Cisjordânia, em 26/3/2008. O texto (em francês) foi relido e corrigido pelo autor.



[1] Para saber mais sobre a vida e obra de Said, veja verbetes na Wikipedia, em português ou inglês (mais completo)

[2] tecnicamente, “decisão pela qual um tribunal adia para uma data posterior o exame de um processo e sua sentença”

[3] Os bantustões foram pseudo-estados, de base tribal, criados pelo regime do apartheid na África do Sul. Visavam manter os negros fora dos bairros e terras brancas, mas suficientemente perto delas para servirem de fontes de mão-de-obra barata. Ver mais na Wikipedia, em português ou inglês (mais completo)

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