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Na rua, outra rua

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De manhã, domingo, o tapete cristalino sobre o chão denuncia a madrugada em que a rua, tão desimportante, pertenceu a pessoas que costumam só ter com ela uma relação de passagem ou compromisso. O bar, portas fechadas, recobriu-se de seu aspecto simplório, por trás da bandeira puída

Diego Viana - (24/05/2008)

Acima da cabeceira, a janela; atrás da janela, a grade frágil como proteção; além dos floreados de metal oxidado, um metro abaixo, o chão de piche por calçada; depois do meio-fio, a sarjeta e a fileira de automóveis em vigília sobre o asfalto; um punhado de passos asfalto abaixo, eis o cruzamento com outra via, também estreita e quieta. Na esquina, um bar com a bandeira portuguesa estendida atrás da janela mais ampla, o que apenas confere à esquina, à rua e ao bairro um aspecto ainda maior de normalidade.

Este é um bar comum como tantos outros de Paris. Assentado a uma dúzia de passos de onde vivo, nem por isso já entrei. Passo pela frente e não olho. Só escuto o eco das conversas cheias de consoantes. São trabalhadores de roupa surrada que vêm descansar aí todos os fins de tarde, vêem seu futebol aos domingos e, se sai um gol num Benfica e Sporting da vida, abalam a rua com seus urros, a ponto de avós cobrirem o ouvido das crianças, ofendidas com o palavreado. Altere o esporte ou o idioma, o mesmo acontece, ao redor do mundo, em bares, botecos e biroscas iguais a este. Antes que houvesse futebol, antes mesmo que houvesse Portugal, trabalhadores já se metiam em tabernas em busca de embebedar-se, discutir aos berros, encontrar mulheres.

Como mudou o mundo! Como a história é implacável! Esses aí já foram ditos escravos, servos, operários, com funções, destinos e direitos próprios aos tempos que as revoluções se encarregaram de redefinir. Já gostaram de dados, tabuleiros, cartas; já cantaram acompanhando rabecas e sanfonas, quando não havia televisão via satélite e canais de música; falaram línguas mortas e dialetos regionais, mas então, como agora, tinham pronúncias de que os estudados escarneciam.

Esse bar da bandeira estendida, aliás, também, um tanto desbotada, só tem de particular o fato de estar localizado na minha rua. Mesmo assim, só é particular para mim e meus vizinhos, se é que algum deles já considerou o assunto. Não seria mais memorável do que qualquer outro boteco. Não se compara à célebre birosca da José Linhares em que tomei meu primeiro porre. Nem à outra birosca, menos célebre e mais decadente, quase debaixo do meu prédio na Rosa e Silva, onde, certa vez, um rapaz foi esfaqueado, um instante depois que eu parti, carregado de cerveja.

Nessa ocasião, ainda me deixei comover com a violência que sempre ronda os botecos pacatos. Era história de mulher, segundo me contaram, mas isso não me impressionou. Já não sou mais capaz de me impressionar com briga de ciúme. Nem com qualquer outra confusão em bar, mesmo quando não existe mulher em jogo. É uma violência de quem tem energia, mas não pode desconcentrá-la o dia todo; a agressividade de quem tem aspirações mas assim como as tem, muita vez nem as conhece. Só conhece o impulso. E o impulso, sustentado pelo álcool, se torna mestre de todas as ações.

Perdi a capacidade de ficar surpreso, sim, mas ainda posso acordar assustado quando dois bandos briguentos, à força de ameaças recíprocas, traçam fronteiras entre os prédios, fraturam pára-brisas e esmigalham garrafas. Viver ao nível da rua é desconfortável e tem seus riscos: eis ali o asfalto coberto de cacos, os automóveis inválidos, as flores da grade, não protegendo; aqui, a janela, alvo em potencial e, logo abaixo, do lado de cá, minha cabeceira. Ouço os berros, não entendo. Reconheço os sotaques e não os identifico. Não são os portugueses de sempre que fluem do bar da bandeira. Nos andares superiores, sei que vizinhos espiam por frestas nas cortinas, mas acho melhor não imitá-los e oferecer pretexto para virar alvo. Uma noite sem sono, em que o bar pacato expôs suas entranhas de bar. Noite de pancadas, palavrões, passos de perseguição. Depois, sirenes e o súbito silêncio.

De manhã, domingo, o tapete cristalino sobre o chão denuncia a madrugada em que a rua, tão desimportante, pertenceu a pessoas que costumam só ter com ela uma relação de passagem ou compromisso. O bar, portas fechadas, recobriu-se de seu aspecto simplório, por trás da bandeira puída. Como no tempo em que se quebravam ânforas de barro, a casa parece ser qualquer nada, no máximo um ambiente que os bem-nascidos não freqüentam - lugar que os sensatos evitam e as beatas preferem ver fechado.

Mas isso jamais vai acontecer. Cada balcão de esquina, como esse, é um pequeno templo em que se depuram as frustrações, como as arenas e os palcos trágicos de outras eras. O estabelecimento que oferece o futebol, a piada suja e a briga eventual, é o mesmo que renova a fé no quotidiano sagrado. A birosca é tão importante para a organização do mundo quanto as catedrais, os tribunais e as leis. Sem cada uma dessas instituições civis, como se sabe, o ciclo jamais se fecharia.



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