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CULTURA PERIFÉRICA

Humildade, dignidade e proceder

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Agenda da Periferia completa um ano de publicação. Como diria Sergio Vaz, não praticamos jornalismo — "jogamos futebol de várzea no papel". Fazê-la é exercício de persistência, crença e doação. O maior sinal de êxito é o respeito que o projeto adquriu no movimento cultural das quebradas

Eleilson Leite - (24/05/2008)

O lema do futebol de várzea serviu de título para o editorial da primeira edição da Agenda Cultural da Periferia, publicação da ONG Ação Educativa que completa seu primeiro ano de existência neste mês de maio. Utilizo-me dele na coluna, porque não há expressão mais apropriada para identificar a produção cultural da quebrada. No campinho — aquele clarão preservado em meio à densa ocupação habitacional dos bairros periféricos — percebe-se, como numa alegoria, a dor e a delícia de se viver nas bordas da cidade. Sergio Vaz, baluarte da periferia paulistana diz que não faz poesia: “jogo futebol de várzea no papel”. Quando começamos a fazer a Agenda da Periferia, entendemos o que o poeta quis dizer.

A Ação Educativa busca, com esse guia cultural, jogar um pouco mais de luz sobre a produção cultural feita nas margens da metrópole paulistana. Foram 12 edições, com tiragem de 10 mil exemplares. Hoje, são distribuídas em mais de 70 pontos, quase todos na periferia. Uma iniciativa de afirmação. Não é “resgate” nem “resistência”, como certos setores da esquerda gostam de ver. Nem “inclusão”, ou “protagonismo”, como classificam, na maioria das vezes, as organizações do chamado "terceiro setor" (fundações, institutos, empresas) e a "grande" imprensa.

O objetivo é produzir um sentido político de mobilização com perspectivas de emancipação, baseado em valores de cidadania: ou seja, de garantia de direitos. Esse palavrório aí se traduz muito bem como humildade, dignidade e proceder. Humildade é honra; dignidade é respeito; proceder é confiança. No futebol de várzea, assim como no Sarau da Cooperifa, no Samba da Vela; na Posse Haussa, no Grupo Força Ativa e em tantos outros agentes culturais da periferia, se comunga esse sagrado mandamento.

Nosso lastro é a confiança. É muito gratificante ser recebido com respeito e afeto nas comunidades. Ali mesmo, artistas me procuram para falar de eventos. Saio com os bolsos cheios de folhetos

A Agenda Cultural da Periferia, cuja coordenação cabe a quem escreve essas mal-traçadas linhas, também reza nesta cartilha, desde quando nasceu. E certamente essa é a principal razão de seu sucesso. O maior sinal de êxito desse projeto é o respeito que ele adquriu com o movimento cultural da periferia. É por isso que a Comunidade Samba na Feira, da Vila Santa Maria, Zona Norte, fará uma homenagem à Agenda no próximo dia 15 de junho — o que nos enche de orgulho.

O nosso lastro é a confiança. Toda primeira semana do mês, eu mesmo entrego a Agenda, em vários pontos da periferia. É muito gratificante ser recebido com respeito e afeto nas comunidades. Ali mesmo, artistas me procuram para falar de eventos. Saio, invariavelmente, com os bolsos cheios de folhetos. Esses se transformam em nosso ponto de partida, nas reuniões de pauta. A Agenda da Periferia é, cada vez mais, um veículo assimilado pelo movimento como um aliado. E é isso que queremos ser. Não somos o movimento nem a ele nos subordinamos. Preservamos nossa independência para manter a coerência, o proceder.

A primeira edição da Agenda Cultural da Periferia saiu com 49 eventos. Já na segunda edição, passamos para 60. Na terceira, alcançamos mais de 70 notícias publicadas, média mantida até hoje. Além dos eventos, a publicação do perfil de artistas periféricos é muito importante na. Ao longo de 12 edições, biografamos 30 deles. Com isso, acreditamos que estamos dando uma importante contribuição para a memória da Cultura de Periferia. Certo dia, entreguei um exemplar da Agenda ao sambista e pesquisador Nei Lopes, durante uma reunião que fiz com ele. Nei logo me pediu outras edições e saquei da pasta todos os exemplares anteriores (era fevereiro de 2008). Nei é um questionador dessa denominação, “cultura de periferia”, embora seja um incentivador dos artistas periféricos. Perguntei, então, a razão pela qual queria os exemplares. Ele me respondeu: “isso é fonte para minhas pesquisas”. Fiquei extremamente orgulhoso. Até então, não tinha me dado conta dessa dimensão da Agenda.

Outra coisa importante de se registrar é a distribuição. Cadastramos cerca de 70 pontos na Grande São Paulo. Metade deles repassa para outros pontos, atingindo mais de cem multiplicadores. Desses 70 pontos iniciais, somente dez são na região central. Há também uma distribuição nos CICs — Centros de Integração e Cidadania, órgão da Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo, com presença em regiões de periferia da grande São Paulo. A secretaria de Cultura de São Paulo repassa exemplares da para os mais de cem grupos contemplados no VAI – Valorização de Iniciativas Culturais —, programa que apóia projetos culturais de jovens de bairros periféricos da Capital. Hoje, 90% da tiragem da Agenda é distribuído em menos de dez dias e espalha-se por toda a periferia paulistana como um rastilho de pólvora. Os 10% restantes ficam no balcão da Ação Educativa e costumam esgotar-se até o dia 20 de cada mês.

No domingo de manhã, a periferia se agita, grita, chora. Trutas se aliam nas tretas que rolam. Somos também assim. “Tamo junto”, com humildade, dignidade e proceder

Desde a edição de abril de 2008, passamos a ter um domínio na Internet: www.acaoeducativa.org.br/agendadaperiferia. Antes, eram apenas as edições em "pdf", para download. Isso foi um ganho enorme. A partir de então, atualizamos a Agenda semanalmente. Toda sexta-feira de manhã, nossa redatora inclui eventos que chegam após o fechamento da edição impressa. O pessoal já assimilou e, regularmente, chegam na redação notícias com indicação para o site. Com isso, a Agenda passou a ter um dinamismo muito interessante, além do fato, é claro, de poder ser acessada em qualquer lugar do planeta.

Pretendemos, em breve, elevar o número de páginas de 16 para 24, e chegar, em duas etapas, à tiragem de 50 mil exemplares. Para isso, precisamos investir na ampliação da redação. Só assim, teremos maior cobertura de eventos e reportagens, com mais fotos e ilustrações, além de uma prospecção mais rigorosa. Essas mudanças editoriais virão acompanhadas de uma logística, a fim de garantir a distribuição. Montaremos uma rede de entregas com motoboys. Esses motoqueiros trampam no centro e moram na periferia. Seria um ganho a mais para eles, além de fazerem a entrega com espírito de participação. Adotaremos uma estante para colocar nos pontos de distribuição, semelhante aos da Mica, que expõe postais nos cinemas e casas noturnas descoladas. Estamos buscando parceiros que queiram investir nessa empreitada, sejam eles públicos ou privados.

A Agenda Cultural da Periferia é um serviço para o público. Assim como os guias da Folha de São Paulo e do Estadão, no circuito dos incluídos, a gente tem o guia dos "excluídos do circuito cultural". Para os artistas periféricos é visibilidade e também a possibilidade de se comunicarem, se conhecerem, estabelecerem parcerias, redes, discussões. A publicação é fonte para o mercado. Muita gente foi contratada depois de ter sido vista na Agenda. É fonte para a imprensa. Várias matérias foram publicadas nos jornais de grande circulação a partir de exemplares da Agenda que caem nas mãos de muitos jornalistas.

É uma curta trajetória. Uma modesta história feita com muita dedicação e esmero. A Ação Educativa tem uma única funcionária contratada exclusivamente para trabalhar na Agenda da Periferia. É uma estudante de jornalismo que também é poeta e moradora da periferia. Elizandra é seu nome. Uma guerreira de pena afiada, talentosa e de rara sensibilidade. Antes dela, Adriana, negra e periférica como ela, segurou o BO da Redação. Entretanto, cerca de dez pessoas acabam envolvendo-se no trampo, da pauta até a expedição. Depois que o guia sai da Ação Educativa, mais de cem pessoas ajudam na distribuição, numa rede de ampla capilaridade.

Creio que, como o poeta Sergio Vaz, a gente não faz jornalismo, fazemos futebol de várzea no papel. No domingo de manhã, a periferia se agita, grita, chora. Trutas se aliam nas tretas que rolam. Somos também assim. Fazer a Agenda da Periferia é um exercício de persistência, crença e doação. É também nosso trabalho, nosso ganha pão. E nossa maior satisfação é chegarmos no Samba da Vela sempre na primeira segunda-feira do mês, para lançar as novas edições da Agenda Cultural da Periferia e sermos saudados com honras. Ali mesmo, um pacote com 200 exemplares da publicação é consumido avidamente pelos presentes. Experimentar essa sensação, que vivi 12 vezes, nos dá a confiança de que alguma coisa de bom estamos fazendo. E não fazemos sozinhos. A gente faz parte do jogo, no campinho da Quebrada. “Tamo junto”, com humildade, dignidade e proceder.

Mais:

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

A revolução cultural dos motoboys
Um evento em São Paulo, um site inusitado e dois filmes ajudam a revelar a vida e cultura destes personagens de nossas metrópoles. Sempre oprimidos, por vezes violentos, eles vivem quase todos na periferia, são a própria metáfora do caos urbano e estão construindo uma cultura peculiar

Manos e Minas no horário nobre
Estréia na TV Cultura programa que aborda cena cultural da periferia com criatividade, sem espetacularização e a partir do olhar dos artistas do subúrbio. Iniciativa lembra o histórico Fábrica do Som, mas revela que universo social da juventunde já não é dominado pelos brancos, nem pela classe média

Pequenas revoluções
Em São Paulo, mais de cem projetos culturais passam a ter financiamento público, por meio do VAI. Quase sempre propostos por jovens, e a partir das quebradas, eles revelam as raízes e o amadurecimento rápido da arte nas periferias. Também indicam uma interessante preferência pela literatura

A periferia na Virada e a virada da periferia
Em São Paulo, a arte vibrante das quebradas dribla o preconceito e aparece com força num dos maiores eventos culturais do país. Roteiro para o hip-hop, rap, DJs, bambas, rodas de samba, rock, punk e festivais independentes. Idéias para que uma iniciativa inovadora perdure e supere limites

Retratos da São Paulo indígena
Em torno de 1.500 guaranis, reunidos em quatro aldeias, habitam a maior cidade do país. A grande maioria dos que defendem os povos indígenas, na metrópole, jamais teve contato com eles. Estão na perferia, que vêem como lugar sagrado

Cultura, consciência e transformação
A cada dia fica mais claro que a produção simbólica articula comunidades, produz movimento, desperta rebeldias e inventa futuros. Mas a relação entre cultura e transformação social é muito mais profunda que a vã filosofia dos que se apressam a "politizar as rodas de samba"...

É tudo nosso!
Quase ausente em É tudo Verdade, audiovisual produzido nas periferias brasileiras reúne obras densas, criativas e inovadoras. Festival alternativo exibe, em São Paulo, parte destes filmes e vídeos, que já começam a ser recolhidos num acervo específico

Arte de rua, democracia e protesto
São Paulo saúda, a partir de 27/3, o grafite. Surgido nos anos 70, e adotado pela periferia no rastro do movimento hip-hop, ele tornou-se parte da paisagem e da vida cultural da cidade. As celebrações terão colorido, humor e barulho: contra a prefeitura, que resolveu reprimir os grafiteiros

As festas deles e as nossas
Num texto preconceituoso, jornal de São Paulo "denuncia" agito na periferia e revela: para parte da elite, papel dos pobres é trabalhar pesado. Duas festas são, no feriado, opção para quem quer celebrar direito de todos ao ócio, à cultura, à criação e aos prazeres da mente e do corpo

Arte independente também se produz
Às margens da represa de Guarapiranga, Varal Cultural é grande mostra de arte da metrópole. Organizado todos os meses, revela rapaziada que é crítica, autogestionária, cooperativista e solidária — mas acredita em seu trabalho e não aceita receber migalhas por ele

Nas quebradas, toca Raul
Um bairro da Zona Sul de São Paulo vive a 1ª Mostra Cultural Arte dos Hippies. Na periferia, a pregação do amor e liberdade faz sentido. É lá que Raul Seixas continua bombando em shows imaginários, animando coros regados a vinho barato nas portas do metrô, evocando memórias e tramando futuros

No mundo da cultura, o centro está em toda parte
Estamos dispostos a discutir a cultura dos subúrbios; indagar se ela, além de afirmação política, está produzindo inovações estéticas. Mas não aceitamos fazê-lo a partir de uma visão hierarquizada de cultura: popular-erudita, alta-baixa. Alguns espetáculos em cartaz ajudam a abrir o bom debate

Do tambor ao toca-discos
No momento de maior prestígio dos DJs, evento hip-hop comandado por Erry-G resgata o elo entre as pick-ups, a batida Dub da Jamaica e a percussão africana. Apresentação ressalta importância dos discos de vinil e a luta para manter única fábrica brasileira que os produz

Pirapora, onde pulsa o samba paulista
Aqui, romeiros e sambistas, devotos e profanos lançaram sementes para o carnaval de rua, num fenômeno que entusiasmou Mário de Andrade. Aqui, o samba dos mestres (como Osvaldinho da Cuíca) vibra, e animará quatro dias de folia. Aqui, a 45 minutos do centro da metrópole

São Paulo, 454: a periferia toma conta
Em vez de voltar ao Mercadão, conheça este ano, na festa da cidade, Espaço Maloca, Biblioteca Suburbano Convicto, Buteco do Timaia. Delicie-se no Panelafro, Saboeiro, Bar do Binho. Ignorada pela mídia, a parte de Sampa onde estão 63% dos habitantes é um mundo cultural rico, diverso e vibrante

2007: a profecia se fez como previsto
Há uma década, os Racionais lançavam Sobrevivendo no Inferno, seu CD-Manifesto. O rap vale mais que uma metralhadora. Os quatro pretos periféricos demarcaram um território, mostrando que as quebradas são capazes de inverter o jogo, e o ácido da poesia pode corroer o sistema

No meio de uma gente tão modesta
Milhares de pessoas reúnem-se todas as semanas nas quebradas, em torno das rodas de samba. Filho da dor, mas pai do prazer, o ritmo é o manto simbólico que anima as comunidades a valorizar o que são, multiplica pertencimentos e sugere ser livre como uma pipa nos céus da perifa

A dor e a delícia de ser negro
Dia da Consciência Negra desencadeia, em São Paulo, semana completa de manifestações artísticas. Nosso roteiro destaca parte da programação, que se repete em muitas outras cidades e volta a realçar emergência, diversidade e brilho da cultura periférica

Onde mora a poesia
Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores

O biscoito fino das quebradas
Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4/11, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica



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