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CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Roteiro de viagem

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— Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.

Daniel Cariello - (26/05/2008)

— Museu do Louvre.

— Ok.

— Catedral de Notre-Dame.

— Ok.

— Jardim de Luxemburgo.

— Ok.

— Sacré Coeur, em Montmartre.

— Ok.

— Bastilha.

— Ok.

— Arco do Triunfo.

— Ok.

— Les Invalides.

— Ok.

— Torre Eiffel.

— Essa, não.

— Não?

— Não!

— Não quer visitar a Torre Eiffel?

— Quero não.

— Mas todo mundo que vai a Paris visita.

— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.

— Por quê?

— Porque não quero. Ponto.

— Mas já tem mais de 100 anos que é um dos principais símbolos da cidade.

— Mais um motivo pra não ir. Vai que esse monte de arame despenca.

— Não vai cair. É um prodígio da engenharia da época.

— Pra mim é um monstro metálico. Sabia que os franceses não queriam que ela fosse erguida? Os artistas até fizeram manifestos contra sua construção.

— Mas agora ela está lá, e com um bando de artista em volta.

— Já não se fazem mais artistas como antigamente...

— Se quiser, você pode até subir.

— E esperar 3 horas na fila? Tá doido.

— Você não tem curiosidade de ver Paris de cima?

— Pra ver telhado eu vejo no Brasil.

— Ok, não precisamos subir. Mas passamos na frente.

— Pra quê?

— Se tiver sol, podemos fazer um pique-nique no Champs de Mars.

— Já disse que não vou. Você nunca ouviu aquela música que fala "você não vê a torre"?

— Mas você é chato, hein? A música é sobre a torre de Brasília.

— Pois se encaixa perfeitamente no caso.

— É sua última palavra?

— É.

— Bom, então a gente se encontra mais tarde, num café.

— Como assim?

— Eu vou.

— Vai?

— Claro que vou.

— Eu não.

— Já entendi.

— Mas, olha...

— Sim?

— Tá aqui minha câmera. Dá pra fazer umas duas ou três fotos pra mim?

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.

Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"

Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



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