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LITERATURA

Quando escrever deixou de ser uma arte

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Hoje, o jornal que passa por debaixo da minha porta, salvo honradas exceções, é ilegível. Já fiz pesquisas em jornais antigos na Biblioteca Nacional e cheguei a sentir os olhos marejados – de raiva – pela comparação com o jornal pelo qual pago hoje

Simone Campos - (30/05/2008)

Escritores, quadrinistas e artistas plásticos têm algumas coisas em comum. Fazem um trabalho que todo mundo considera divertido e, portanto, fácil. Aí mora o engano. Fazer arte é fácil apenas se você for um gênio ou um picareta, sendo para os picaretas extremamente simples e útil se confundir com gênio.

Porém, mesmo para os não-picaretas, no Brasil é muito difícil ganhar dinheiro com esse trabalho “fácil”, porque, em tese, sempre haverá um exército de reserva para preencher sua lacuna caso você resolva cobrar pelo que escreve/desenha/pinta. É uma chantagem que impede quem tem algum talento de se estabelecer e receber por isso. Se isso ocorre em qualquer área, é certamente mais gritante nas artes.

Nem todo mundo nasceu com os genes certos e passou pelas experiências certas (como uma boa tia no bê-a-bá) para amalgamar aquilo que se chama vulgarmente de “talento”. Os substitutos até podem conseguir fazer o trabalho direitinho, vá lá, mas será que o brilho dos realmente bons não faz falta? Minha teoria é a de que, no Brasil, pela restrição do acesso à educação e a bens culturais, poucas pessoas percebem essa diferença com nitidez suficiente para protestar; e caso seus protestos sejam ignorados (como são), ainda menos gente irá insistir na idéia. E, num círculo vicioso, cada vez mais seu número diminuirá, porque seus descendentes terão tido cada vez menos oportunidades de ver o realmente bom durante sua formação intelectual. É difícil sentir falta do que não se conhece.

Não faz mal, limpa com jornal

Ao ler o jornal que assino, me indago onde andarão os bons colunistas. Praticamente só gente chata com idéias miúdas escrevendo atrás do caderno de cultura. Penso em Antonio Maria, Rubem Braga e muitos outros. Eram muitos. Hoje são poucos. Por quê?

O que aprendemos na universidade é que, com a reforma do jornalismo brasileiro capitaneada pelo Diário Carioca nos anos 50 – a introdução do lide, das Seis Perguntas, dentre outras técnicas –, o jornal passou a ser uma espécie de fábrica. Teoricamente, qualquer desmiolado poderia produzir uma notícia, bastando para isso que seguisse aquele modelo à risca.

Será? Imaginem que eu vivesse nos anos 40 e fosse remediada, mas minha família sofresse um revés financeiro (o pai morreu tísico, pronto) e eu tivesse que trabalhar, mesmo só sabendo tocar piano e falar francês. Imagine-me então entrando numa confecção sem saber bulhufas de costura; talvez, no máximo, pregar um botão. Na mesa à minha frente há todos aqueles moldes de cartolina, tesoura, linhas e agulhas. A subgerente, uma matrona meio indócil, me explica muito por alto o que é tudo e depois me solta em frente à máquina (de costura). Alguém aí acha que vai sair bom?

Ah, você na última fileira levantou a mão; diz que de primeira, não, mas com o tempo... ora, com o tempo eu vou estar detestando aquilo. Não porque preferisse estar tocando piano e falando francês. Mas porque seguir o molde é muito chato. Porque é uma linha de montagem e me sinto o Chaplin. Então, mesmo que saiba fazer melhor, no esfalfo do dia-a-dia vou fazer tudo nas coxas. Também, só de birra. E ninguém vai me despedir, desde que as pessoas não parem de comprar as roupas.

Hoje, o jornal que passa por debaixo da minha porta, salvo honradas exceções, é ilegível. Já fiz pesquisas em jornais antigos na Biblioteca Nacional e cheguei a sentir os olhos marejados – de raiva – pela comparação com o jornal pelo qual pago hoje. A minha suspeita é a seguinte. Naquela época os jornais começaram a contratar quem aceitasse trabalhar no modelo novo pelos salários indigentes e jornadas acachapantes que propunham. Acho que, com o tempo, essas pessoas foram subindo na hierarquia do jornal. Só havia elas, mesmo, e tinham nome... E acabaram dando colunas a elas. Porque só havia elas, mesmo, e eram bem conectadas... Isso sem falar nos pistolões. Vejo muitos sobrenomes repetidos assinando matérias. E talento raramente é hereditário.

Eu disse que pago pelo jornal? Mentira. Minha mãe acha que é importante assinar um jornal da cidade em que se mora... pelas oportunidades de trabalho e horários de cinema. Então, ela paga. O jornal que eu mesma compro, imperfeito porém legível, é de outra cidade. Em versão digital. Não tenho nada contra papel. Gosto de livros, práticos e encadernados como só, mas aquela papelada desconjuntada, rebelde, crepitante e sujadora de digitais que é o jornal, detesto.

Debandada instintiva em busca do bom

O público percebe a diferença? Aí é que o bicho pega. O público sente vagamente que ler jornal tem andado mais chato, e simplesmente vai abandonando a palavra escrita – ou antes ia, com o advento da internet. Pára de assinar seu jornal, e, caso continue, não o lê; espera acumular uma semana e joga fora. Que tal, anunciantes?

Quanto à literatura nacional, até por falta de críticas honestas no jornal, o público dá uma chance, mas logo vai parando de comprar a produção local, por constatá-la dividida em umbiguisto-verborrágica e hermético-preguiçosa, e vai papar um bom Dan Brown (chiclete) ou Markus Zusak (uma massa honesta) ou Ian McEwan (iguaria garantida). E os tupiniquins têm ainda outro defeito: a inserção forçada de catecismos – sejam eles de direita, de esquerda ou a sudoeste –, perdoáveis apenas se o autor tiver muito estilo e não abdicar do pensamento próprio, que muitas vezes reza contra a cartilha oficial; penso em padre Antônio Vieira, por exemplo. O escritor brasileiro que tenta fazer algo diferente é geralmente engolido pelo tsunami de lançamentos de amigos-do-rei – justamente os bem-expostos na livraria e, portanto, nossa patética vitrine. É fácil perceber relações entre essa questão e a do cinema nacional; só que o cinema nacional já começou a sua virada...

Furar esse bloqueio depende de iniciativas de lá e de cá. Lá, o PAC insinua bibliotecas em todas as cidades brasileiras e óculos para todos – uma vez a obra pronta, receberão meu aplauso. Cá, bato na mesma tecla: o escritor deve escrever o que gostaria de ler, e com esmero. Só assim a profissão começará a ter algum valor (financeiro incluído) no Brasil.



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