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CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

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— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra.
— Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir.
— Bra bra bra bra bra loja... Gentil bra bra.
— Que isso... Precisando é só chamar.

Daniel Cariello - (02/06/2008)

Depois de 8 meses aqui, achei que já falava francês razoavelmente. Conseguia me comunicar sem problemas e entendia tudo o que as pessoas diziam. Mas um dia percebi que ainda tinha um longo caminho a percorrer.

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"Vestido de disdasha, ele começou a falar o francês mais cheio de ’r’ que já ouvi. Eu não compreendi absolutamente nada. Nadica de nada"

No saguão do meu prédio, dei de cara com o sexagenário dono de um pequeno comércio de "alimentation générale" da minha rua. Ele estava vestido em disdasha, a tradicional roupa árabe, e levava as mãos à cabeça, afoito, enquanto checava os nomes nas caixas de correio e no interfone.

A minha comunicação com ele, até então, ocorria apenas quando eu ia à sua loja, e limitava-se a perguntar se tinha tal produto.

— Tem ovos frescos?

— Oui monsieur.

— Dá pra cozinhá-los à la coque?

— Oui monsieur.

Mas nesse dia o bicho pegou. Ao me ver saindo do elevador, reconheceu-me e veio pedir ajuda.

— Bonjour monsieur.

— Bonjour.

Totalmente irrequieto, andando para lá e para cá, ele começou a falar o francês mais cheio de ’r’ que já ouvi. Eu não compreendi absolutamente nada. Nadica de nada.

— Désolé. Eu não entendi.

Alheio ao meu estado flutuante naquela suposta conversa, ele coçava a barba, falava à beça e colocava um ’r’ onde podia e onde não podia. Eu virei mero espectador da cena, restando-me apenas pedir ajuda a Maomé. Eis que um minuto depois, consegui ajustar um pouco o ouvido pra aquela nova freqüência e pesquei umas palavras. Duas na mesma frase: motocicleta e Edith. Juntei isso ao fato de ele apertar sem parar o interfone da minha vizinha e deduzi que ela devia ter guardado a chave da moto do cidadão, sei lá por que diabos. Mesmo que a história não fizesse nenhum sentido, decidi levar a conversa como se essa fosse a verdade. E entramos num jogo de doidos: cada um falava o que queria.

— Bra bra bra Edith bra bra bra bra bra?

— Não, senhor. Faz tempo que não a encontro.

— Bra bra bra bra bra motocicleta bra?

— De que cor ela é?

Ele foi se empolgando.

— Bra bra bra domingo bra bra.

— Nossa! Já tem quase uma semana?

— Viagem bra bra bra bra?

— Não sei se ela saiu de Paris esses dias. Mas por que o senhor não volta depois do feriado?

Como por milagre, o sujeito acalmou-se um pouco e parou de saracotear pelo saguão. Ainda apertou umas quinze vezes o interfone, mas logo depois desistiu. Veio lamentar-se comigo, com cara de bebê chorão.

— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra.

— Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir.

— Bra bra bra bra bra loja.

— Entendo que você precise dela pro seu comércio, mas o melhor a fazer é esperar a Edith aparecer.

— Gentil bra bra.

— Que isso... Precisando é só chamar.

Outro dia passei em frente a sua loja. Ele estava na porta e sorriu discretamente pra mim. Ou os meus conselhos realmente serviram de alguma coisa ou ele ainda achava graça de nossa conversa de malucos. Retribuí, mas pelo segundo motivo.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Roteiro de viagem — Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.

Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.

Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"

Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



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