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DIVERSIDADE / FRANÇA

A assimilação do preconceito

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Há quase cem anos, africanos originários de ex-colônias francesas vêm ocupando lugares de destaque na política nacional. O governo de Sarkozy é um exemplo disto. Mas desde sempre, seu passaporte para a cúpula estatal foi a negação do racismo e da discriminação

Alain Ruscio - (24/06/2008)

Já perdeu-se a conta dos comentários que surgiram como reação à entrada no governo francês de Rachida Dati, Rama Yade e Fadela Amara [1]. Quase todos diziam que era a “primeira vez” que a parcela da população “nascida da diversidade” chegava ao poder. Realmente, é preciso uma memória coletiva muito fraca para esquecer que o primeiro político “africano” [2] na metrópole foi Blaise Diagne, há quase um século.

Nascido em 1872 no Senegal, Diagne foi inicialmente um funcionário administrativo da colônia. Empossado em Daomé (atual Benin), ele atuou também no Congo, na ilha Reunião, em Madagascar e na Guiana. Em 1914, teve sua primeira consagração: foi eleito deputado das quatro comunas do Senegal [3], cujos habitantes contavam com o privilégio, então único nas colônias, de serem considerados cidadãos. Muito atuante, chegou a secretário de Estado em 1917, durante a turbulenta Primeira Guerra Mundial.

Por sua trajetória, Diagne é apresentado como o exemplo do “triunfalismo da assimilação”, segundo a terminologia colonial. Mas, nas condições próprias do sistema naquela época, sua ascensão é bela demais para não suscitar um certo mal-estar. Não podemos evitar alguns questionamentos como a serviço de que e de quem Blaise Diagne estava.

Ao consultar estudos sobre seu papel ativo no recrutamento de soldados na África Ocidental Francesa (AOF) [4], ou ao ler os relatórios dos debates parlamentares do período entre guerras, constatamos que Diagne se declarou altivo defensor do colonialismo, atacando o racismo com a perspectiva de afirmar a possibilidade de uma evolução humanista do sistema.

O argumento, diga-se de passagem, não podia de forma alguma convencer a maioria dos líderes ocidentais, encerrados na certeza de que um negro sempre seria um negro, mesmo se após algum tempo chamassem-no de “preto” e lhe concedessem algum respeito por sua devoção. Podia-se, da boca para fora, reconhecer que alguns deles eram dotados de certo potencial intelectual capaz de torná-los “nossos” iguais, mas a massa continuava inepta. É a época ainda do negro estereotipado e afável, do homem que caminha descalço entre os arbustos e dos nativos exibidos em zoológicos.

Em um artigo para o L’Illustration, publicado em 19 de janeiro de 1924, Jean Lefranc se remete da seguinte maneira à ascensão de Diagne e à de René-Boisneuf e Gratien Candace, deputados da ilha de Guadalupe: “três negros assumem hoje cadeiras na Câmara dos Deputados francesa. Seria o caso de sorrir, se a perplexidade não nos impedisse. […] Animada pelo desejo filantrópico de libertar as raças subjugadas, a França foi buscar negros para cumulá-los de nobreza e glória, e confiar-lhes o encargo de fazer leis – até mesmo nossas próprias leis. […] Contentemo-nos em admirar essa benevolência evangélica, constatando que ela parece bizarra a mais de um bom europeu, que vai depreendendo que a filantropia francesa, nessas circunstâncias, tem procedido mais por capricho do que pela razão”.

Pouco depois da morte de Diagne, em 1934, o mundo achou que haveria uma contrapartida para os políticos africanos: Félix Houphouët-Boigny, um jovem deputado da Costa do Marfim, integrante da União Democrática Africana (RDA) e ligado aos comunistas. Em abril de 1946, ele vinculou seu nome à lei de abolição do trabalho forçado e foi identificado como um futuro líder do incipiente movimento de emancipação africana. Quatro anos depois, levou o cumprimento “caloroso e fraternal” dos militantes do RDA aos delegados do XII Congresso Nacional do Partido Comunista Francês e aumentou sua legitimidade. Porém, a independência em relação ao establishment francês não duraria muito. No mês seguinte, em um local discreto de Paris, Boigny foi recebido pelo então ministro do Além-mar, François Mitterrand. Já havia sido colocada em curso uma operação espetacular de mudança, fruto da convergência de dois cálculos políticos: Mitterrand queria o RDA ao seu lado e achava que o partido só se alinhara aos comunistas porque estava na mira dos colonialistas mais obtusos; e Boigny desejava com todas as suas forças assegurar para si um lugar ao sol, consolidando sua imagem de liderança. Após meses de negociações, ele e outros deputados do RDA finalmente anunciaram sua ruptura com o PCF, em outubro de 1950. Pouco depois, o grupo se filiou ao grupo parlamentar União Democrática e Socialista da Resistência (UDSR), de Mitterrand, e adotou uma atitude bem menos radical, mantendo distância de assuntos quentes como a Guerra da Indochina.

De fato, o sistema sempre sabe recompensar os temperamentos dóceis. Mas o fato de ser africano, de origem operária e ex-sindicalista, um dominado alçado ao topo de uma instituição dominante, não contribui nem um pouco para a defesa da causa dos oprimidos. De qualquer forma, uma carreira ministerial brilhante se abriu para Boigny: foi oministro indicado para a presidência do Conselho no gabinete de Guy Mollet (1956-1957); ministro de Estado de Bourgès-Maunoury (1957); ministro da Saúde e da População de Félix Gaillard (1957-1958); e ministro de Estado de Charles de Gaulle (junho de 1958-janeiro de 1959). Em 1960, chegou ao máximo de sua pretensão: foi o primeiro presidente da recém formada república da Costa do Margim, cargo em que permaneceu até sua morte, em 1993.

Sem dúvida, inúmeros outros dirigentes políticos oriundos das antigas ou das novas colônias chegaram aos postos de deputado ou ministro por aceitarem o jogo das instituições da metrópole. Todas as famílias importantes tiveram seus eleitos: Joseph Lagrosillière, Candace, Boisneuf, Félix Eboué, Aimé Césaire, Leopold Senghor, Gaston Monnerville, Paul Vergès. Além destes, vale lembrar que os muçulmanos do segundo colégio argelino também se fizeram presentes: Gaston Monnerville, por exemplo, neto de escravos de Cayenne, que ocupou, durante vários anos, a presidência do Senado, segundo cargo do Estado.

Mas os casos de Diagne e de Boigny são, sem dúvida, os mais emblemáticos de uma prática política corrente que leva o nome de “instrumentalização” e que conta, entre seus quadros, com Nicolas Sarkozy, atual presidente francês. Ainda que as palavras tenham mudado e que os dirigentes políticos e os jornalistas se abstenham de destilar observações racistas, ainda que ninguém ouse dizer publicamente que Yade é aceita por uma questão de filantropia e que Dati não é uma “árabe como as outras”, como deixar de propor a mesma pergunta que foi feita para Diagne e Houphouët-Boigny: a que e a quem elas servem?

Peguemos o exemplo da mais política das ministras “nascidas da diversidade”, Dati. Ela foi catapultada para o primeiro plano durante a última campanha presidencial. Fruto de ato arbitrário, mais do que de qualquer engajamento particular, sua nomeação para o Ministério da Justiça foi objeto de um frenesi midiático. A Paris Match estampou sua foto na capa com a seguinte manchete: “O rosto da França que muda”. A legenda, por sua vez, dizia que “a filha de origens modestas realizou o sonho impossível” [5]. A revista “popular” Point de Vue-Images du Monde foi além e concluiu que “doravante, ela faz parte de um clã. Milhares de imigrantes na França não cabem em si de felicidade. É uma vitrine sagrada” [6]

Podemos sorrir ou ficar irritados. Mas não podemos nos furtar à interrogação: após 1914, após 1950, o que mudou, fundamentalmente? Eric Hazan escreveu, com sua pena amarga: “Sarkozy poderia criar um superministério do controle e da repressão fundindo a Justiça e o Interior e confiando às mulheres de seu governo canhões de água e dossiês para conter os imigrantes ilegais. A ocasião se apresentará um dia. E enquanto não chega, Dati está aí para aprovar, com seu nome e sua bela figura, as leis ignominiosas sobre redução da maioridade penal para 16 anos e a pena mínima para os reincidentes. Sarkozy conta com ela para melhorar as relações com os ‘jovens dos banlieues’ [subúrbios]. Os pais destes muito provavelmente devem tê-los lembrado que, durante a guerra da Argélia, os inimigos mais poderosos das forças de resistência não eram os pára-quedistas da Legião, mas os próprios argelinos que o exército francês havia recrutado – antes de abandoná-los de forma vergonhosa quando partiram” [7].

Claro, todo paralelo histórico é impróprio se pensarmos que Dati e Yade não são colonizadas, mas cidadãs francesas, e que a época do colonialismo triunfante chegou ao fim. Mas há alguns pontos de comparação perturbadores. Enquanto Diagne defendia na câmara o liberalismo francês na questão colonial, milhares de nativos morriam nas trincheiras ou nas obras da estrada de ferro Congo-Oceano. Enquanto Houphouët-Boigny se tornava eminente, com lugar na Assembléia e depois nos governos, os vietnamitas e os argelinos morriam bombardeados por napalm. Enquanto Dati, Amara e Yade defendem e apóiam o presidente, milhares de magrebinos e africanos são expulsos da França e centenas de milhares de franceses batizados de Ahmed ou Diallo são vítimas de racismo. Em que medida a cor de pele de uma secretária de Estado muda esses fatos?

Um dossiê recente da Jeune Afrique [8] pode nos ajudar a responder essa questão: enquanto 79% dos “franceses de origem africana” consideram que essa tripla presença é “uma coisa boa”, 63% admitem que “nada mudou”.



[1] Respectivamente, ministra da Justiça; secretária de Estado encarregada dos Negócios Estrangeiros e dos Direitos do Homem; e secretária de Estado encarregada da Política da Cidade.

[2] Escrevemos “africano” porque desde a III República políticos vindos de Guadalupe e da Martinica ocupam cargos no governo da França. Isso porque as Antilhas eram consideradas como mais desenvolvidas e se beneficiavam do aporte civilizacional francês.

[3] As quatro comunas dispondo desse privilégio eram Saint-Louis, Gorée, Rufisque e Dakar.

[4] Por exemplo a tese de Marc Michel, “L’appel à l’Afrique”. Contributions et réactions à l’effort de guerre en AOF, 1914-1919, Paris, Sorbonne, 1982.

[5] Elisabeth Chavelet, 6 de dezembro de 2007.

[6] Lionel Cottu, 18 de dezembro de 2007.

[7] "Changement de propriétaire". La guerre civile continue, Paris, Seuil, 2007.

[8] N° 2460, 2 a 8 de março de 2008.


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