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Sem dúvida, ter como pré-candidatos à presidência um negro e uma mulher é um avanço para os Estados Unidos. Mas para além do valor simbólico, nenhum dos dois concorrentes quer discutir o que de fato causa desigualdade social nos Estados Unidos: a injusta distribuição de renda

Walter Benn Michaels - (24/06/2008)

Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, um negro tem chances reais de chegar à presidência da República. E como não podia deixar de ser, a discussão racial é um dos pontos mais presentes da campanha de Barack Obama. Dois momentos foram particularmente decisivos para o pré-candidato democrata. Um deles ocorreu na noite de sua vitória nas primárias da Carolina do Sul, em janeiro, quando a multidão pró-Obama começou a entoar “raça não importa”, respondendo a alguns comentários de Bill Clinton sobre o peso do voto negro.

“Lá estávamos nós”, descreveu o romancista Ayelet Waldman, “no coração do velho Sul, onde as bandeiras confederadas ainda tremulam perto de estátuas do governador Benjamin Tillman – que notoriamente se vangloriava por manter os negros longe do sufrágio –, cantando ‘raça não importa, raça não importa’. Brancos e negros. Latinos e asiáticos. Todos unidos em nossa rejeição à política usual. Unidos em nossa crença de que a América pode ser um lugar diferente. Unidos. Não divididos” [1].

O outro momento aconteceu em março, quando Obama fez um discurso por uma “União mais perfeita”, claramente para se contrapor aos controversos sermões de seu antigo pastor. Na ocasião, Obama afirmou que o “racismo é uma questão que a nação não pode se dar ao luxo de ignorar”. Dessa forma, introduziu o que muitos comentaristas descreveram como “debate nacional sobre raça”, presumivelmente necessário.

Há uma aparente incoerência entre as duas passagens citadas: enquanto o canto diz “raça não importa”, o discurso afirma que raça importa. No entanto, a contradição desaparece rapidamente se pensarmos que o ponto central do pronunciamento de Obama – a história do racismo americano – foi o que induziu à promessa contida no refrão, ou seja, a idéia de que eleger um homem negro seria um passo maior rumo à superação desta história, rumo ao momento em que a raça não é mais um fator determinante. Trata-se da promessa de superar uma longa história de segregação e de resolver, no século 21, o que o sociólogo W. E. B. du Bois descreveu como o devastador problema do século 20, o da linhagem da cor.

A “mudança em que podemos acreditar”, como diz o slogan do candidato democrata, não é ideológica, mas cultural – Obama e Hillary, ideologicamente falando, são quase idênticos; se as pessoas quisessem mudanças reais, estaríamos discutindo hoje a candidatura de John Edwards, que propõe a volta do sistema universal de saúde e a transferência de um milhão de pobres para residências de classe média. E no cerne desta mudança cultural está o fato de que ela não pode ser proclamada, tem de ser encarnada. E, é claro, só uma pessoa negra conseguirá fazê-lo. Podemos eleger brancos que dizem que a raça não deve fazer diferença, mas apenas a vitória de um negro determinará que ela realmente não importa.

Assim, a campanha de Obama é e sempre foi sobre raça, e principalmente, sobre anti-racismo como uma política progressista. No fim, vencendo ou não, ela pinta um retrato de que a ala supostamente progressista do Partido Democrata será a condutora dos americanos para uma sociedade cada vez mais aberta e igual – não apenas para os afro-americanos, mas também para asiáticos e latinos, além de mulheres e homossexuais. O problema com esse retrato, contudo, é que ele é falso: tem havido um progresso extraordinário no combate ao racismo, mas isso não tornou a sociedade americana mais aberta ou igual. Na verdade, em alguns aspectos fundamentais, ela está mais fechada hoje do que no tempo das leis de segregação obrigatória, quando o racismo não só era dominante como também subvencionado pelo Estado. Tanto que a igualdade nos Estados Unidos declinou: em 1947, auge da era Jim Crow [2], o coeficiente Gini americano era de 0,376 e em 2006 atingiu 0,464. Como na escala Gini “0” representa a igualdade absoluta (todos com a mesma renda) e “1” representa a desigualdade absoluta (uma pessoa ganha tudo), esse aumento é significativo. Na época, estávamos no mesmo patamar dos países da Europa Ocidental, embora um pouco mais de desigualdade. Hoje, estamos emparelhados com o México e a China.

Mas não precisamos de coeficientes Gini para ver a escala do problema econômico. Já em 1947, os 20% mais ricos da população americana ganhavam 43% de todo o dinheiro gerado no país. Em 2006, depois de anos lutando contra o racismo, o sexismo e o heterossexismo, os 20% mais ricos passaram a ter 50,5% desse montante [3]!

A primeira questão, portanto, é que a luta pela igualdade racial e sexual não produziu maior eqüidade econômica. Pelo contrário: vem sendo compatível com uma maior desigualdade, e, portanto, com a formação de uma sociedade cada vez mais elitista. Isso porque a luta nunca foi para atenuar, e muito menos eliminar, a diferença entre a elite e o resto da sociedade. É por isso que ações afirmativas como as admissões universitárias servem a um propósito simbólico tão crucial para os americanos liberais: elas os tranqüilizam quanto ao fato de que ninguém é excluído de lugares como Harvard e Yale por motivos de preconceito ou discriminação (essa é a parte da legitimação), embora mantenha intocado o mecanismo primordial de exclusão, a riqueza. Os americanos estão, na famosa citação do escritor Richard Kahlenberg, “25 vezes mais propensos a trombar com um aluno rico do que com um aluno pobre” em uma das 146 instituições superiores de elite. Não porque os alunos pobres sejam vítimas de discriminação, mas porque são pobres e não tiveram o tipo de educação que torna plausível sequer aspirarem às faculdades de elite, quanto mais freqüentá-las de fato.

O que a ação afirmativa nos diz, contudo, é que o problema é o racismo e que a solução é fazer com que jovens ricos venham em diferentes cores, uma solução que ainda parece atraente muito depois da graduação, onde a batalha pela diversidade segue em disputa entre advogados, professores, jornalistas ou quaisquer profissões que gozem de status e renda suficientes para serem consideradas como de elite. O esforço geral é para impingir um modelo de justiça social em que a representação proporcional de raça e gênero seja computada na coluna dos sucessos. E, se o que se busca é uma elite mais diversificada, o que poderia ser melhor que eleger um presidente negro? Ou uma presidenta mulher?

Mas se queremos atacar de fato as desigualdades que existem – e não aquelas que acreditamos ter (produzidas não por raça ou gênero herdados, mas por riqueza e pobreza herdadas) –, nem o homem negro, nem a mulher branca tem muito a oferecer. O mesmo vale se quisermos um programa político destinado a tratar das desigualdades geradas não por racismo e sexismo (que são, no final das contas, apenas mecanismos de categorização), mas pelo neoliberalismo (que é o que faz a categorização).

Afinal, eles são dois democratas incapazes sequer de admitir publicamente que americanos ganhando entre 100 mil e 200 mil dólares por ano não pertencem à classe média. Hillary, na verdade, chegou a se comprometer a “não elevar um único imposto dos americanos de classe média, pessoas que ganham até 250 mil dólares por ano”, e Obama, embora se mostrasse, nas palavras de um comentarista, “um tanto mais sensível” sobre o assunto, também assumiu não elevar a tributação sobre pessoas ganhando até 200 mil dólares. Mas apenas 7% dos lares americanos ganham mais de 150 mil dólares anuais e somente 18% recebem mais de 100 mil dólares, enquanto outros 50% vivem com 50 mil dólares [4]. Num cenário como esse, em que os democratas classificam erroneamente a classe média, quem precisa dos republicanos? Hillary e Obama são, em outras palavras, emblemas do liberalismo americano que fez as pazes com a ética política. Uma ética comprometida em reprovar e combater apenas as desigualdades que existem em função de racismo e sexismo, que ignora virtualmente as diferenças que não derivam da discriminação – aquelas costumávamos chamar de exploração.

De volta a 1967, dois anos após a aprovação da Lei dos Direitos Civis e ainda no início do esforço por fazer dessas garantias legais uma realidade, Martin Luther King já se perguntava: “aonde iremos a partir daqui?”. O grande líder já dava indicativos de o que queria discutir eram “questões acerca do sistema econômico, de uma distribuição mais ampla da riqueza”. Havia então (como há agora) mais brancos pobres do que negros pobres nos Estados Unidos, e Martin Luther King tinha aguda consciência desse fato. Ele estava ciente de que o anti-racismo não representava uma solução para a desigualdade econômica e percebeu que qualquer desafio da verdadeira causa, “a economia capitalista”, produziria “feroz oposição”. É desnecessário dizer que ele não viveu para liderar esse enfrentamento e sofrer a repulsa subseqüente. Ao contrário do que acreditava, não apenas o anti-racismo do movimento pelos direitos civis, como também os movimentos feminista e homossexual se mostraram inteiramente compatíveis à “economia capitalista” que o pastor sonhava combater. Embora sempre seja possível, sem dúvida, que Barack Obama ou Hillary Clinton possam um dia assumir o desafio de Martin Luther King, isso não é muito provável. O neoliberalismo gosta de raça e de gênero, e os candidatos da raça e do gênero parecem gostar do neoliberalismo.



[1] Informação disponível no site oficial de Barak Obama

[2] As leis Jim Crow, que estabeleceram a segregação obrigatória em lugares públicos, vigoraram de 1876 a 1965 em muitos estados norte-americanos.

[3] Nesse contexto, vale a pena observar também que a mobilidade social nos Estados Unidos declinou. Em um estudo recente para a Pew Foundation, Isabel Sawhill e John E. Morton relatam que por alguns padrões de medida os Estados Unidos têm “na verdade menos mobilidade social” do que “Canadá, França, Alemanha e a maioria dos países escandinavos”. Mais informações.

[4] Fonte: American Census Bureau


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