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Kiev bate à porta da Europa

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Parceira comercial destacada do "velho continente" e rota de passagem dos gasodutos que o abastecem, a Ucrânia vê adiado seu pedido para ingressar na UE. Por um lado, pesa a lentidão para modernizar o país; por outro, as próprias incertezas sobre o futuro do projeto europeu

Mathilde Goanec - (24/06/2008)

Posto fronteiriço de Shegynij, manhã de sábado. Um longo corredor cercado por um alambrado a céu aberto serpenteia em direção à alfândega polonesa. Estamos em 21 de dezembro de 2007. É um dia cinza e frio e o local está quase deserto. Há um mês, entretanto, reinava ali uma grande agitação: munidos de um simples visto de longa duração, obtido gratuitamente na cidade vizinha de Lviv, os ucranianos atravessavam a toda hora a fronteira com a Polônia para vender cigarros e garrafas de bebidas alcoólicas.

A mudança radical da paisagem aconteceu após o ingresso dos poloneses no Espaço Schengen, uma convenção assinada pela maioria dos países da União Européia que estipula limites para a livre circulação de pessoas. Assim, desde o final do ano passado, os ucranianos precisam de um visto europeu para cruzar a fronteira. Até então, esse comércio garantia a sobrevivência de mais de cem mil pessoas. “Antes, podíamos passar três vezes em um mesmo dia”, lembra-se Maria, uma babuchka sorridente da cidade de Noviskalova, a sete quilômetros da União Européia (UE). “Tínhamos bons lucros, alguns conseguiram até construir uma casa! Agora, tudo acabou”, lamenta.

O embaixador da Polônia na Ucrânia preocupa-se com as conseqüências sociais da nova situação: “o regime de concessão de vistos Schengen não nos permite entregá-los a pessoas sem dinheiro”, afirma Jacek Kluczkowski. “Para esta população, será preciso encontrar outras fontes de renda”, conclui. A tarefa, porém, não é simples para uma região rural, fortemente atingida pelo desemprego e pela pobreza.

Se a nova fronteira Schengen coloca a economia local em uma situação difícil, também atrofia as relações culturais e familiares, muito fortes entre os dois países. Durante um bom tempo, a Galícia – na Ucrânia Ocidental – viveu em função da Polônia, que a dominou do século 15 ao 18. Em seguida, após passar um período sob a autoridade austríaca, voltou ao seio de Varsóvia de 1921 a 1941, até a reunificação do país nos seus limites atuais. “Antes da Primeira Guerra Mundial existiam muitas famílias mistas a Oeste, que foram maciçamente deportadas pelos soviéticos. Desta época, ficou uma forte identidade polonesa na região”, explica Tarass Wozniak, redator-chefe da revista independente Ji Magazine e filósofo.

A Ucrânia ingressa na OMC e aceita o "livre" comércio com os europeus, mas ainda assim é rejeitada. Agora, parece apostar em sua parceria com a França

Para acalmar a população, os governos poloneses e ucranianos firmaram recentemente um acordo instaurando uma zona especial, “sem visto”, para os habitantes que vivem a até 50 quilômetros da fronteira, de ambos os lados. Agora, aguardam a cúpula da UE validar a decisão bilateral. Apesar da iniciativa positiva, Wozniak avalia que a comunicação entre os dois povos vai sofrer dados irremedáveis. “Em tempos normais, 6,5 milhões de habitantes atravessariam, por ano, a fronteira. Para mim, trata-se de um novo muro de Berlim”, diz.

Ontem “euro-entusiasta”, o jornalista transformou-se, como muitos em Lviv, em “euro-crítico”: “os europeus formam agora uma classe superior, livres para circular à vontade. E nós somos pessoas de segunda classe, privadas do acesso aos vizinhos”. Tanto que, mesmo fechando sua fronteira, a UE não deixou de negociar com a Ucrânia um regime “sem visto” para seus próprios cidadãos residentes no país. Fatalmente, o impacto do Espaço Schengen reaviva as lembranças da Guerra Fria. Mais uma vez, a Ucrânia se vê relegada ao seu eterno papel de “bom vizinho”. Um vizinho constrangedor, que é deixado de fora da UE, mesmo que desde a metade dos anos 1990 tenha demonstrando seu desejo de integrar o bloco.

Para convencer Bruxelas, Kiev vem tentando, nos últimos meses, acelerar o ritmo de sua “amarração” ao bloco ocidental. Após ter obtido sua adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC), no início de 2008, o país obteve garantias para a implantação de uma zona de livre-comércio com a UE. Ao mesmo tempo, incitado pelos norte-americanos, o governo aceitou ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mesmo indo contra a opinião pública nacional, amplamente desfavorável à medida.

Essa política desordenada irritou vários grandes Estados europeus. De tal modo que, no recente encontro da UE em Bucareste, no início de abril, o pedido de adesão ucraniano foi jogado para o inverno seguinte.

Até que o prejuízo não foi tão grande, já que a Ucrânia acredita piamente ter mais chance de ingressar no bloco quando a França assumir a presidência, no segundo semestre deste ano. Afinal, após sua chegada ao Elysée, o presidente Nicolas Sarkozy expressou, em muitas ocasiões, seu interesse pelo país e sua vontade de “dar um novo impulso à parceria Europa-Ucrânia”. Mesmo assim, a França tem evitado abordar a questão da adesão de forma explícita, limitando-se a qualificar as relações como uma “consolidação da cooperação”.

Estão cada vez mais distantes as lembranças de dezembro de 2004, quando os líderes europeus se espremiam na praça central de Kiev, contagiados pela febre da “Revolução Laranja”

A seu favor, a Ucrânia dispõe de quatro trunfos de peso, diante dos quais a Europa não pode permanecer indiferente: é um país de passagem para o gás russo; um parceiro comercial de primeira ordem; tem uma economia com grande potencial de crescimento e sua estabilidade garante a segurança da Europa na fronteira oriental. Mas a solicitação ucraniana ainda suscita profundas dissensões.

Testemunho disso foi a cacofonia manifestada no encontro UE-Ucrânia, no final de fevereiro, em Kiev. Grigoriy Némyria, vice-primeiro ministro ucraniano, demonstrou abertamente sua satisfação com o fato de que “a porta da Europa estava, enfim, aberta”. Foi calorosamente aplaudido pelos representantes dos novos Estados-membros da Europa central, entre os quais a Polônia, fervorosa lobista da integração em médio prazo da Ucrânia. Em contrapartida, os membros fundadores da Europa ocidental, seguros de sua influência, encarregaram-se de esfriar o entusiasmo no ambiente. A resposta do deputado alemão Rainder Steenblock a Némyria veio em seguida: “a porta está aberta, é verdade, mas ela se encontra no sétimo andar e, no momento, a Ucrânia está no térreo”.

Estão cada vez mais distantes as lembranças de dezembro de 2004, quando os líderes europeus se espremiam na praça central de Kiev, contagiados pela febre da “Revolução Laranja”. O processo, que contestou a suposta fraude no processo eleitoral e reforçou a necessidade da democracia, colocou dirigentes pró-ocidentais no poder. Mas a ilusão de uma Ucrânia “no coração da Europa” caiu por terra, como tantas outras grandes esperanças desse movimento. Apesar dos avanços reais das reformas liberais ditadas pela UE , o país sofreu para convencer os demais de sua estabilidade. “As práticas pós-soviéticas perduram ainda nos campos político e econômico”, estima Némyria.

Do continuísmo dominante das elites resulta uma falta de dinamismo para conduzir as mudanças internas, razões de um certo “mal ucraniano”. Essa inércia, diz Nico Lange, diretor do escritório ucraniano da Fundação Konrad-Adenauer, pode ser explicada também pela timidez européia: “é verdade que as reformas não foram conduzidas com eficácia, mas é também papel da UE dar alguma perspectiva a um país para que ele leve a cabo as reformas necessárias. Esse tipo de política funciona se existir por trás um desejo real de integração como Estado-membro, o que falta à Ucrânia”.

A UE tem dificuldade para digerir seus novos Estados-membros e se divide sobre as candidaturas da Turquia, Macedônia e Croácia. “Ninguém sabe aonde vai a Europa”, lamenta o filósofo ucraniano Konstantin Sigov

Após ter feito parte dos impérios russo, polonês e austríaco, e depois da União Soviética, será que a Ucrânia acabará escrava de sua própria geografia, condenada ao status de eterno “Estado-tampão?” A situação do país, encurralado entre a Europa e a Rússia, compromete as aspirações européias de Kiev. Isso porque a UE depende muito dessas relações econômicas, e particularmente energéticas, com os russos. Segundo Gérard-François Dumont, professor de geografia da universidade Paris-IV Sorbonne, uma aproximação clara demais de poderia representar um verdadeiro “casus belli” para Moscou, que sempre considerou as nações da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) como parte de sua zona de influência.

Além disso, um certo constrangimento em relação a Moscou transparece nos discursos dos diplomatas europeus: “nós não prejulgamos nem excluímos a integração da Ucrânia, porém, certamente levamos em consideração a estabilidade do continente europeu. Devemos, ao mesmo tempo, alimentar a cooperação entre a União Européia e a Ucrânia e fechar uma parceria forte entre a Rússia e a Europa”, diz Jean-Pierre Jouyet, secretário da França para os negócios europeus. Sua afirmação pressupõe que os europeus consigam andar na corda bamba, já que Ucrânia e Rússia estão em disputa aberta há três anos: crises recorrentes em relação ao gás, ameaça sobre a base militar russa de Sebastopol no Mar Negro, oposição de Moscou à adesão da Ucrânia à OTAN...

Assim, procurando não melindrar a Rússia, a UE se envolve com a Ucrânia através da política de vizinhança lançada em 2004, que inclui atualmente todos os países fronteiriços. Baseado na fórmula lapidar “tudo menos as instituições”, do ex-premiê italiano Romano Prodi, esse programa permite a Estados como a Ucrânia participarem do mercado interno e de certas políticas da UE, em troca de avanços em “valores comuns”, de democracia, estado de direito e liberalismo. Para o chefe da delegação da Comissão Européia na Ucrânia, Ian Boag, trata-se “de evitar a criação de uma nova cortina de ferro na Europa a algumas centenas de quilômetros da precedente”. “Para nós, está claro, pois esse é o espírito e a carta do tratado de Roma: todo país europeu pode se lançar candidato à integração”, insiste Grigoriy Némyria. “A Ucrânia é claramente um país europeu e nós queremos, no futuro, entrar para a União Européia”, diz. Na verdade, o vice-primeiro ministro não deseja “precipitar as coisas e se tornar membro amanhã ou depois de amanhã: estamos conscientes de que a Ucrânia atualmente não está preparada para esta integração, mas vemos também que tampouco está a Europa”.

Por seu zelo e insistência, a Ucrânia faz com que a UE se volte a suas próprias dúvidas quanto a seus objetivos, limites e identidade. Para muitos analistas, integrar este país voltaria a diluir um pouco mais um projeto europeu já vago e colocaria, de maneira implícita, a questão de uma entrada futura da Rússia. A fraqueza da ampliação já se faz sentir: a UE tem dificuldade para digerir seus doze novos Estados-membros e se divide sobre as candidaturas da Turquia, Macedônia e Croácia, que ocuparam seus lugares nos próximos vagões. “É verdade, ninguém sabe aonde vai a União Européia”, reconhece o filósofo ucraniano Konstantin Sigov. “De Kiev a Lisboa, a Europa está em plena desordem. Mas uma coisa é certa: para os ucranianos, a Europa já está lá”.




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