Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» A Tecnologia da Adaptação — e como vencê-la

» O Irã e os idiotas úteis… a Washington

» “Atire na cabeça!”

» Um reino de farsas e encenações necessárias

» Jogue no Google, senhor ministro

» Religião, violência e loucura

» O consenso pela Educação acabou

» O dia em que o governo perdeu as ruas

» Galeria: Brasil nas ruas

» Um governo tóxico

Rede Social


Edição francesa


» Naissance de l'Europe SA

» André Malraux : « la culture européenne n'existe pas »

» Face au journalisme de marché, encourager la dissidence

» Une obligation morale

» Mais pourquoi cette haine des marchés ?

» Les militants français confrontés à la logique de l'entreprise

» Une machine infernale

» Pour sauver la société !

» Des réformes qui ne sont pas allées assez loin

» Controverses et débats en Allemagne


Edição em inglês


» Iran and the US, a tale of two presidents

» Terry Gou, Taiwan's billionaire and political wildcard

» Ecuador's crackdown on abortion is putting women in jail

» Traditions of the future

» Boondoggle, Inc.

» Sisi amends Egypt's constitution to prolong his presidency

» May: the longer view

» The languages of Ukraine

» Chile's day of women

» Notre Dame is my neighbour


Edição portuguesa


» 20 Anos | 20% desconto

» EUROPA: As CaUsas das Esquerdas

» Edição de Maio de 2019

» Os professores no muro europeu

» Chernobil mediático

» Edição de Abril de 2019

» A nossa informação, as vossas escolhas

» O cordão sanitário

» O caso do Novo Banco: nacionalizar ou internacionalizar?

» Edição de Março de 2019


LITERATURA

Triste sina

Imprimir
Enviar
Compartilhe

Quem o visse, se o visse, de relance, nesse instante após a metamorfose, não sabia o que via, o que tinha visto, um vulto fugaz, um tiro veloz, um vasto susto, um engano da vista

Antonio Carlos Olivieri - (06/06/2008)

Era terrível a maldição que o consumia. Daí, talvez, o uivo dolorido, o laivo agudo e ressentido que atirava à lua cheia: aiiiiuuuuuuuuuuuuuuuuuiiii! O amplo silêncio da noite gritava em resposta ao latido e ele caía em si, de muito longe. Ao fim do transe inicial, partia num rompante em disparada, como querendo devastar o infinito, correr, correr, correr pelo mundo agreste, rasgar o mato febril sem saber pra onde.

Quem o visse, se o visse, de relance, nesse instante após a metamorfose, não sabia o que via, o que tinha visto, um vulto fugaz, um tiro veloz, um vasto susto, um engano da vista. Mas sempre sobrava uma impressão da improvável corrida. E o rastro no chão concedia a certeza da assombração a quem o via, se o via, de relance, nesse instante após a metamorfose. Foi assim que ele ganhou a venda, a praça e a capela, convertido em conversa de boca a boca.

–- Eu vi, eu vi, eu juro que vi, juro por Santa Luzia!

Na vila, ninguém levou a sério essa primeira declaração, por mais que o declarante se desfizesse em juramentos. Mas não demorou a que outros relatos de igual teor viessem confirmá-la.

–- Pois eu também vi e juro que vi. Juro por São Benedito.

–- Não tenho dúvida nenhuma: era um lobisomem.

–- Eu também vi, vi de verdade, então não era?

–- Era que era! Juro por Nossa Senhora.

Que não se tratava apenas de conversa fiada, logo apareceram indícios: carcaças carcomidas de aves, de porcos, de cabras e até de novilhos. Assim, nas tertúlias, já se esboçavam as feições da criatura. Para alguns, sua imagem era a de um grande cão negro, de olhos em brasa e caninos arreganhados no focinho. Para outros, tinha a forma de um homem somente, mas coberto de pêlos eriçados, com as ventas fumegantes e as garras enormes.

Havia ainda quem contasse que aparentava ser um mistura de lobo e gente, com as orelhas pontiagudas, o corpo espetado de cerdas sombrias, e um rabo de açoite. Como seria de fato ninguém podia precisar. Todos com quem topou não tiveram coragem bastante pra encará-lo. Com o horror que lhes turvava a vista, enxergavam o que podiam antes de fugir, rapidinho. Quanto a ele mesmo, como nunca vira o próprio reflexo, preferia acreditar que sua figura se assemelhava à do demo em pessoa.

Porém, não cabia a contemplação em sua sina. Completada a transformação, devido à ação da lua cheia, era impelido a partir em imediata peregrinação, fatídica jornada. Antes de o galo cantar, devia percorrer sete matas, sete colinas, sete vales, sete vilas, sete igrejas, sete criptas, sete encruzilhadas. Então, como um redemoinho, devorava as trilhas que ele mesmo traçava. Cruzava, como um furacão, o sem-fim do sertão, furioso. A cada septenário, interrompia o curso por um único instante, lançando seu ganido para a esfera de prata nas alturas.

Então, sob o jugo implacável da mecânica celeste, o satélite cedia seu espaço ao astro e o grito do galo anunciava a aurora. Tornado ao ponto de partida a esta hora, seu estro ia perdendo a formidável formosura. Espojando-se frenético no barro, despojava-se aflito da infernal figura. Desapareciam focinho e bocarra, o pêlo abandonava a pele desnuda, perdiam-se as garras e o rabo pontiagudo. Terrível maldição o consumia: voltava a ser simplesmente um homem.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Cultura
» Literatura


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos