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LITERATURA

Triste sina

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Quem o visse, se o visse, de relance, nesse instante após a metamorfose, não sabia o que via, o que tinha visto, um vulto fugaz, um tiro veloz, um vasto susto, um engano da vista

Antonio Carlos Olivieri - (06/06/2008)

Era terrível a maldição que o consumia. Daí, talvez, o uivo dolorido, o laivo agudo e ressentido que atirava à lua cheia: aiiiiuuuuuuuuuuuuuuuuuiiii! O amplo silêncio da noite gritava em resposta ao latido e ele caía em si, de muito longe. Ao fim do transe inicial, partia num rompante em disparada, como querendo devastar o infinito, correr, correr, correr pelo mundo agreste, rasgar o mato febril sem saber pra onde.

Quem o visse, se o visse, de relance, nesse instante após a metamorfose, não sabia o que via, o que tinha visto, um vulto fugaz, um tiro veloz, um vasto susto, um engano da vista. Mas sempre sobrava uma impressão da improvável corrida. E o rastro no chão concedia a certeza da assombração a quem o via, se o via, de relance, nesse instante após a metamorfose. Foi assim que ele ganhou a venda, a praça e a capela, convertido em conversa de boca a boca.

–- Eu vi, eu vi, eu juro que vi, juro por Santa Luzia!

Na vila, ninguém levou a sério essa primeira declaração, por mais que o declarante se desfizesse em juramentos. Mas não demorou a que outros relatos de igual teor viessem confirmá-la.

–- Pois eu também vi e juro que vi. Juro por São Benedito.

–- Não tenho dúvida nenhuma: era um lobisomem.

–- Eu também vi, vi de verdade, então não era?

–- Era que era! Juro por Nossa Senhora.

Que não se tratava apenas de conversa fiada, logo apareceram indícios: carcaças carcomidas de aves, de porcos, de cabras e até de novilhos. Assim, nas tertúlias, já se esboçavam as feições da criatura. Para alguns, sua imagem era a de um grande cão negro, de olhos em brasa e caninos arreganhados no focinho. Para outros, tinha a forma de um homem somente, mas coberto de pêlos eriçados, com as ventas fumegantes e as garras enormes.

Havia ainda quem contasse que aparentava ser um mistura de lobo e gente, com as orelhas pontiagudas, o corpo espetado de cerdas sombrias, e um rabo de açoite. Como seria de fato ninguém podia precisar. Todos com quem topou não tiveram coragem bastante pra encará-lo. Com o horror que lhes turvava a vista, enxergavam o que podiam antes de fugir, rapidinho. Quanto a ele mesmo, como nunca vira o próprio reflexo, preferia acreditar que sua figura se assemelhava à do demo em pessoa.

Porém, não cabia a contemplação em sua sina. Completada a transformação, devido à ação da lua cheia, era impelido a partir em imediata peregrinação, fatídica jornada. Antes de o galo cantar, devia percorrer sete matas, sete colinas, sete vales, sete vilas, sete igrejas, sete criptas, sete encruzilhadas. Então, como um redemoinho, devorava as trilhas que ele mesmo traçava. Cruzava, como um furacão, o sem-fim do sertão, furioso. A cada septenário, interrompia o curso por um único instante, lançando seu ganido para a esfera de prata nas alturas.

Então, sob o jugo implacável da mecânica celeste, o satélite cedia seu espaço ao astro e o grito do galo anunciava a aurora. Tornado ao ponto de partida a esta hora, seu estro ia perdendo a formidável formosura. Espojando-se frenético no barro, despojava-se aflito da infernal figura. Desapareciam focinho e bocarra, o pêlo abandonava a pele desnuda, perdiam-se as garras e o rabo pontiagudo. Terrível maldição o consumia: voltava a ser simplesmente um homem.



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