Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» A China tem uma alternativa ao neoliberalismo

» Marielle, Moa, Marley, Mineirinho

» As trapaças do gozo individual

» Vermelho Sol, fotossíntese da violência

» Assim arma-se a próxima crise financeira

» Quantos anos o automóvel rouba de sua vida?

» Guerra comercial: por que Trump vai perder

» Mulheres indígenas, raiz e tronco da luta pelo território

» Por que a educação voltou às ruas?

» O ditador, sua “obra” e o senhor Guedes

Rede Social


Edição francesa


» Ovnis et théorie du complot

» Boulevard de la xénophobie

» Une machine à fabriquer des histoires

» Un ethnologue sur les traces du mur de Berlin

» Le stade de l'écran

» Un ethnologue à Euro Disneyland

» Lénine a emprunté ses règles d'action à des écrivains radicaux du siècle dernier

» Le rêve brisé de Salvador Allende

» Un ethnologue à Center Parcs

» La dilapidation mortelle des ressources


Edição em inglês


» Manufacturing public debate

» August: the longer view

» Trump returns to the old isolationism

» Yellow vests don't do politics

» Kurdish territories in northern Syria

» The changing shape of the Balkans: 1991 / 2019

» Minorities in Kosovo

» Borders 1500-2008

» Man with a mission or deranged drifter

» The Louise revolution


Edição portuguesa


» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019

» As pertenças colectivas e as suas conquistas

» A arte da provocação

» 20 Anos | 20% desconto


LITERATURA

Domingo

Imprimir
Enviar
Compartilhe

A voz do homem está mais baixa e rouca, como se ele fosse chorar. Aqui, ó, aqui! Os olhos parecem que vão saltar do rosto e rolar na sarjeta. Agarra a mão e guia para a virilha. Há ali uma coisa cega e sem nome

Neuza Paranhos - (06/06/2008)

O Aerowillys desfila o céu azul na lataria. Faz frio e o ar que sai dos pulmões vem condensado. Meia dúzia de moleques animados. Levem-me ao seu líder! No banco da frente, ao lado do pai, os olhos pregados na avenida das noivas. Vitrines de tule e cetim. As manequins impressionantes, um jeito resignado de inclinar as cabecinhas. Episódio dessa semana: Jardim da Luz. Há polêmica a respeito. Os moleques falam ao mesmo tempo, pipocam nomes de outros lugares. Ibirapuera! Tobogã! Praça da República! Jaraguá! Cantareira! Ao sinal vermelho, o piloto estaciona a nave. Rendam-se terráqueos! Pendurados no banco do motorista, cada qual seus muitos planos. O homem pressiona a embreagem, engata a primeira e vira à esquerda na Avenida do Estado. Tranqüilo, explica: tem jogo de xadrez com Daniel. Os garotos, rendidos, se ocupam de organizar aventuras, cães de matilha. A menina estampa alegria no rosto. Como é domingo, deixa para andar devagar, ao lado do pai. Percorrem a alameda principal que leva ao quiosque. Os garotos saem em correria perdigueira, uma felicidade enorme ter o pai e Daniel só para si. Ele aguarda em um banco. Acena de longe, todo embrulhado num casacão escuro de filme mudo.

Como vai, Fabrrício? E freulein?

Gosta das palavras misteriosas, o jeito de Daniel curvar o corpo até nivelar os olhos azuis aos dela enquanto fala. Não perde nada: o bordado na extremidade do quipá, o chapeuzinho que ele nunca tira e o pai explicou ser coisa de religião, a religião dele lá. Os anéis negros escapando sob o quipá, a barba, que de tão barbuda deixa azul o rosto branco de susto. Mas não é susto, é assim mesmo. Que bonito, Daniel.

Querrr vérr um bicho? – aponta a copa de uma figueira, há uma preguiça ocupada em demorar. Antes, porém, entre a menina e a preguiça, há uma coisa. Quer dizer, não há uma coisa. Mindinho, seu-vizinho, pai-de-todos... Daniel admira a preguiça sem saber que está só. Ao buscar cumplicidade, recebe terror mudo e infantil, coisa que ele sabe. Ergue o tronco e se torna um fantasma grave, doente de um segredo. Os não-dedos crescem os olhos da menina. Incomodado, esconde a mão no bolso, os dedos em ponto de bala, sempre. Mãos ao alto! A menina esconde atrás do pai e cobre o rosto com as mãos.

O que foi, Dedé, quer saber Fabrício – ela se agarra à perna e aperta o rosto contra a coxa. É Afrodite querendo de ser gestada, diz Daniel.

Ambos se divertem com a metáfora, que tem o poder de descontrair o autor. São muitos os anos desde que aprendeu a conviver com a dor. O alívio vem nessas oportunidades, quando há uma criança assustada. Dobra os joelhos e, de cócoras, tenta reestabelecer contato.

Dedé, gosta de bichos?

Olha desconfiada. Uma mão com todos os dedos apoiada no chão, a outra mão, a má, escondida atrás do corpo. Já os lindos olhos azuis estão ali, entregues aos dela. Se rende e, amuada, faz que sim.

Boa menina, esta – Daniel afaga sua cabeça como se faz com um cachorrinho. Ela omite um grito de horror ao sentir a ausência de dedos apalpando o crânio. Torna a se encolher atrás do pai. Fabrício senta e toca o tabuleiro de xadrez que Daniel armou sobre o banco. Tem a filha grudada a si feito as bromélias no troco da figueira.

Filhota, vai brincar. Papai e Daniel vão jogar xadrez.

Acena com a cabeça que não.

Olha, vai comprar amendoim pra dar pros patos. Você não quer dar amendoim? Os patinhos tão com fome, dizendo “cadê aquela menininha, aquela que dá comida pra gente, puxa, será que ela se esqueceu da nossa comida” – diz com voz anasalada.

Espia divertida o pai imitar pato esfaimado. Ele puxa um trocado do bolso e estende. Vai comprar amendoim pros patinhos. Papai e Daniel tão aqui jogando xadrez. Agora vai. Revigorada pela idéia, pega o troco, olha mais uma vez Daniel, que devolve uma piscadadela. Faz cara feia, Daniel nem vê, ocupado em ajeitar as peças sobre o tabuleiro, as mãos encobertas pelas mangas do casaco. Agora que sabe, deve administrar a verdade: que a seu querido e lindo Daniel faltam dedos. E precisa de uma definição: Daniel é um diabo, um “pobre diabo”. Ninguém diz pobre diabo, só os filmes. Ninguém tem um diabo tão bem guardado como a avó, um diabo noturno. O diabo vai dormir com você, menina malcriada! Sai correndo, corre, corre.

O lago onde vivem os patos tem uma umidade fria de porcaria, sente através da conguinha mergulhada no lodo. Os patos vêm, basta que sente à beira do lago e olhe com confiança. Abre as mãos e mostra que estão vazias. Eles ignoram o fato e ela enxerga os próprios dedos, os dez. Mexe cada um deles para ter certeza. Um cisne se aproxima e os patos se afastam incomodados. Fica um ganso marrudo.

Sai! – se irrita, movida por um sentido de solidariedade com os mais fracos. O ganso e o cisne continuam por perto. Estica os braços e recolhe depressa, com medo de ter os dedos arrancados. A revelação sobre Daniel envenena o domingo, está em toda parte. Precisa de amendoins.

O homem do carrinho está logo adiante, só por essa facilidade, resolve dar uma volta. A umidade do lago é de todo jardim. Na beira de um tanque de água verde há uma estátua de moça solene, principal. Imita o rosto dela franzindo a boca, ajeitando os cabelos. A seguir, apura o olhar e decifra as letras no pedestal: Venus Anadyomede. Lê devagar associando caracteres e sons, e dizendo alto. Empaca no y, desconhece. Continua como pode, omede. Uma revoada de pombas, pensa como seria bom ter amendoim com que atraí-las. Ouve um realejo atrás de si. Um homem gira a manivela. Tem olhos saltados de pequinês. Dentro do realejo há um lourinho, mas ela não pode ver. Como a menina é o único público à disposição, o homem dedica a ela o espetáculo. Cessa a música. Quer ver a sorte? Abre a porta da gaiola. Vem ver, vem. Se aproxima, encantada. O bichinho traz no bico um pedaço de papel. Ela aceita a oferta, abre o papel, tudo o que é leitura decifra um mistério. Olha aqui, olha. A voz do homem está mais baixa e rouca, como se ele fosse chorar. Aqui, ó, aqui! Os olhos parecem que vão saltar do rosto e rolar na sarjeta. Agarra a mão e guia para a virilha. Há ali uma coisa cega e sem nome. Pega, pega! O homem a prende junto de si, puxa a mão com mais força.

A manhã avança, uma velha sentada num banco perto do chafariz atira arroz para as pombas, já tem para mais de cinco dúzias, vorazes, tensas. Os meninos-lobos passam uivando e faz-se uma revoada. Porquera! A velha irada. Estabelece-se uma intimidade entre o homem e Dedé. Daniel tenta evitar um cheque-mate. Consegue, o jogo empata. Dedé solta um grito. Vem agudo, afiado, rondava toda a manhã, o grito. Foge. Corre, corre. O homem treme inteiro, descontrolado. Quando se assenhora de si, recolhe os instrumentos e desaparece. Os meninos-lobos trombam em Dedé diante do poço da Vênus.

O que foi, o que foi?

Acuada, distribui chutes e empurrões. Eles topam a brincadeira e devolvem uivos, caretas, puxões de cabelo. Foge em busca do pai, os meninos-lobo acompanham. Se atira sobre ele, quase derruba o tabuleiro de xadrez.

O que foi, o que foi, machucou? – olha zangado para a matilha.

Os meninos se eximem de culpa: ela é que é chorona!

Fabrício deita a cabeça de Dedé no colo, acaricia os cabelos, tenta acalmá-la. Súbito olha a virilha do pai e se afasta aterrorizada.

O que foi, o que foi?

Não tem como explicar. Então, faz uso do último mistério: ana... ana... omede...

O quê?

A matilha impaciente. Um menino-lobo dá a deixa: é tonta, essa menina, é isso que é! Fabrício lança um comando seco. Os meninos encolhem. Alcança Dedé, toca no ombro, carinho de pai desajeitado. Daniel resolve ajudar.

Não tenha medo, Dedé.

Estende o braço e oferece a mão sem dedos. A manga do casaco recua um pouco e deixa a menina entrever no pulso um número escrito em verde, meio borrado, lembra canetinha hidrocor. A curiosidade desvia o foco e ela se torna presa dos olhos. Vê refletida neles uma descoberta inominável de beleza e terror.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Cultura
» Literatura
» Seção {Palavra}


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos