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Vozes hispânicas – 5

A lira múltipla de Lope de Vega

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Lope Félix de Vega Carpio, chamado por Miguel de Cervantes de “monstro da natureza”, é um caso singular de fertilidade criativa

Marco Catalão - (13/06/2008)

Conhecido sobretudo por sua obra teatral, que estabelece as bases do teatro nacional espanhol, Lope Félix de Vega Carpio (1562-1635), chamado por Cervantes de “monstro da natureza”, é um caso singular de fertilidade criativa. Seus próprios contemporâneos já não eram capazes de precisar os limites da sua obra dramática – da qual restam, hoje, 770 títulos e 470 textos (embora Lope estimasse haver escrito 1.500 peças), sem contar os romances, poemas épicos, didáticos e líricos.

Contemporâneo de dois dos maiores poetas espanhóis de todos os tempos, Quevedo e Gôngora, Lope não restringiu sua prolífica “monstruosidade” aos palcos, compondo obras líricas intensas e refinadas, alternando com espantosa facilidade o registro culto e o popular, as canções dos agricultores e os cânticos religiosos, o arrebatamento amoroso e a melancolia elegíaca. Não lhe bastou cultivar o drama, o auto e a comédia; explorou com desenvoltura também o soneto, a écloga, a elegia e o romance.

Evidentemente, é impossível sintetizar em poucas palavras uma obra lírica tão vasta e variada. Procurei representar na seleção abaixo um pouco dessa variedade formal e temática de que a poesia contemporânea parece estar tão distante: o soneto amoroso e o elegíaco; o romance mourisco, de fino humor; a “culta lira” gongorina, emulação e homenagem ao próprio Gôngora; a lírica sacra, ora arrebatada, ora suave.

É quase desnecessário dizer que as traduções apresentadas aqui são apenas uma pálida amostra desse conjunto e, mais do que isso, um convite a que o leitor interessado se aventure nesse rico caudal.

1.

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde, animoso,

no hallar, fuera del bien, centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño:
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

Abater-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, brando, liberal, esquivo,
animado, exaurido, morto, vivo,
leal, traidor, covarde, corajoso,

não ver, fora do bem, centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
desgostoso, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, temeroso;

furtar o rosto ao claro desengano,
beber veneno por licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;

acreditar que o céu no inferno cabe,
ceder a vida e a alma a um desengano;
isto é amor, quem o provou bem sabe.

***

2.

-— Mira, Zaide, que te aviso
que no pases por mi calle
ni hables con mis mujeres,
ni con mis cautivos trates,
ni preguntes en qué entiendo
ni quién viene a visitarme,
qué fiestas me dan contento
o qué colores me aplacen;
basta que son por tu causa
las que en el rostro me salen,
corrida de haber mirado
moro que tan poco sabe.
Confieso que eres valiente,
que hiendes, rajas y partes
y que has muerto más cristianos
que tienes gotas de sangre;
que eres gallardo jinete,
que danzas, cantas y tañes,
gentil hombre, bien criado
cuanto puede imaginarse;
blanco, rubio por extremo,
señalado por linaje,
el gallo de las bravatas,
la nata de los donaires,
y pierdo mucho en perderte
y gano mucho en amarte,
y que si nacieras mudo
fuera posible adorarte;
y por este inconveniente
determino de dejarte,
que eres pródigo de lengua
y amargan tus libertades
y habrá menester ponerte
quien quisiere sustentarte
un alcázar en el pecho
y en los labios un alcaide.
Mucho pueden con las damas
los galanes de tus partes,
porque los quieren briosos,
que rompan y que desgarren;
mas tras esto, Zaide amigo,
si algún convite te hacen,
al plato de [sus] favores
quiere[n] que coma[s] y calle[s].
Costoso fue el que te hice;
venturoso fuera[s], Zaide,
si conservarme supieras
como supisme obligarme.
Apenas fuiste salido
de los jardines de Tarfe
cuando hiciste de la tuya
y de mi desdicha alarde.
A un morito mal nacido
me dicen que le enseñaste
la trenza de los cabellos
que te puse en el turbante.
No quiero que me la vuelvas
ni quiero que me la guardes,
mas quiero que entiendas, moro,
que en mi desgracia la traes.
También me certificaron
cómo le desafiaste
por las verdades que dijo,
que nunca fueran verdades.
De mala gana me río;
¡qué donoso disparate!
No guardas tú tu secreto
¿y quieres que otro le guarde?
No quiero admitir disculpa;
otra vez vuelvo a avisarte
que ésta será la postrera
que me hables y te hable-.

Dijo la discreta Zaida
a un altivo bencerraje
y al despedirle repite:
«Quien tal hace, que tal pague».

- — Olha, Zaide, que te aviso:
pela minha rua não passes,
nem fales com minhas amas
nem com meus escravos trates,
nem perguntes no que penso,
nem quem veio visitar-me,
que festas me dão prazer
ou as cores que me agradem;
basta que são por tua causa
as que do meu rosto saem,
em fuga por ter olhado
mouro que tão pouco sabe.
Confesso que és bem valente,
que fendes, rasgas e partes,
que mataste mais cristãos
do que tens gotas de sangue;
que és um galante ginete,
que danças, cantas e tanges,
gentil homem, bem criado
quanto possa imaginar-se;
branco, belamente loiro,
nobre por sua linhagem,
o galo em meio às bravatas,
a nata em meio aos donaires,
e perco muito em perder-te
e ganho muito em amar-te,
e que se nascesses mudo
eu poderia adorar-te;
mas por este inconveniente
determino abandonar-te,
pois és pródigo de língua
e ferem tuas liberdades
e terá que pôr em ti
quem desejar agüentar-te
um alcácer sobre o peito,
e nos lábios, um alcaide.
Muito podem com as damas
os galãs da tua classe,
porque os querem corajosos,
que rompam e que desgarrem;
mas depois, Zaide querido,
se algum convite te fazem,
no prato de seus favores
querem que comas e cales.
Foi custoso o que te fiz;
ditoso serias, Zaide,
se me conservar soubesses
como soubeste ganhar-me.
Mas mal havias saído
daqueles jardins de Tarfe,
quando fizeste do teu
e do meu azar alarde.
A um mourinho mal-nascido
dizem-me que tu mostraste
a trança dos meus cabelos
que pus sobre o teu turbante.
Não quero que ma devolvas,
nem tampouco que ma guardes,
mas quero que entendas, mouro,
que por meu mal tu a trazes.
Também me certificaram
como tu o desafiaste
pelas verdades que disse,
que nunca foram verdades.
De má vontade me rio;
que gracioso disparate!
Não guardas tu teu segredo
e queres que um outro o guarde?
Não quero aceitar desculpas;
outra vez volto a avisar-te
que esta será a derradeira
que me fales e eu te fale.

Disse a discreta Zaida
a um altivo abencerrage
e ao se retirar repete:
“Quem aqui fez aqui pague”.

***

3.

Éstos los sauces son y ésta la fuente,
los montes éstos y ésta la ribera
donde vi de mi sol la vez primera
los bellos ojos, la serena frente.

Éste es el río humilde y la corriente
y ésta la cuarta y verde primavera
que esmalta el campo alegre y reverbera
en el dorado Toro el sol ardiente.

Árboles, ya mudó su fe constante...
Mas ¡oh gran desvarío!, que este llano
entonces monte le dejé sin duda.

Luego no será justo que me espante,
que mude parecer el pecho humano,
pasando el tiempo que los montes muda.

Estes são os salgueiros e esta a fonte,
os montes, estes, e esta é a ribeira
onde vi de meu sol a vez primeira
os belos olhos, a serena fronte.

Este é o regato humilde, esta a corrente
e é esta a quarta e verde primavera
que esmalta o campo alegre e reverbera
pelo dourado Touro o sol ardente.

Árvores, já mudou sua fé constante...
Contudo, esta planície, ó insanidade!,
outrora teve de alto monte a forma.

Logo não será justo que me espante
que mude o peito humano de vontade
passando o tempo que aos montes transforma.

***

4.

Cayó la torre que en el viento hacían
mis altos pensamientos castigados
que yacen por el suelo derribados
cuando con sus extremos competían.

Atrevidos al sol llegar querían
y morir en sus rayos abrasados,
de cuya luz contentos y engañados
como la ciega mariposa ardían.

¡Oh siempre aborrecido desengaño,
amado al procurarte, odioso al verte,
que en lugar de sanar abres la herida!

Pluguiera a Dios duraras, dulce engaño,
que si ha de dar un desengaño muerte,
mejor es un engaño que da vida.

Caiu a torre que no vento erguiam
meus altos pensamentos castigados
que jazem pelo chão, desmoronados,
quando com seus extremos competiam.

Atrevidos, ao sol chegar queriam
e morrer em seus raios abrasados,
por cuja luz, contentes e enganados,
tal qual a cega mariposa ardiam.

Ó sempre abominável desengano,
amado noivo, horrífico consorte,
que em lugar de curar abre a ferida!

Prouvesse a Deus durasses, doce engano;
porque, se um desengano há de ser morte,
muito melhor é o engano que dá vida.

***

5.

¿Qué tengo yo que mi amistad procuras?
¿Qué interés se te sigue, Jesús mío,
que a mi puerta, cubierto de rocío,
pasas las noches del invierno escuras?

¡Oh, cuánto fueron mis entrañas duras
pues no te abrí! ¡Qué extraño desvarío
si de mi ingratitud el yelo frío
secó las llagas de tus plantas puras!

¡Cuántas veces el ángel me decía:
«¡Alma, asómate agora a la ventana,
verás con cuánto amor llamar porfía!».

¡Y cuánta[s], hermosura soberana:
«Mañana le abriremos», respondía,
para lo mismo responder mañana!

Que terei eu, pois meu amor procuras?
Que interesse te move, Jesus pio,
que à minha porta, alheio ao céu sombrio,
passas as noites deste inverno escuras?

Oh, como são minhas entranhas duras,
pois não te abri! Que estranho desvario
se desta ingratidão o gelo frio
secou as chagas das tuas plantas puras!

Quantas vezes o anjo me dizia:
“Alma, sai neste instante à tua janela,
que chamam com amor e teimosia!”

E quantas, potestade sempre bela,
“Amanhã abriremos”, respondia,
para amanhã novamente esquecê-la!

***

6.

A la muerte de don Luís de Góngora

Despierta, o Béthis, la dormida plata,
y coronado de ciprés, inunda
la docta patria en Sénecas fecunda,
todo el cristal en lágrimas desata.

Repite soledades, y dilata
por campos de dolor vena profunda:
única luz, que no dejó segunda,
al Polifemo ingenio Atropos mata.

Góngora ya la parte restituye
mortal al tiempo; ya la culta lira
en cláusula final la voz incluye:

ya muere y vive; que esta sacra pira
tan inmortal honor le constituye,
que nace Fénix, donde Cisne espira.

À morte de don Luís de Gôngora

Bétis, desperta a adormecida prata
e, de cipreste coroado, inunda
a douta pátria, em Sênecas fecunda,
todo o cristal em lágrimas desata.

Repete solidões, e então dilata
por campos de pesar veia profunda,
única luz, que não deixou segunda;
o Polifemo engenho Átropos mata.

Gôngora já sua parte restitui
mortal ao tempo; já sua culta lira
em cláusula final a voz inclui:

já morre e vive; que esta sacra pira
honra tão imortal lhe constitui
que nasce Fênix onde Cisne expira.

***

7.

Pues andáis en las palmas,
ángeles santos,
que se duerme mi Niño,
tened los ramos.

Palmas de Belén
que mueven airados
los furiosos vientos
que suenan tanto;
no le hagáis ruido,
corred más paso.
Que se duerme mi Niño,
tened los ramos.

El Niño divino
que está cansado
de llorar en la tierra
por su descanso,
sosegaros quiere un poco
del tierno llanto.
Que se duerme mi Niño,
tened los ramos.

Rigurosos hielos
le están cercando;
ya veis que no tengo
con qué guardarlo.
Ángeles divinos
que vais volando,
que se duerme mi Niño,
tened los ramos.

Pois caminhais nas palmas,
ó anjos santos,
e dorme o meu Menino,
detende os ramos.

Palmas de Belém
que movem, irados,
os furiosos ventos
que bramem tanto,
não façais barulho,
sejais mais brandos.
Pois dorme o meu Menino,
detende os ramos.

Meu filho divino,
que está cansado
de chorar na terra,
por seu descanso
quer deixar um pouco
seu terno pranto.
Pois dorme o meu Menino,
detende os ramos.

Gelos rigorosos
o estão cercando,
vedes que não tenho
como abrigá-lo:
ó anjos divinos
que ide voando,
pois dorme o meu Menino,
detende os ramos.



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