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LITERATURA

A morte contemporânea

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Em “Ruído branco”, tecnologia e consumo são citados em profusão, e não apenas como parte do modo de vida prático, mas como elementos com que os personagens também criam ligações íntimas de pavor ou fascínio

Marco Polli - (13/06/2008)

Abordar a especificidade do mundo contemporâneo é um desafio que muitos escritores se colocam, mas que freqüentemente se transforma em uma armadilha: personagens se tornam caricaturas sem força e o que é “atual” é mostrado apenas como uma sucessão de clichês recentes. Num exemplo oposto, Don Delillo conseguiu se sair muito bem com Ruído branco (1985) justamente por tratar os personagens não como meros reflexos do seu tempo, mas como aqueles que, por seus discursos e atos, dão-lhe forma. Encontram-se no romance todos os termos-chave: supermercados, shoppings, mídia de massa, egocentrismo mas trabalho voluntário, aulas de ioga, excesso de comida mas excesso de preocupação com o corpo, saturação, tédio, neuroquímica. Porém DeLillo vai mais longe – um dos fatores que definem uma época é o modo com que se lida com a morte e, mais amplamente, com os riscos. Estes parecem ter ficado mais difusos e incertos do que nunca:

Foi necessário evacuar a escola primária na terça. As crianças andavam sentindo dor de cabeça e irritação nos olhos, sentindo gosto de metal na boca. Uma professora rolou pelo chão falando em línguas estrangeiras. Ninguém entendia o que estava acontecendo. Os investigadores disseram que podia ser o sistema de ventilação, a tinta ou o verniz, o isolamento de espuma, o isolamento elétrico, a comida do refeitório, os raios emitidos pelos microcomputadores, o amianto antiincêndios, o adesivo empregado nas embalagens, as emanações da piscina com água clorada, ou talvez alguma coisa mais profunda, mais sutil, mais intimamente integrada ao estado fundamental das coisas. [1]

O tom de incerteza e a mistura da descrição mundana, técnica, com elementos transcendentes (“estado fundamental das coisas”) perpassam todo o romance. Ruído Branco é narrado em primeira pessoa por Jack Gladney, criador e chefe de um departamento sobre Hitler numa universidade do meio-oeste americano. Ao contrário do que se poderia esperar de um livro classificado como pós-moderno, não se tem uma narração ostensivamente fragmentada ou frenética. Na verdade, há diversas passagens bem articuladas e precisas, como as que descrevem a vida no campus universitário. São trechos que remetem a estetas da língua inglesa, como Nabokov, e esta comparação também vale pela ironia embutida nesse olhar elaborado. De qualquer modo, encontram-se também algumas descontinuidades e trocas repentinas de assunto ou registro:

Naquela noite, segundos após adormecer, tive a sensação de que estava mergulhando em mim mesmo, um mergulho raso, que fez o coração parar de bater. Acordei assustado e fiquei olhando para a escuridão, percebendo que havia experimentado o fenômeno mais ou menos normal denominado contração mioclônica. Será que é assim, abrupta, peremptória? A morte – pensei – não devia ser um mergulho de cisne, gracioso, suave, um movimento de asas brancas que deixasse intacta a superfície?
Calças jeans se debatiam dentro do secador.
Encontramos Murray Jay Siskind no supermercado.

As linhas de pensamento do narrador são quebradas também pela grande quantidade de diálogos. Jack Gladney é casado com Babette, alfabetizadora de adultos, com quem faz questão de conversar sobre praticamente tudo. Eles moram com os dois filhos que tiveram juntos e mais outros dois de casamento anteriores. A dinâmica da família é uns dos maiores atrativos do romance, pois dá espaço para conversas e situações esdrúxulas, como o filho de 14 anos que joga xadrez por correspondência com um presidiário. Sobre qualquer assunto, ouvem-se questionamentos e opiniões sem critério – será que chiclete dietético dá câncer, é possível afirmar com total certeza que está chovendo lá fora, quais são efeitos na saúde das radiações da TV, rádio e microondas? Assim, não faltam teorias de conspiração e versões diferentes sobre o que a ciência afirma – e para cada idéia não só aparece um ponto contrário, mas um discurso sem mediação, que não oferece qualquer via para a conversa chegar a um termo. Gladney não se posiciona como uma figura patriarcal, ele está como que imerso nesse volume de vozes e mostra uma atenção genuína à mulher e aos filhos. Outra voz próxima ao protagonista é a do citado Murray, imigrante europeu e professor visitante na universidade de Gladney: ele é fascinado pelo modo de vida americano e o articula em conversas improváveis, como, por exemplo, falando sobre a transição entre vida e morte segundo os tibetanos e a sua relação com os supermercados nos EUA. Por fim, a universidade é mostrada como uma concentração de idéias e estudos caprichosos – Murray pretende estudar Elvis como Gladney fez com Hitler.

Um clássico contemporâneo

Em Ruído branco, tecnologia e consumo são citados em profusão, e não apenas como parte do modo de vida prático, mas como elementos com que os personagens também criam ligações íntimas de pavor ou fascínio:

Colocamos no carro a sacola de compras de Murray, cheia de artigos brancos, junto com as nossas, e atravessamos a rua Elm, rumo à casa de cômodos onde ele estava morando. Tive a sensação de que eu e Babette, no meio daquele volume e variedade de compras, da abundância que aquelas sacolas cheias conotavam, peso, tamanho e número, os rótulos tão conhecidos, as letras de cores vivas, os tamanhos imensos das embalagens, os pacotes com descontos proclamados em tinta fosforescente, com a sensação de renovação que sentíamos, de bem-estar, segurança e contentamento, induzida por esses produtos sendo levados para um lar confortável em nossas almas – tive a sensação de que havíamos atingido uma plenitude existencial que desconhecem aqueles que precisam de menos, esperam menos, que organizam a vida em torno de solitárias caminhadas ao entardecer.

Rodeado por fontes difusas de prazer e risco e por um ruído constante de opiniões irreconciliáveis, Gladney é incapaz de encontrar um ponto estável, que possa servir de referência. Essa dificuldade vai ser tornar mais dramática após Gladney ficar exposto em demasia a uma nuvem tóxica, fruto de um acidente de transporte de produtos químicos, dando-lhe a perspectiva de um fim prematuro. Sendo um personagem que já pensava com freqüência sobre a morte, Gladney fica mais absorvido no assunto. O problema é escondido da família, mas não de Murray, que entre outras coisas diz: “A pessoa passa a vida toda se despedindo dos outros. Como é que ela se despede de si própria?”. Paralelamente, e também em segredo, Babette está tomando uma medicação experimental que aliviaria o medo da morte via neuroquímica. Uma parte central da literatura trata direta ou inteiramente desse mesmo temor – e ao articulá-lo de forma não trivial em nosso mundo barulhento e disperso Delillo fez com Ruído branco um clássico contemporâneo.



[1] Tradução de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, 2003.

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