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Em "Pantaleão e as visitadoras", de Vargas Llosa, a sofisticação do risível está justamente nas sutilezas que o cercam e produzem o humor no seu sentido mais elaborado: no lugar que ocupa entre o cômico e o trágico

Cristina Betioli Ribeiro - (21/06/2008)

Diante do desafio de produzir uma obra de ficção baseada em um “fato real” que contraria todas as regras de boa conduta, Mario Vargas Llosa presenteia o leitor com um enredo de singulares dimensões humorísticas, em Pantaleão e as visitadoras (1973, em nova edição – 2007 – pela Editora Alfaguara). O assunto principal desta história é a organização de um “serviço de visitadoras” para as Forças Armadas peruanas, na cidade de Iquitos, com o intuito de “desafogar as ânsias sexuais das guarnições amazônicas”. Talvez por ter sido produzido ao mesmo tempo em que era feita a sua primeira versão cinematográfica (Pantaleão e as visitadoras, dirigido por José María Gutiérrez, 1975), do ponto de vista formal, o livro contém particularidades que o aproximam dos roteiros. As duas principais são o narrador quase-omisso e o destaque aos diálogos, que funcionam no interior de uma dinâmica pouco convencional. As conversas entre personagens que dialogam em locais e circunstâncias diferentes são justapostas e apresentadas ao mesmo tempo, até que o leitor se aperceba disso e se acomode no movimento da ação. Isso acaba por promover uma percepção visual das situações, melhor resolvida, talvez, no cinema, que dispensa a imaginação e pode trazer as alternações de falas acompanhadas das imagens dos falantes e dos lugares em que eles estão. Mas, quando o leitor finalmente se familiariza com a experiência literária proposta, pode deleitar-se com os interessantes efeitos que ela produz na interpretação da história.

As pequenas descrições narrativas que fotografam o comportamento dos personagens que estão falando, por exemplo, têm quase a finalidade de um parêntese e aparecem sintaticamente invertidas, como no fluxo de um comentário espontâneo: “– Quer dizer relações de amizade, general? – se engasga o capitão Pantoja./ – Não vai ser de amor – ri ou ronca ou tosse o padre Beltrán”. Esta fórmula narrativa, que sempre indica o sujeito da ação no final da descrição (nestes casos, breve, mas, por vezes, mais extensa) repete-se ao longo de todo o romance e tem constante efeito risível. Além disso, ofícios e correspondências também se encarregam de esclarecer o andamento dos acontecimentos que, como foi dito, dispensa o narrador tradicional. Neles, o registro de linguagem também é peculiar. Numa das cartas da personagem Pochita à sua irmã Chichi, por exemplo, o texto é repleto de “há-hás”, para simularem o riso em comentários debochados, tal como nos emails, hoje em dia.

Linhas cômicas – mas rumo ao trágico

A propósito, a sofisticação do risível, nesta obra, está justamente nas sutilezas que o cercam e produzem o humor no seu sentido mais elaborado: no lugar que ocupa entre o cômico e o trágico. A missão do Serviço de Visitadoras, proposta pelo Exército peruano, sob absoluto sigilo, ao recém-capitão Pantaleão Pantoja, é a de conter os anseios sexuais dos soldados isolados nas regiões fronteiriças da Amazônia. A necessidade do serviço aparece depois de constatados inúmeros casos de estupros e violência sexual contra mulheres, na região. Acompanhado da esposa Pochita e mimado pela mãe Leonor, o capitão é mostrado como um homem ingênuo, metódico e “politicamente correto”. Conhecido como um oficial dos mais caxias, depois de convocado para capitanear a missão, Pantaleão acaba sendo, ironicamente, um dos únicos sujeitos a levá-la a sério, atuando como irrepreensível gestor. Mas, quando o personagem se deixa seduzir pela arrebatadora prostituta “Brasileira”, o seu envolvimento com o trabalho extrapola a esfera profissional e o seu caráter é afetado por uma controversa humanização. O SVGPFA (Serviço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteira e Afins) ganha o apelido de “Pantolândia”. Pochita, que demora a descobrir a natureza do “serviço secreto” no qual seu marido trabalha, ao sabê-lo, abandona Iquitos com a pequena filha, nascida ali. O que começou na mais completa precariedade e era para ser sigiloso é, por fim, tão bem-sucedido e funciona tão perfeitamente, que desperta a curiosidade e instiga a hipocrisia. Numa terra de ninguém, propensa à corrupção, a fanatismos e à ação dos instintos, o serviço provoca alarde e contraria as expectativas do Exército, que turvadas pelos tabus e preconceitos, revelam-se ter sido, desde o início, pessimistas. Os que não lucram ou não são beneficiados pelo SVGPFA, como o radialista Sinchi ou homens religiosos, fazem fortes campanhas contra a sua manutenção. Em contrapartida, os que são favorecidos pela missão, como os soldados e, principalmente as prostitutas, que passam a ter vidas mais dignas depois de profissionalizadas, reverenciam a “Pantolândia”. Paralelamente, o Irmão Francisco e seus discípulos da “Arca” disputam as atenções locais agindo sob o ideário de uma fanática religião que crucifica animais. Conforme cresce a fama do SVGPFA, maiores são as atrocidades cometidas pela seita, que chega a sacrificar um menino e torná-lo conhecido como mártir. Intricados, todos estes acontecimentos estão sempre contornados pelo humor. Assim, o leitor se pega, constantemente, contendo o riso para se assustar e vice-versa.

Contudo, as linhas cômicas da narrativa vão abrindo cada vez mais espaço, no desfecho, para o trágico. Com os ânimos alterados, um grupo de homens planeja uma emboscada para interceptar o barco Eva e molestar as visitadoras. No episódio, muitos são feridos e a “Brasileira” morre no tiroteio com a polícia, que é acionada pelo rádio. O Irmão Francisco, a esta altura perseguido pelas autoridades, suicida-se, fazendo sua auto-crucificação. O ponto final para tantos excessos é a morte dos dois mais famosos representantes do sexo e da religião (essenciais temperos para os instintos), na inóspita Iquitos. Um respeitoso discurso fúnebre de Pantaleão à falecida “Brasileira” revela a origem secreta da missão e gera tanta indignação, que o Serviço de Visitadoras é oficialmente interrompido. O recém-capitão, rigorosamente orientado a sempre encobrir as ligações do SVGPFA com o Exército, é ameaçado de expulsão. Por ser um homem cuja ingenuidade ainda supera os preconceitos, “Panta” é involuntariamente celebrizado pelo escândalo.

Mesmo depois deste incidente, alardeado por toda a imprensa peruana, Pantaleão é mantido no Exército, embora seja ridicularizado por seus superiores e considerado um homem “estranho”. Com Pochita e a filha novamente ao seu lado, ele é transferido à Guarnição de Pomata, para cuidar de “lhaminhas e vicunhas”. Tudo começa de novo, na mais santa tranqüilidade, mas Pantaleão Pantoja permanece com uma “pulseira de prata, com o seu nome em letras douradas”, no braço. Presente das visitadoras, ele não a tira nem para dormir.



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