Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» A desigualdade brasileira posta à mesa

» Fagulhas de esperança na longa noite bolsonarista

» 1 de setembro de 2020

» O fim do mundo e o indiscreto racismo das elites

» O milagre da multiplicação de bilhões — para os bancos

» Movimento sindical em tempos de tormenta

» 31 de agosto de 2020

» A crucificação de Julian Assange

» Nuestra America: os cinco séculos de solidão

» Ir além do velho mundo: lições da pandemia

Rede Social


Edição francesa


» Les municipalités laissent mourir les centres de santé

» Samsung ou l'empire de la peur

» Main basse sur l'eau des villes

» Percées et reflux en Europe

» Délire partisan dans les médias américains

» L'Amérique latine a choisi l'escalade révolutionnaire localisée

» Le national-conservatisme s'ancre dans la société hongroise

» Au Venezuela, la tentation du coup de force

» « Tout ce qu'ils nous proposent, c'est de devenir flics ! »

» Les loups solitaires de Boston


Edição em inglês


» Nagorno-Karabakh conflict: its meaning to Armenians

» How will the US counter China?

» October: the longer view

» America, year 2020

» The ministry of American colonies

» America, the panic room

» Independent only in name

» An election result that won't be accepted

» Into the woods, it's nearly midnight

» Canada's cancel culture


Edição portuguesa


» Um resultado que ninguém aceitará

» Edição de Outubro de 2020

» Distâncias à mesa do Orçamento

» Falsas independências

» Trabalho na cultura: estatuto intermitente, precariedade permanente?

» RIVERA

» Edição de Setembro de 2020

» Cuidar dos mais velhos: por uma rede pública e universal

» Restauração em Washington?

» Cabo Delgado: névoa de guerra, tambores de internacionalização


CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Leres em tilt

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

— Sabe, adoro escutar essa língua.
— E você entende?
— Sim, claro. Sou brasileira.
— Ué. E por que não fala com a gente em português?
— Boa idéia! Sabe, j’aime beaucoup morar em Paris.

Daniel Cariello - (23/06/2008)

Um dia desses estava com amigos brasileiros no RER, o trem que liga Paris aos seus subúrbios, conversando normalmente no mais claro português. Numa das paradas entra uma mulher meio descabelada, olhos bem abertos e um meio sorriso que não saía da boca de jeito nenhum. Fica olhando pra gente um bom tempo e decide puxar assunto, em francês.

— Oi.

— Oi.

— Eu vi que vocês falam português.

— Sim, falamos.

— Posso sentar aqui perto?

— Claro.

Sentou e ficou nos encarando, o olhar perdidão, a cabeça a balançar e os pés que não paravam de bater alternadamente no chão, marcando um ritmo que só ela compreendia. Continuamos conversando sem dar muita bola. Do nada ela solta uma frase.

— Sabe, adoro escutar essa língua.

— E você entende?

— Sim, claro. Sou brasileira.

— Ué. E por que não fala com a gente em português?

— Boa idéia.

Até então, parecia que ela não tinha se dado conta de que estava se comunicando em outra língua. E fez um esforço para mudar a chave cerebral de idiomas do francês para português. Acontece que a dela estava em curto-circuito.

— Sabe, j’aime beaucoup morar em Paris.

— É?

— É. C’est très bonito.

— E o que você faz por aqui?

— Je trabalho.

— E não sente muita falta do Brasil?

— Moi? Não, não, não, não.

— Qual seu nome?

— Leres.

— Leles?

— Pas du tout. Leres. Repete.

— Leres.

E fez cada um de nós repetir, para ter certeza de que havíamos compreendido.

— Toi!

— Leres.

— Agora toi.

— Leres.

— Voilà. Et toi?

— Leres.

— Très bien. Vocês entenderam. Sabe, les gens não entendem bem. Acho que elas são un peu confusas.

— É, tem muita gente confusa no mundo.

— E você, o que faz aqui en France? Perguntou pra mim. E eu adoro conversas surreais.

— Eu vim com ela.

— Elle te trouxe?

— Sim, primeiro tentou trazer um índio e uma arara, mas o Ibama não deixou. Aí se contentou comigo mesmo.

— O Ibama c’est sempre compliqué.

Logo se dirigiu a um de nós e mudou totalmente de assunto. Tagarelou uns bons minutos sem parar, gesticulando, perguntando e respondendo pra si mesma, rindo do que dizia. Só que ela falou em francês. E o escolhido, um amigo que passava férias em Paris, não manja uma só palavra do idioma.

— Leres.

— C’est moi.

— Não entendi nada do que você disse.

E ela começou a repetir tudo, de novo em francês.

— Leres.

— C’est moi.

— Continuo sem entender.

Quando ia começar a repetir mais uma vez, chegou a estação na qual esse amigo precisava descer. Ele despediu-se de nós e saiu do trem. A Leres mudou de cadeira e veio falar baixinho no pé do ouvido, pra ninguém mais ouvir.

— Ton amigo não entende nada, né? Ni français e nem português.

— Ele tem dificuldade.

— Credo. Tenho horror dessas pessoas confusas. Vraiment.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Arigatô, monsieur
. No bairro chinês tem um McDonalds com cardápio em chinês. Ou em japonês, sei lá.
. Apesar de ter sido criado por um japonês, o Miojo e seus derivados são chamados aqui de "macarrão chinês".
. O bairro chinês, na verdade, fica na Praça da Itália.

Um quadro, três histórias
Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja

Salamaleque!
— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra. — Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir. — Bra bra bra bra bra loja... Gentil bra bra. — Que isso... Precisando é só chamar.

Roteiro de viagem — Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.

Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.

Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"

Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Literatura
» Chéri à Paris


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos