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LITERATURA

Os contos de Flannery O’Connor

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Há quem tenha comparado Flannery O’Connor com Tchekhov, o que pode não dizer muito, já que se popularizou certa idéia, bastante redutora, de que qualquer conto de “atmosfera” seria tchekhoviano. Mas a comparação pode ser procedente, se considerarmos a objetividade da frase de Tchekhov, e a materialidade de suas descrições, muito ao gosto de O’Connor

Gregório Dantas - (28/06/2008)

Nascida na Georgia em 1925, Flannery O’Connor faleceu ainda jovem, aos 39 anos, em 1964. Teve uma vida difícil: sofreu durante grande parte da vida de uma grave doença, lúpus, que já matara seu pai e a obrigou a viver toda a vida ao lado da mãe. Escreveu ensaios e romances (como Sangue sábio, sua estréia literária, de 1952), mas seria mais lembrada por suas histórias curtas, lançadas agora no Brasil em uma caprichada edição da Cosac Naify. O volume Contos completos de Flannery O’Connor traz 31 histórias, além de recomendações de leitura e um posfácio iluminador, assinado pelo escritor Cristóvão Tezza, material muito útil para o público brasileiro, pouco familiarizado com a obra da escritora.

Antes de examinar os principais temas e recursos estilísticos da autora, Tezza mapeia as características da literatura vinda do sul dos Estados Unidos e atenta para o fato de que, em um meio tão conservador, cabia ao escritor adotar uma postura crítica frente ao que via: “Um escritor, naquele meio, para merecer este nome, terá de ‘se fazer’, necessariamente, alguém de fora, e contra. Nas palavras irônicas de Faulkner, ‘viver em qualquer lugar do mundo em 1955 e ser contra a igualdade de raça e de cor é como viver no Alasca e ser contra a neve’”.

Escritora realista, comprometida com a realidade sulista, era inevitável que entre os temas de eleição de Flannery O’Connor estivessem o racismo e o fundamentalismo religioso. E um bom exemplo de como esses temas se entrecruzam é “Refugiado de guerra”, um de seus contos mais importantes. Enredo: a empregada de uma grande propriedade rural, Mrs. Shortley, vê com desconfiança a chegada de uma família de europeus, refugiados da Grande Guerra. Sua patroa, Mrs. McIntyre, é uma viúva que mantém a duras penas o comando de seus funcionários e a produtividade de sua fazenda, e vê como um pequeno milagre a chegada da trabalhadora família de expatriados.

Em questão, está uma rígida estrutura de castas, que poderia ser descrita na seguinte linha decrescente: brancos ricos, brancos pobres, negros. Que lugar ocuparão os refugiados nessa ordem social? A certa altura, sugere-se que, assim como as mulas um dia se tornaram obsoletas com a chegada do trator, os negros podem perder seu trabalho para os refugiados de guerra, um povo forte, ordenado e rigoroso cumpridor de seus afazares. Trata-se de uma visão de mundo arcaica, obviamente intolerante, legitimada por uma noção bastante dogmática de desígnios divinos. E a decadência desse sistema de valores fica evidente na maneira como os elementos estrangeiros, essas “pessoas deslocadas, como se diz”, desequilibram a ordem estabelecida, a ponto de fazê-la ruir, praticamente sozinha.

Há muitos personagens deslocados nos contos de Flannery O’Connor: solitários, pessoas em viagem ou sem pouso certo, como o senhor idoso do primeiro conto, “O gerânio”. Levado pelas circunstâncias a abandonar o lugar onde passou toda a vida para viver em Nova York, o velho Dudley sente-se preso no pequeno apartamento, indignado com a liberdade concedida aos negros e compadecido com o tratamento concedido a um gerânio, posto à janela do prédio da frente. O velho Dudley é um claro exemplo de um dos grandes méritos de Flannery O’Connor, a descrição de personagens ambivalentes, que nos causam repulsa e simpatia: apesar de ser representante do racismo mais enraizado, o leitor se compadece desse personagem sem lugar, e fora de seu tempo. A escritora fala da nostalgia sem que seu texto, contudo, seja nostálgico no sentido mais corriqueiro da palavra. Não há idealizações nem simplificações, a não ser por parte de alguns personagens.

Em relação à intolerância e ao fundamentalismo religioso, Flannery O’Connor, por ser católica, talvez tenha tido um maior distanciamento para descrever os rigores e o conservadorismo do modo de vida protestante, que dominava o sul dos EUA. Escritora assumidamente cristã, a literatura de O’Connor não é doutrinária, embora trate de temas como a responsabilidade moral, o pecado, a redenção e a fé. Muitos títulos de seus contos incorporam frases prontas ou expressões consolidadas pelo discurso religioso: “Os aleijados entrarão primeiro”, “Ninguém pode ser mais pobre que os mortos”, “Um templo do Espírito Santo”, “Um homem bom é difícil de encontrar”. Parecem ditados ou dizeres populares, destes que se repetem a todo momento e por gerações, como que evocando verdades eternas e imutáveis; mas a vida é sempre mais complicada, e a realidade dos contos nega impiedosamente tais certezas.

Além disso, os pecados se inscrevem nas faces e nos corpos dos homens. Mutilações e deficiências são comuns nos personagens de Flannery O’Connor. Em “A vida que você salva pode ser a sua”, uma senhora idosa assiste à chegada, em sua propriedade, de quem parece ser um vagabundo andarilho, chamado Mr. Shiftlet. Apesar de maneta, o homem é logo aceito para trabalhar na propriedade, e assume um discurso ético, da retidão moral. Infelizmente, a senhora e sua neta descobrirão, da pior maneira, que a vontade de reparação dos caprichos do destino não se alinha com o desejo nem com a índole pessoal das pessoas.

Destino e tragédia

O compromisso ético também está no cerne de um dos melhores contos do volume, “O barbeiro”, em que um homem educado e liberal enfrenta uma discussão política acirrada com um barbeiro e outros fregueses. A cada visita à barbearia, Rayber se prepara racionalmente e busca articular argumentos contra a intolerância e a grosseira redução de questões políticas a uma questão racial: “Não sou pelos negros nem pelos brancos”, diz, ao que o barbeiro responde que tal “neutralidade” é impossível, pois “agora só tem dois lados, o branco e o preto”. Mas contra os preconceitos mais arraigados, que parecem lógicos apenas para as mentes mais estreitas, não há argumentação possível. Neste sentido, Rayber vive uma frustração semelhante à do menino do conto “O peru”, que vê o troféu de uma pequena aventura pessoal ser tomado de suas mãos: ambos os personagens, poderosos em seus ideais de igualdade ou suas fantasias de heroísmo, são impotentes contra a força bruta ou as idéias preconcebidas. E o crescimento supõe a descoberta e o reconhecimento dessas forças.

Há, sem dúvida, algo de trágico nos contos de Flannery O’Connor: um acidente que, negligente ou não, liquida com a vida de um chefe de família; o encanto de um menino por uma cerimônia de batismo, que o leva a um perigo de vida; a chegada iminente de um animal feroz, que habita as redondezas, e cuja presença é pressentida pelos homens da terra; a posição indefesa de uma proprietária que vê sua fazenda “invadida” por garotos inofensivos apenas na aparência. O fato de haver muitas mulheres e crianças como protagonistas dessas histórias apenas reforça a idéia de fragilidade das pessoas frente a forças que não controlam. Talvez a reprodução mais terrível desse sentimento seja o conto “Um homem bom é difícil de encontrar”: o tom cotidiano e pitoresco de uma viagem em família adquire contornos de tragédia; contra a brutalidade, que irrompe sem aviso ou lógica, a não há ação possível.

Neste sentido, porém, vale recuperar novamente o ensaio de Cristóvão Tezza. Segundo ele, nos contos de O’Connor o trágico está destituído de sua dimensão mítica: em suas histórias, “a tragédia ocorre de escolhas deliberadas, nítidas, existenciais, claramente pesadas e pensadas. O mundo da autora não está ‘escrito’ em lugar nenhum; ele está sendo escrito por indivíduos”. Faz todo o sentido: à escritora verdadeiramente católica, interessa mais debater objetivamente a questão do livre-arbítrio (e suas conseqüências) do que sugerir que estamos todos nas mãos de uma Fortuna caprichosa.

Tudo isso em um estilo direto, seco, mas não necessariamente simples. Há quem tenha comparado Flannery O’Connor com Tchekhov, o que pode não dizer muito, já que se popularizou certa idéia, bastante redutora, de que qualquer conto de “atmosfera” seria tchekhoviano. Mas a comparação pode ser procedente, se considerarmos a objetividade da frase de Tchekhov, e a materialidade de suas descrições, muito ao gosto de O’Connor. Também como em Tchekhov, a autora não demonstra qualquer conivência com o destino de seus personagens. O escritor russo, em um conto como “Os mujiques”, por exemplo, descreve uma família de miseráveis brigando por restos de comida, sem, contudo, poupar o leitor de toda a mesquinhez humana, e sem idealizar de qualquer maneira o homem russo (como provavelmente fariam outros escritores de sua época). Do mesmo modo, O’Connor não poupa os personagens de seus castigos, nem atenua seus traços mais caricatos, de que resulta um tipo de humor bastante incômodo.

Mesmo o ato da escrita, representado no conto “A colheita”, tem seu lado ridículo: a pretensa escritora, ansiando por uma prosa que revelasse as misérias sociais, termina por compor fantasias, quase eróticas, sobre os trabalhadores a cuja memória pretendia fazer justiça social. Como uma declaração de princípios literários às avessas, a personagem não poderia estar mais distante da literatura de Flannery O’Connor. Uma escritora dura, muito talentosa, que se inscreve com louvor na melhor tradição realista norte-americana. Leitura obrigatória.



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