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Gente como a gente — ou algo parecido

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Diferente de muitos de sua geração, Miranda July não é dada a pirotecnias visuais ou malabarismos narrativos. Suas histórias são bem diretas, e os personagens densamente construídos

Alysson Oliveira - (28/06/2008)

A norte-americana Miranda July pode ser chamada, para usar um termo da moda, de multimídia. Escritora, cineasta, atriz e artista performática: por isso, não é nenhuma surpresa que as imagens sejam o que mais se destaca em sua coletânea de contos É claro que você sabe do que estou falando (Editora Agir), que acaba de ser lançada no Brasil. São todas carregadas de uma força que transita entre o lírico e o brutal, deixando assim uma impressão duradoura no leitor. “Na banheira, essa pessoa faz bolhas girarem e ouve o som de milhões delas estourando ao mesmo tempo. Isso quase faz um único som em vez de muitos minúsculos”, comenta o narrador em um dos textos mais interessantes do livro, “Essa pessoa”. As imagens das bolhas aliadas ao som das pequenas explosões criam um efeito sinestésico no leitor – uma característica que também percorre boa parte de obra.

Essa cena de uma pessoa imersa numa banheira cheia de espuma e bolhas estourando para todos os lados é apenas um exemplo do que a mente prodigiosa de July é capaz de criar. Mas seria um livro muito vazio, fosse suportado apenas por imagens. Em seu filme de estréia como diretora, Eu, você e todos nós (2006), ela colocou em cena uma série de personagens que seriam bizarros, não fossem as doses cavalares de humanismo com as quais ela os compôs. Assim, a escritora e cineasta se mostra hábil não apenas em criar tipos mas também em os dissecar de alguma forma dramática. O mesmo acontece nessa coletânea, que, generalizando, é um olhar carinhoso sobre os relacionamentos contemporâneos.

Como muito exploram o cinema e a literatura, há muito tempo estamos todos em busca de uma conexão. Somos seres isolados, vagando de um lado para outro em busca de alguém – ou algo – que nos complemente. Os personagens de July são essas criaturas típicas. “Aproximei a cadeira e encostei minha cabeça em seu ombro. (...) Adormeci e pensei que Vincent deslizava as mãos sobre minha blusa enquanto nos beijávamos”, confessa a narradora de “O quintal compartilhado”. Essa busca pelo outro, na maioria das vezes, resulta em frustrações que se multiplicam à medida que os personagens demonstram não saber lidar com elas.

Esse mundo de July – que parece colorido em tons claros e pastéis – é habitado por pessoas comuns, sem grandes ambições ou trabalhos glamorosos. Seriam gente como a gente, se a gente tivesse coragem de admitir que somos parecidos com eles. A maioria dos textos é narrada por uma protagonista feminina, o que dá um tom confidencial à narrativa, que sempre parece autobiográfica, mas pouco importa se de fato é. Estas são pessoas comuns, mas que fogem da idéia de gente comum dos contos de escritores como Tchekhov, Raymond Carver ou Alice Munro – e, talvez por isso mesmo, tão fascinante.

Era esse mesmo tipo de pessoas que transitavam no filme de estréia de July – que lhe rendeu o prestigioso Camera D’Or, no Festival de Cannes – e elas estavam em busca do mesmo tipo de conexões; por isso mesmo, É claro que você sabe do que estou falando faz sentido no universo ficcional de July, que combina um humor irônico com uma boa dose de melancolia.

Um quê de melancolia

Alguns dos textos estrearam em publicações de prestígio, como The New Yorker e The Paris Review, e são exemplos da melhor ficção norte-americana contemporânea produzida por escritores que não são os dinossauros consagrados. Mas, diferente de muitos de sua geração, July não é dada a pirotecnias visuais ou malabarismos narrativos. Suas histórias são bem diretas, e os personagens densamente construídos.

É nessas pessoas ditas estranhas e seu desejo de encontrar um algo mais que as torne menos infelizes – o que é diferente de torná-las felizes – que se apóiam as pequenas narrativas dessa coletânea. Relacionamentos familiares e amorosos são o combustível. Em “Mon plaisir”, a narradora e seu companheiro mal se falam – e quando o fazem, mal se entendem. Isso é o universo real deles. Num momento, quando fazem figuração numa cena de restaurante num filme, começam a conversar de verdade e levam uma bronca porque não podiam usar as suas vozes, apenas mexer as bocas. É nessa dicotomia, o real e o artificial, e todas as suas implicações, que duelam os personagens do livro.

Mas a observação mais aguçada sobre os personagens e seus relacionamentos está no último conto, “Como contar histórias para crianças”. Nele, uma unidade familiar nada convencional é formada meio ao acaso – tudo parece fugir do convencional, exceto o amor familiar. E July explora isso com delicadeza e sagacidade.

Segue um momento de uma sessão de terapia familiar:

— Eu preciso de paz e tranqüilidade e nada de brigas enquanto estou fazendo o meu dever de casa e dormindo. Preciso de uma mochila preta JanSport...
— Gatinha, isso não é bem uma necessidade emocional...
— Preciso que mamãe cale a boca e me deixe terminar a minha lista porque quem é ela para dizer se isso é ou não uma necessidade emocional. Preciso ficar na casa da Deb quando sinto que preciso.
Aqui Ed a pressionou.
— Você prefere morar na casa da Deborah?
— É, mas minha mãe não gosta disso.
(Mãe abre a boca e então a fecha.)

É só um momento agridoce no meio de um conto que ainda reserva muitas surpresas ao leitor – como em tantos outros desse livro. Como esse, os contos de Miranda July transitam entre a melancolia e a graça de se viver numa prosa tão fluida quanto bela.



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