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Ao retratar o assalariamento de famílias adotivas, Foster Child expõe abismo social e alienação nas Filipinas. Mas o faz sem esquecer os laços de ternura que unem os pais de aluguel a seus filhos temporários, num sinal de que pode persistir humanidade, em meio ao que é precário ao extremo

Bruno Carmelo - (29/06/2008)

A primeira imagem que vemos é um céu azul e o topo de alguns prédios comerciais, expressões de um centro financeiro e rico. Alguns segundos se passam até que a câmera simplesmente deslize para baixo e nos revele que, num nível mais abaixo dos prédios, há uma enorme favela, cheia de ruídos de vozes infantis.

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"Ele é visivelmente um exemplo pego quase ao acaso, uma criança entre as várias outras que passam por uma situação semelhante"

A impressão sonora pode ser associada num primeiro momento à alta natalidade entre famílias pobres, principalmente em países subdesenvolvidos (estamos nas Filipinas). Mas o caso aqui é um tanto particular: essa comunidade é composta de famílias adotivas, que cuidam de novos bebês até a entrega para adoção.

Este grande berçário é ao mesmo tempo o símbolo do nascimento e da decadência, revelada nas condições precárias de vida dos moradores. Esgoto a céu aberto, sacos de lixo pelos corredores estreitos, centenas de crianças percorrendo o chão de barro: o diretor Brillante Mendoza apóia-se na estética da câmera no ombro (sem steady cam, assumindo a instabilidade da imagem) para transmitir a noção de um caos estável, que pode nos parecer mesmo claustrofóbico (cada centímetro da imagem é repleto de gente, de objetos, de gritos, de movimento), mas que se insere de modo orgânico naquele ambiente que nunca conheceu funcionamento diferente.

John John é um garoto mestiço criado por uma das mães adotivas da comunidade. Ele é visivelmente um exemplo pego quase ao acaso, uma criança entre as várias outras que passam por uma situação semelhante. A narrativa concentra-se no dia especial em que, após três anos cuidando de John John, a família deve entregá-lo aos novos pais adotivos.

Após três anos cuidando de John John, a família deve entregá-lo aos novos pais adotivos. Os filhos já pensam no próximo a vir: “mãe, na próxima vez podemos adotar uma garota?”

É belíssima a maneira como o diretor lida com a dor dessa perda simbólica. O pai simplesmente parte para o trabalho em silêncio, e percorre as ruelas cheias de vida num recolhimento dolorido. Os filhos já pensam no próximo a vir: “mãe, na próxima vez podemos adotar uma garota?”.

Mesmo que a relação com essas crianças se traduza em um salário mensal, é inegável o carinho e a boa intenção dessas mães, em especial a de John John. “Eu não sei fazer outra coisa”, ela diz. Quando encontra um garoto de quem cuidava nas ruas da cidade, ela corre em sua direção, chamando-o de filho. A nova mãe, assustada, foge com o garoto.

O diretor desenvolve uma descrição sintomática não somente da reestruturação familiar mas também do abismo social que separa ricos e pobres nas Filipinas. Quando a mãe de John John visita o luxuoso apartamento da nova família do garoto, o filme transforma-se numa análise mordaz da sociedade de classes, mesmo que os ricos em questão nunca sejam tratados como vilões (como alienados, talvez).

John John é deixado e sua mãe parte confusa, perdida pelos corredores de mármore e de vidros. Ela não acha a saída, e o desespero a faz soltar um choro tímido e profundamente angustiado, acompanhado de uma trilha sonora tão bela quanto discreta. Sentimental sem ser sentimentalista, esse final estampa a angústia do não-pertencimento a um ambiente rico que lhe tira o filho e a menospreza. Ela parte, sozinha, de volta à favela.

Foster Child (2007)
Filme filipino dirigido por Brillante Mendoza.
Com Cherry Pie Picache, Eugene Domingo, Jiro Manio.
Duração: 1h38.

Confira as fotos do Filme:

Fotos

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

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Nova obra de Eduardo Coutinho é um "filme-tese" complexo e surpreendente. Ao embaralhar verdade e ficção, em depoimentos de mulheres que falam de parto e morte, diretor parece interessado em questionar as barreiras entre a representação do real e a do imaginário

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