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LITERATURA

Um discurso, quando o desejo é calar

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Somos criados para aplaudir a mais dramática das desgraças; estamos acostumados a rir do sofrimento e derreter de comiseração pelas misérias. Mas a reação que temos diante de uma alegria pacata, digamos, de atirar pedrinhas no lago, é bem diferente. Bocejamos, viramos a página, mudamos de canal. A bonomia é coisa muito fastidiosa, sobretudo a dos outros

Diego Viana - (05/07/2008)

A moleza, coisa da satisfação com a vida, mesmo que momentânea e ciente de sê-lo; a leveza do corpo, dos panos, sem dúvida de toda a atmosfera; o afã de transportar-se para o céu aberto, onde os outros todos estão esparramados pela grama, imóveis como lagartos debaixo do sol, molengas e expondo as veias azuis. Eis aí as ameaças mais críticas à ambição autoral e aos compromissos do intelecto, essa pobre faculdade reclusa e noturna.

Frio e treva, conjugados, endurecem o coração. Apertam-no e o sufocam, até que ele se surpreende sublimado em impropérios. Nada produz maior vontade de criar e produzir do que essas palavras pedregosas debaixo da língua. Ainda que mitigada, transposta, escamoteada, a arte muitas vezes é só outra palavra para imprecações esculpidas. Daí a violência com que o pianista ataca suas teclas e o pintor mistura suas cores. No fundo, o caso é de massagear materiais, já que as mãos não alcançam o fundo do peito.

Mas de repente vem a luz, os lagos degelam, peixes saltam, os impropérios dão lugar a suspiros de mal disfarçada paz. E o que fazer dos suspiros, se eles distendem aquelas fibras enrijecidas e sardônicas que o artista massageava... Ninguém quer saber de cenários estáveis, agradáveis, leves; isso é o que há de mais besta no mundo. Será possível, então, que o deleite seja um estado estritamente pessoal?

Pois é o que parece. Somos criados para aplaudir a mais dramática das desgraças; estamos acostumados a rir do sofrimento e derreter de comiseração pelas misérias. Mas a reação que temos diante de uma alegria pacata, digamos, de atirar pedrinhas no lago, é bem diferente. Bocejamos, viramos a página, mudamos de canal. A bonomia é coisa muito fastidiosa, sobretudo a dos outros.

Nem por isso é verdade o que se diz: que o pensamento amolece como o coração, nos climas mais quentes. Que perdemos o impulso de fantasiar e de raciocinar, de criar e de agir, satisfeitos com a prostração estival. Sensações e suor, em poucas palavras. Isso é falso.

Na realidade, a mente se excita com a energia térmica como qualquer molécula. Os neurônios se põem em marcha forçada, os rostos e detalhes que observamos já vêm como poemas, sem que interfira o menor traço de palavra. A ciclista que passa, veja, vestido solto e curto, faces queimadas, já é, sem mais, um soneto mudo em três dimensões e movimento ininterrupto. O brilho da pele, debaixo do sol, é bem mais eloqüente do que a métrica de Baudelaire.

Entra então em ação a próxima ameaça. Que fazer, se nem podemos tomar nota! Aquela infinidade de bolsos, em que metíamos carteira, telefone, câmera, livro e, finalmente, o indispensável caderno de anotações, reduziu-se da noite para o dia a uma concavidade vagabunda na calça, onde, quando muito, escondemos uns documentos. Resulta que todos os fenômenos que acompanhamos com o prazer sinestésico do verão, as visões de que quisemos desfrutar com um paladar de lirismo, ou caem, de um lado, no esquecimento (o que pode até ser preferível) ou, de outro, nas garras vis da memória.

E a memória, acredite, é um perigo inevitável que ocupa no nosso cérebro o espaço que o caroço ocupa no abacate, para usar uma metáfora veranil e bem concreta. A memória distorce as impressões a seu bel-prazer, segundo o que há de mais recôndito e condenável nas nossas inclinações. Ela mistifica, falsifica e dramatiza toda realidade que lhe cai nas mãos. Assim, a tal ciclista se transforma em alguma espécie de deusa, uma miragem diáfana e dolorosa, quando, na verdade, era só uma moça que buscava manter a forma em cima da bicicleta.

A memória apaga das boas lembranças o que elas continham de menos desejável quando ainda eram fatos, não lembranças. Ou seja, a memória esquece por querer, ela não tem pudores de negar a própria natureza, quando e se lhe convém. A memória é uma raposa, tem alma de advogada. Sem poder tomar notas, escrever em casa, à noite, equivale a mentir desavergonhadamente.

Chega de libelo contra a memória. Mencionei algo sobre escrever à noite. Mas que noite! Pois quase não há. Quando o sol, que aliás anda do tamanho de uma laranja, começa a se aproximar das montanhas, nas cidades já estão todos jantados, pensando em ir deitar. E quando volta a clarear, é tão cedo que só os boêmios não dormem. Tão poucas são as horas escuras, que nem para um único verso há tempo. E aqueles notívagos que se livram nas madrugadas à "espectromaquia" e à arte, agora repousam, tomam sol, deixam se ofuscar o tormento dos espíritos. Todo o resto é protelado para sua estação de direito.

Indolência, não, essa é uma acusação muito grave. A atividade da alma, e sem dúvida a do corpo ainda mais, é tão constante quanto sempre e, quem sabe, até mais intensa. Será mais honesto dizer que os frutos desses impulsos não são embalados, nem exportados, mas se deixam consumir ainda no interior do próprio espírito. Não é nenhum crime; o intercâmbio, cedo ou tarde, vai se restabelecer, certamente num tempo de menos quietude e mais rigidez.



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