Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Aos super ricos, os super genes?

» A Ideologia da Mineração está em xeque

» Orçamento 2020 expõe o Bolsonaro das elites

» A esquecida questão da desigualdade energética

» Crônica de Cuba, em incerta transição

» “Direitos Já”: Uma perigosa contradição

» Cinema: Espelhos deformantes

» As mentiras da ciência a serviço do mercado

» Anatomia da próxima recessão global

» Passo a passo para frear a devastação da Amazônia

Rede Social


Edição francesa


» Les beaux jours de la corruption à la française

» Parler français ou la « langue des maîtres » ?

» Au Portugal, austérité et contestation

» Le piège du 11-Septembre

» Quand la gomme arabique fait tanguer l'Amérique

» Au Kosovo, la « sale guerre » de l'UCK

» L'école publique à l'encan

» Le régime de Khartoum bousculé par la sécession du Sud

» Les apprentis sorciers de la retraite à points

» Hongkong dans l'étau chinois


Edição em inglês


» September: the longer view

» Afghan peace talks: Trump tweets, Taliban fights

» An inexhaustible myth in times of extreme adversity

» What happened to social solidarity?

» Sudan: conflict, violence and repression

» Russia's appointed billionaires

» Another end is possible

» Arms sales: the Swedish model

» Soft power influence in the Arabian Gulf

» Life with bribes and kickbacks


Edição portuguesa


» Edição de Setembro de 2019

» Portugal não pode parar?

» Quem elegeu Ursula von der Leyen?

» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019


VOZES HISPÂNICAS-6

Jorge Gaitán Durán: a poesia no alto de um instante

Jorge Gaitán Durán: a poesia no alto de um instante

Imprimir
Enviar
Compartilhe

Uma impressionante fusão entre erotismo e morte, luz e sombra

Marco Catalão - (19/07/2008)


O poeta Jorge Gaitán Durán (1925-1962) tem um papel fundamental na literatura moderna colombiana: através da revista Mito, publicada graças à sua iniciativa, de 1955 até o ano de sua morte, o país se viu pela primeira vez em contato assíduo com as principais obras literárias e filosóficas do século XX. Divulgando nomes de, naquela época, circulação ainda restrita, como Jorge Luis Borges e Octavio Paz, Mito renovou o panorama cultural colombiano: foi em suas páginas que Gabriel García Márquez publicou pela primeira vez El coronel no tiene quien le escriba e o emblemático Monólogo de Isabel viendo llover en Macondo, em 1955.

Sua importância, porém, não se restringe à atividade de editor: sua atividade poética, de qualidade e intensidade irregulares, é um outro marco importante na literatura colombiana. Em seus melhores momentos, a poesia de Gaitán Durán realiza uma impressionante fusão entre erotismo e morte, luz e sombra, que pode ser sintetizada na imagem recorrente dos corpos deitados ao meio-dia: plenitude precária, em que, no próprio “abraço solar contra o destino”, já se insinua a sombra da angústia pela inevitável passagem do tempo.

Ao “outro mundo” de Novalis, o poeta opõe a fugacidade do que só pode ser apreendido por nossos frágeis sentidos: a borboleta branca sobre a rosa vermelha, o vinho tinto, as gotas de suor sobre a pele, a fragrância das frutas maduras. A sombra onipresente da morte parece intensificar a luminosidade desse instante subtraído do tempo, que dura o quanto dura uma vida — nada — mas que insiste em perdurar como memória e poesia.

Siesta

"Voy por tu cuerpo como por el mundo."
Octavio Paz

Es la siesta feliz entre los árboles,
traspasa el sol las hojas, todo arde,
el tiempo corre entre la luz y el cielo
como un furtivo dios deja las cosas.
El mediodía fluye en tu desnudo
como el soplo de estío por el aire.
En tus senos trepidan los veranos.
Sientes pasar la tierra por tu cuerpo
como cruza una estrella el firmamento.
El mar vuela a lo lejos como un pájaro.
Sobre el polvo invencible en que has dormido
esta sombra ligera marca el peso
de un abrazo solar contra el destino.
Somos dos en lo alto de una vida.
Somos uno en lo alto del instante.
Tu cuerpo es una luna impenetrable
que el esplendor destruye en esta hora.
cuando abro tu carne hiero al tiempo,
cubro con mi aflicción la dinastía,
basta mi voz para borrar los dioses,
me hundo en ti para enfrentar la muerte.
El mediodía es vasto como el mundo.
Canta el cuerpo en la luz, la tierra canta,
danza en el sol de todos los colores,
cada sabor es único en mi lengua.
Soy un súbito amor por cada cosa.
Miro, palpo sin fin, cada sentido
es un espejo breve en la delicia.
Te miro envuelta en un sudor espeso.
Bebemos vino rojo. Las naranjas
dejan su agudo olor entre tus labios.
Son los grandes calores del verano.
El fugitivo sol busca tus plantas,
el mundo huye por el firmamento,
llenamos esta nada con las nubes,
hemos hurtado al ser cada momento,
te desnudé a la par con nuestro duelo.
Sé que voy a morir. Termina el día.

*

Sesta

“Vou por teu corpo como pelo mundo.”
Octavio Paz

É a sesta venturosa sob as árvores,
o sol trespassa as folhas, tudo arde,
o tempo corre em meio à luz e ao céu
como um furtivo deus deserta as coisas.
Em tua nudez, o meio-dia flui
como o sopro do estio pelo ar.
Em teus seios trepidam os verões.
Sentes passar a terra por teu corpo
como uma estrela cruza o firmamento.
O mar ao longe voa como um pássaro.
Sobre o invencível pó onde dormiste
esta sombra ligeira marca o peso
de um abraço solar contra o destino.
Nós somos dois no alto de uma vida.
Somos um só no alto de um instante.
O teu corpo é uma lua impenetrável
que o esplendor aniquila nesta hora.
Quando abro a tua carne firo o tempo,
cubro com minha angústia a dinastia,
basta-me a voz para apagar os deuses,
me afundo em ti para enfrentar a morte.
O meio-dia é vasto como o mundo.
Canta o corpo na luz, a terra canta,
dança no sol de inumeráveis cores,
cada sabor na minha língua é único.
Sou um súbito amor por cada coisa.
Olho, apalpo sem fim, cada sentido
é um espelho instantâneo na delícia.
Olho-te envolta num suor espesso.
Bebemos vinho tinto. Estas laranjas
deixam seu cheiro agudo entre os teus lábios.
São os grandes calores de verão.
O fugitivo sol busca tuas plantas,
o mundo foge pelo firmamento,
preenchemos com nuvens este nada,
subtraímos do ser cada momento,
te desnudei junto com nosso luto.
Eu sei que vou morrer. Termina o dia.

***

El instante

Ardió el día como una rosa.
Y el pájaro de la luna huyó
cantando. Nos miramos desnudos.
Y el sol levantó su árbol rojo
en el valle. Junto al río,
dos cuerpos bellos, siempre
jóvenes. Nos reconocimos.
Habíamos muerto y despertábamos
del tiempo. Nos miramos de nuevo,
con reparo. Y volvió la noche
a cubrir los memoriosos.

*

O instante

O dia ardeu como uma rosa.
E o pássaro da lua fugiu
cantando. Nos olhamos nus.
E o sol ergueu sua árvore vermelha
no vale. Junto ao rio,
dois corpos belos, sempre
jovens. Nos reconhecemos.
Tínhamos morrido e acordávamos
do tempo. Olhamo-nos de novo,
reparando. E voltou a noite
a cobrir os memoriosos.

***

La tierra que era mía

Únicamente por reunirse con Sofía Kühn,
amante de trece años, Novalis creyó en el otro mundo;
mas yo creo en soles, nieves, árboles,
en la mariposa blanca sobre una rosa roja,
en la hierba que ondula y en el día que muere,
porque solo aquí como un don fugaz puedo abrazarte,
al fin como un dios crearme en tus pupilas,
porque te pierdo, con la tierra que era mía.

*

A terra que era minha

Unicamente para se reencontrar com Sofia Kühn,
amante de treze anos, Novalis acreditou no outro mundo;
mas eu acredito em sóis, neves, árvores,
na borboleta branca sobre uma rosa vermelha,
na grama que ondula e no dia que morre,
porque somente aqui como um dom fugaz posso te abraçar,
por fim como um deus me criar em tuas pupilas,
porque te perco, com a terra que era minha.

***

Sé que estoy vivo

Sé que estoy vivo en este bello día
acostado contigo. Es el verano.
Acaloradas frutas en tu mano
vierten su espeso olor al mediodía.
Antes de aquí tendernos, no existía
este mundo radiante. ¡Nunca en vano
al deseo arrancamos el humano
amor que a las estrellas desafía!
Hacia el azul del mar corro desnudo.
Vuelvo a ti como al sol y en ti me anudo,
nazco en el esplendor de conocerte.
Siento el sudor ligero de la siesta.
Bebemos vino rojo. Esta es la fiesta
en que más recordamos a la muerte.

*

Sei que estou vivo

Sei que estou vivo neste belo dia
deitado aqui contigo. É o verão.
Acaloradas frutas na tua mão
vertem seu cheiro espesso ao meio-dia.

Antes de nos deitarmos não havia
este mundo radiante. Nunca em vão
ao desejo arrancamos a paixão
humana que as estrelas desafia!

Eu corro nu rumo ao azul do mar.
Como ao sol, volto a ti, e a te enlaçar,
e nasço no esplendor de conhecer-te.

Sinto o leve suor da hora da sesta.
Bebemos vinho tinto. Esta é a festa
em que mais recordamos nossa morte.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos