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Lídia Jorge, esse amor exigente

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O vento assobiando nas gruas, oitavo romance da autora portuguesa, exige tempo e dedicação, mas recompensa com uma obra única, que perdura na mente após o fim da leitura

Marina Della Valle - (19/07/2008)

Os fãs já sabem: Lídia Jorge é um amor exigente. Em tempos de comunicação global instantânea, fast-food e falta de tempo crônica, seus livros demandam dedicação, reflexão, atenção e outros “ãos” que dependem essencialmente desse mesmo tempo, cada vez mais escasso. Apesar disso, a autora portuguesa se distingue pela popularidade e pelo alcance de sua obra, traduzida para várias línguas.

O motivo, é claro, está na recompensa à dedicação exigida: aliando extremo rigor na elaboração dos enredos e no manejo da língua a uma construção de personagens quase sobrenatural e à beleza rasgada de sua prosa, Lídia Jorge produziu obra única. A popularidade também se traduz em sucesso de crítica e reconhecimento em forma de prêmios literários, entre eles o da Associação Portuguesa de Escritores, o prêmio de ficção do PEN Club e o Albatroz, da Fundação Günter Grass.

O vento assobiando nas gruas, de 2002, publicado neste ano no Brasil, pela Editora Record, é, por sua vez, um dos livros mais exigentes da autora: são 538 páginas na edição original e 496 na edição brasileira, guardando um enredo que avança lento, no qual tensões, hiatos e silêncios formam o esqueleto de uma narrativa oscilante, que flui em passo próprio e às vezes elude para melhor preservar suas surpresas.

Trabalho meticuloso de linguagem

A rigor, a trama se desenvolve em torno de Milene Leandro, jovem de um decadente clã local, e Antonino Mata, membro de uma grande família imigrante cabo-verdiana. Mas seu personagem principal é a transformação inevitável da ordem das coisas, que degrada e renova, não sem deixar vítimas. O livro se passa em Valmares, aldeia imaginária que já foi cenário de outras obras da autora e recria seu Algarve natal. O elemento que liga essas duas famílias tão diferentes é uma fábrica caindo aos pedaços, outrora fonte da riqueza dos Leandro, então ocupada pelos Mata. É ali, na velha fábrica, que vai morrer a matriarca da família, cuidada apenas por Milene, enquanto os outros Leandro viajam.

Milene Leandro é um dos exemplos que alimentam a fama de Lídia Jorge, de ser capaz de criar personagens “vivos”. Mulher de 30 anos que, nas palavras da autora, “age como se tivesse 12”, Milene guia o leitor por esse labirinto de fatos e conseqüências, de ilusões que desmoronam, revelando pouco a pouco as diferentes camadas de uma realidade em processo acelerado de transformação, simbolizada pelas gruas do título, gruas operadas por Antonino.

No caso dos leitores brasileiros, a esses elementos soma-se a estranheza causada pelas diferenças entre o português brasileiro e o de Portugal – o que, no caso de uma escritora à vontade para explorar sua língua, responde por mais um aspecto da obra de Jorge: a maestria de sua prosa, o trabalho meticuloso com a linguagem, por vezes mascarado por seu próprio efeito arrebatador. Não há acasos na prosa da autora, lapidada de modo discreto, mas preciso.

E, como todo amor exigente, O vento assobiando nas gruas desperta nos leitores um certo elemento obsessivo, que perdura após o fim da leitura, enquanto os elementos finalmente se encaixam na imagem completa, revelada pouco a pouco, com subterfúgios tão elaborados quanto os das vidas que não têm nada de ficção. A relação com o livro se aprofunda em esferas que derivam leitura em si, em questionamentos e reflexões sobre a obra, o que toma tempo, dessa vez bem gasto.



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