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LITERATURA

Sobre a Flip 2008

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Cees Nooteboom e Fernando Vallejo – estávamos diante de duas realidades completamente distintas: a latinidade tosca e furibunda do sul-americano em contraposição à placidez fleumática do norte-europeu puro-sangue

Luiz Paulo Faccioli - (26/07/2008)

No intervalo entre duas das várias mesas da programação oficial da última Festa Literária Internacional de Paraty, quando a bem-educada platéia de instantes atrás agora se acotovelava num balcão, sem muita cerimônia, na disputa por um café, acabei esbarrando no cidadão que estava à minha frente. Tratei de pedir logo desculpas e já voltava minha atenção para as trapalhadas dos atendentes quando o ouço retrucar: “Não foi nada. O que é isso? Uma festa tão bonita, nem parece o Brasil...”. Passado um segundo de estranheza ante aquela afirmação, à primeira vista tão deslocada, logo ela passou a fazer todo o sentido. No subtexto estava sublinhado que a vítima do meu descuido negava-se a acreditar que a civilidade de um público disposto a pagar 25 reais para assistir a pouco mais de uma hora de conversa num auditório lotado pudesse ter sido deixada sobre as cadeiras, junto com os equipamentos individuais da tradução simultânea. Se lá dentro havíamos esquecido por alguns instantes nossa eterna condição terceiro-mundista, aqui fora o Brasil dos contrastes, nosso velho conhecido, nos aguardava ansioso. O rio Perequeaçu continuava a desaguar no oceano a poucos metros dali, uma trilha mal-cheirosa que culminava com a beleza da foz no fim da tarde. A simpatia dos balconistas contrapunha-se à precariedade do serviço, revelando o monopólio com seus vícios de sempre e o caráter brasileiro, lado a lado, sorridentes. Dois dias antes, enfrentáramos uma rodovia movimentada, em precárias condições de tráfego, ladeando uma paisagem litorânea estonteante. E agora participávamos de outra manifestação dessa que é a maior das vocações nacionais, e em toda sua plenitude: a festa, assim declarada e assumida, em torno da literatura. Nosso jeito despreocupado e descontraído de reverenciar a nobreza — ainda que seja, como no caso, essa que a arte evoca.

Contudo, a explicação para o sucesso desse que é considerado o mais charmoso evento literário do Brasil, apesar de ter nascido há apenas cinco anos, não cabe numa fórmula assim tão simples. Há um evidente contraste, sim, que leva a pensar em como um produto de tal qualidade consegue acontecer e prosperar nesta terra de gente tão graciosa quanto inculta. E a resposta pode ser encontrada lá no início, quando a inglesa Liz Calder, então contumaz freqüentadora de Paraty, imaginou que a cidade fluminense dispunha da infra-estrutura necessária para a realização de um grande festival literário internacional, nos moldes dos de Adelaide, Hay, Toronto e Edimburgo. Aliado a isso, a beleza natural e o povo hospitaleiro de um recanto que fora redescoberto pelo turismo havia apenas trinta anos (justamente quando se abriu a rodovia Rio-Santos, que hoje virou sinônimo de suplício para quem nela transita). Ou seja, a Flip nascia de um olhar estrangeiro para valores que os nativos nem sempre reconhecem e já pretendendo ter amplitude internacional, numa trajetória distinta da daquele que começa regional e vai depois se expandindo — e sem nunca conseguir se livrar de algum ranço peculiar de sua pequenez original.

O ouro da Espanha

Se o charme é o lado mais vistoso da Flip, por trás dele há uma série de outros detalhes distintivos, começando pelo fato de que a Festa se realiza no centro da pequena cidade, o que propicia uma facilidade ímpar de acesso à rede hoteleira e aos restaurantes — além, é claro, às várias lojas, alegria de quem não resiste a comprar alguma coisinha do belo artesanato local. Afinal, como eu disse, trata-se de uma festa, e ali ninguém se preocupa em parecer menos erudito por ceder a um desses reles impulsos de mundano consumismo.

Embora não se deva ter ilusões de que esse tipo de evento possa a curto prazo tornar-se acessível a toda a sociedade, a Flip pretende atingir a mais de um segmento de público. As ruas de calçamento irregular e casario colonial são naqueles dias tomadas por um mar de gente que exibe a diversidade típica do povo brasileiro. A toda hora topa-se com alguma celebridade, seja ela o escritor best-seller internacional convidado, seja o artista de tevê que veio em visita. De um lado do rio, a Tenda dos Autores, cujos ingressos se esgotam rapidamente e custam o ouro da Espanha para os padrões nacionais. Para se ter uma idéia, quem se dispuser a assistir a todas as 19 mesas, além da palestra e do show musical de abertura (este ano a cargo de Luiz Melodia), deve se preparar para um desembolso de 525 reais, sem dúvida uma tarifa de Primeiro Mundo. Do outro lado do rio, caso não se tenha conseguido os ingressos ou não se disponha de recursos para bancá-los, a mesma programação está disponível na Tenda do Telão que, como o nome indica, transmite o que acontece no palco principal a 8 reais a mesa, com direito ao equipamento de tradução simultânea e cadeiras iguais às da Tenda dos Autores. Contudo, caso os 8 reais ainda se constituam uma dificuldade — e não se pode nunca esquecer que para a maior parte da população brasileira esse preço continua sendo proibitivo —, na Tenda do Telão a programação pode ser assistida, de forma gratuita, de um espaço abrigado atrás das cadeiras, sujeitando-se o interessado a permanecer em pé. Talvez não seja essa uma situação ideal, mas ela é inegavelmente a mais democrática possível dentro das limitações físicas do local.

Os autores são as estrelas da festa e assim tratados por todos, dos organizadores ao grande público. Estreantes e veteranos, da casa ou de fora, por cinco dias todos adquirem milagrosamente igual status. A organização espera mesmo que o convidado permaneça em Paraty durante toda a duração da Festa. A platéia é atenta e parece estar livre daquela forma tão desagradável de tietagem que deixa às vezes um autor menos conhecido falando às paredes, enquanto se alvoroça, cacarejante e provinciana, à espera de uma atração mais célebre. É claro que a superlotação das tendas em certas mesas é reveladora das preferências do público, mas as diferenças não vão muito além disso.

Na condição de acompanhante de uma das convidadas, tinha eu passe livre na Tenda dos Autores para todas as mesas. Mas era humanamente impossível assistir a tudo. As mesas principais têm sempre o mesmo formato: juntam de um a quatro autores e um mediador; cada autor lê um trecho de sua obra; o mediador abre então a sessão de perguntas; por fim convida o público a também questionar os convidados.

Mediadores deixaram a desejar

A mesa mais concorrida foi a última de sábado e teve o excêntrico Tom Stoppard (um dos grandes dramaturgos da atualidade e a maior atração deste ano) apresentado por Luis Fernando Veríssimo. Stoppard, menos carismático do que julguei que exigia sua condição de super-astro, não chegou a entusiasmar uma platéia que contava com toda a constelação estelar da Festa, além de nomes como Pedro Malan, Gustavo Franco, Regina Casé e outros. O tcheco naturalizado inglês deu pouca importância ao formato do encontro e à presença do mediador, preferindo falar em pé. Escapou sem muita polidez de uma pergunta pertinente mas que julgou inoportuna e deixou o palco arrastando seu ego inflado.

Melhor havia sido a mesa imediatamente anterior, que juntou o holandês Cees Nooteboom e o colombiano desnaturado Fernando Vallejo. Este último havia dado uma bombástica entrevista na véspera, quando, entre outras declarações polêmicas, batera duro na conterrânea Ingrid Betancourt, recém-liberta das Farc. Assim, era esperado que ele protagonizasse outros momentos explosivos. Mas, para surpresa geral, Vallejo sossegou e acabou revelando um lado terno e até então desconhecido de sua personalidade. Colaborou para isso a figura serena e algo majestática de Nooteboom. O pensamento que me veio à mente era que estávamos diante de duas realidades completamente distintas: a latinidade tosca e furibunda do sul-americano em contraposição à placidez fleumática do norte-europeu puro-sangue. A atuação impecável do argentino Ángel Gurría-Quintana, melhor mediador desta edição, também foi decisiva.

Por falar na mediação, esse foi um dos aspectos em que a Flip deixou a desejar. Alguns dos mediadores se esqueciam freqüentemente que estavam ali para coordenar o debate e levá-lo a bom termo, preferindo tecer longas considerações críticas sobre a obra dos entrevistados a formular perguntas objetivas que visassem a estimular a discussão. Chegava a ser constrangedor flagrar gente gabaritada em entrevistar gente falhando nessa que é uma das regras mais comezinhas da atividade.

Outros convidados também tiveram participação marcante, entre eles a francesa Elizabeth Roudinesco, que escandalizou a platéia com a bizarrice de suas considerações sobre zoofilia e afins; o cearense Xico Sá, polemista de carteirinha que, dizem as piores línguas, encantou-se para além da conta com a boa cachaça de Paraty antes de subir ao palco; a portuguesa Inês Pedrosa, popularíssima do público, que se esbaldou brincando com a insegurança do mediador conterrâneo seu José Luis Peixoto; o alemão Ingo Schulze, cuja simpatia sobreviveu às falhas da tradução simultânea; o norte-americano David Sedaris, uma das mais divertidas mesas; a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, cujas sensualidade, classe e simpatia serviriam muito bem na composição de um símbolo feminino da Flip; a inglesa Zöe Heller, outra beleza exótica e inteligente que também provocou inquietações no público masculino; o quadrinista inglês Neil Gaiman, que assinou por mais de cinco horas naquela que foi a mais concorrida sessão de autógrafos; o italiano Alessandro Baricco, um dos maiores expoentes da literatura de seu país e dono de uma afabilidade cativante; o gaúcho João Gilberto Noll, que dividiu a opinião do público com sua leitura monocórdia e um exercício de reflexão sobre sua obra que faria a alegria de qualquer psicanalista. Além de Carlos Lyra, Humberto Werneck, Nathan Englander, Pierre Bayard, Pepeleta, Ana Maria Machado e tantos outros.

A Flipinha, destinada ao público infantil, acontecia na Praça da Matriz, toda ela decorada com bonecos que representavam personagens da literatura. O que mais me impressionou foi a solução simples e criativa dos livros infantis presos por cordas nos galhos das árvores. Assim, um pequerrucho podia escolher à vontade um dos livros, trazê-lo para perto de si, ler sua história e deixá-lo pendurado na árvore à disposição do próximo leitor. Era um espetáculo assistir àqueles livros todos despencando das árvores como se fossem frutos maduros à espera de serem consumidos. Já na Flip Etc., realizada principalmente na Casa de Cultura de Paraty, havia sessões de cinema, teatro, palestras, debates e uma oficina de criação literária.

* * *

Voltei de Paraty com algumas frases que ouvi por lá anotadas em meu caderno. Recorri a elas na busca de um fecho para este relato. E o que encontrei de mais adequado foi uma reflexão proposta por Inês Pedrosa. Ela comparou o escritor ao marceneiro e perguntou: onde já se viu um profissional, ao ser indagado sobre a qualidade de seu serviço, admitir que ele não é lá essas coisas? Um marceneiro que se preze vai sempre dizer que seu móvel é o melhor, o mais bem-acabado, que não há na praça outro igual. E concluiu com o óbvio: que o escritor, inexplicavelmente, é sempre o primeiro a duvidar da própria competência no ofício que escolheu.

Mesmo que haja uma Flip inteira para provar o contrário.



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