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LITERATURA

Em nome do pai

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Para encontrar prazer na leitura de O conto do amor, o leitor precisa suspender suas crenças e se entregar à premissa de Contardo Calligaris – acredite ou não em reencarnação ou vidas passadas

Alysson Oliveira - (26/07/2008)

Ao abrir o exemplar de O conto do amor, de Contardo Calligaris, publicado pela Editora Cia. das Letras, o leitor se depara com uma surpresa: quatro ilustrações coloridas e, diga-se de passagem, bonitas. Há duas opções: observá-las com atenção ou começar a leitura e aguardar até o momento em que elas sejam mencionadas. Um observador mais atento poderá descobrir coisas interessantes sobre as imagens mesmo antes de começar e leitura. Por isso, é melhor deixá-las para depois, pois o processo de investigação sobre elas faz parte do prazer desse romance.

A narrativa de O conto do amor, e é isso que importa, é simples e ganha fôlego como num thriller. Carlo Antonini começa relembrando que seu pai morreu há doze anos, e sente sua falta. A relação entre os dois nunca foi de muita proximidade. “Na minha lembrança, mesmo quando a família recebia hóspedes, meu pai oferecia sua presença, mas como uma espécie de aceno que vinha de longe, de um outro mundo que era sua paixão exclusiva: a pintura da Renascença italiana”, recorda.

Esse parágrafo de lembrança – num tom memorialístico que domina a primeira parte da narrativa – estabelece alguns temas que serão importantes no desenvolvimento do livro. A distância entre Carlo e seu pai sempre foi grande, e depois da morte paterna o protagonista não tem como recuperar o tempo perdido. O outro ponto é a pintura renascentista que guiará a condução da narrativa, uma vez que pintores e obras estão no centro do mistério.

O livro poderia, grosso modo, ser um Código Da Vinci em menor escala, mas Calligaris é sofisticado e inteligente demais para se deixar trair por modismos. O conto do amor é, em sua essência, a história da descoberta de uma identidade. Mas isso se dá de forma muito sutil, pois o protagonista investiga o passado do pai e o que isso acaba refletindo no seu próprio presente, numa jornada de autodescoberta.

O ponto de partida busca sua base num realismo fantástico, numa fantasia. Pouco antes de morrer, o pai diz ao filho que foi, numa vida passada, um dos pintores de uma famosa série de afrescos que contam a história de são Bento num convento perto de Siena. “Soube que eu tinha sido um dos pintores daquele claustro. Eu soube que havia passado anos da minha vida naquele lugar”, confessa o pai.

Para encontrar prazer na leitura de O conto do amor, o leitor precisa suspender suas crenças e se entregar à premissa de Calligaris – acredite ou não em reencarnação ou vidas passadas. O romance, em geral, é uma forma de narrativa que cria seu próprio mundo – e dentro dele tudo é possível, desde que o autor seja hábil a ponto de tornar críveis suas maiores fantasias. E esse é o caso aqui.

É na investigação que as ilustrações da abertura do livro se tornam úteis. Em sua jornada, Carlo irá cruzar com aquelas pinturas e elas serão cruciais para desvendar o passado – e a vida passada – de seu pai, e assim compreender a si mesmo.

Leitor cúmplice

Fragmentos de diários, cartas e depoimentos de pessoas que conheceram o pai de Carlo formam o que há de mais interessante no livro. Porém, ao contrário do que possa esperar, os personagens não têm lá muita densidade psicológica, pois compartilham do mesmo princípio da narrativa policial, na qual a ação prevalece. Isso acaba sendo uma surpresa, pois Calligaris é um conhecido psicoterapeuta italiano, radicado há cerca de duas décadas no Brasil.

Em seus artigos publicados no jornal Folha de S. Paulo, Calligaris investiga vida e alma dos brasileiros, com observações sempre acessíveis e pertinentes sobre assuntos contemporâneos, desde artes, como cinema e literatura, passando por temas do cotidiano. Há alguns meses, por exemplo, seu texto sobre a controversa morte da menina Isabela, jogada da sacada de um prédio na cidade de São Paulo, foi um dos mais lúcidos comentários sobre o assunto.

Por isso mesmo, muita gente pode entrar em O conto do amor esperando uma densa análise psicológica – e não vai encontrar. Calligaris se inscreve com esse romance curto na tradição da novela detetivesca – com a diferença de que, neste seu primeiro romance, não se procura um assassino, mas o passado de um outro personagem.

O título sugere uma história de amor, e o livro nos apresenta algumas. O fato de nenhuma delas trabalhar com proporções épicas transforma a leitura em algo bem plausível. O conto do amor é, em sua essência, um livro de leitura agradável e fluida. E o fato de Calligaris nunca subestimar a inteligência do leitor, mas fazer dele o seu cúmplice, é mais do que um ponto positivo na obra.



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