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LITERATURA

A Defesa Lujin – ou a precisão do texto

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Vladimir Nabokov escrevia um texto como quem tece uma estrutura delicada, respeitando a etimologia do texto como "tessitura", como tecido, algo que é mais tramado e costurado do que criado do nada.

Fábio Fernandes - (31/07/2008)

Vladimir Nabokov escrevia um texto como quem tece uma estrutura delicada, respeitando a etimologia do texto como tessitura, como tecido, algo que é mais tramado e costurado do que criado do nada.

Existem duas maneiras de se revolucionar uma narrativa (Borges diria que são duas dentre muitas outras, incontáveis, mas isto ocuparia muito espaço aqui): pela forma e pelo conteúdo.

Autores como Julio Cortázar, Ítalo Calvino e todos os membros do grupo OuLiPo [1] (do qual Calvino também participou), como Raymond Queneau e Georges Perec, tinham um carinho especial pela forma de suas narrativas. Sem nunca descuidar do conteúdo, eles impunham a si mesmos regras franciscanas (ou seriam jesuíticas?) para escrever seus textos.

Por estranho que possa parecer, essas restrições não criaram camisas-de-força, mas foram libertadoras para a narrativa desses autores. Foi através dessas regras auto-impostas que eles escreveram suas melhores narrativas: O Jogo da Amarelinha, de Cortázar, Vida – Modo de Usar, de Perec, Exercícios de Estilo, de Queneau – para ficarmos apenas em alguns exemplos.

Outros autores revolucionaram o conteúdo sem descuidar da forma. Um dos maiores autores do século XX a fazer isso foi Vladimir Nabokov. Escrevia um texto como quem tece uma estrutura delicada, respeitando a etimologia do texto como tessitura, como tecido, algo que é mais tramado e costurado do que criado do nada.

Por exemplo, Ada, ou Ardor, que se passa num outro planeta, em quase tudo igual ao nosso, a Antiterra, é uma incursão bizarra pela ficção científica para os padrões convencionais, ainda que de forma totalmente transversal – e dificilmente não seria vista como FC por ele, embora Margaret Atwood hoje siga uma linha semelhante, assim como Michael Chabon, que já declarou que Lolita e Fogo Pálido foram livros que mudaram sua vida. E também Thomas Pynchon, que chegou a freqüentar várias palestras proferidas por Nabokov.

Assim como Joseph Conrad, Nabokov era um poliglota que se exilou em outro país – mas, diferente do polonês Józef Teodor Konrad Korzeniovski (que só aprendeu inglês depois dos vinte anos e escreveu todos os seus contos e romances nessa língua), ele começou a escrever em russo, mas já morando fora da recém-criada União Soviética. Depois de morar na Criméia e na Inglaterra, Nabokov, já casado e pai de um filho, iniciou sua carreira literária com Machenka, romance escrito em 1926.

Escreveu dez romances em russo e nove em inglês. A Defesa Lujin, seu mais recente livro lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é de 1930, ainda pertencente à fase russa. A excelente tradução de Jorio Dauster baseou-se na tradução para o inglês, feita em 1964 pelo próprio Nabokov, junto com o biógrafo e professor Michael Scammell.

Enquanto Ada é um livro cuja narrativa se desenvolve à maneira de um romance oitocentista, desenvolvido numa linguagem de época (e já escrito na fase inglesa), A Defesa Lujin segue a mesma precisão de forma, oculta (mas nem tanto) pelo conteúdo quase metalingüístico.

Um fragmento de gente

A história do jovem Lujin, que desde cedo se vê como um peão dentro de um grande jogo cujas regras desconhece (a vida), e que casualmente acaba buscando refúgio dentro de outro jogo (o xadrez), é triste. Mas é uma história que, como nos melhores jogos de xadrez, nos atrai em busca do próximo lance, da próxima possibilidade. Assim, vamos acompanhando um mundo que se desenrola diante de um Lujin passivo: a sociedade decadente russa da virada do século XIX para o XX, a fuga para a Europa durante a Revolução de Outubro, a vida numa Berlim dos anos 1920, antes do horror nazista.

Sempre como uma peça de xadrez, Lujin acaba até mesmo se casando, embora não leve o menor jeito para a coisa (é uma incógnita se ele e a esposa fizeram sexo em algum instante de sua relação). E, embora seja considerado um gênio precoce do xadrez e um dos grandes jogadores de seu tempo, como pessoa Lujin é quase um nada, um fragmento de gente que é desprezado pela família de sua esposa (a sua já não existe mais, e seu tutor, que o explorou enquanto pôde, o abandonou) e ignorado como enxadrista.

Ainda assim, Lujin continua – pois, como uma peça de xadrez, só sabe fazer uma única coisa. Até que ele é posto em confronto com um grande mestre italiano, Turati, em uma competição para definir quem enfrentaria o campeão do mundo. Tendo estudado todas as jogadas de Turati, Lujin se surpreende quando o italiano inicia a partida com uma jogada completamente nova, quase improvisada – o horror de quem, como Lujin, define sua vida pela precisão e pelo antecipado.

Incapaz de continuar, Lujin sofre um colapso nervoso, e o jogo é suspenso. Por ordens médicas, ele é considerado incapacitado para o xadrez, o que interrompe uma vida já sem qualquer outro sentido. Lujin só não definha graças ao zelo de sua esposa, que faz de tudo para que ele se entrose com sua família e seus amigos. Ele se deixa levar, até que, um dia, um fato absolutamente inesperado o faz retomar em sua mente a partida interrompida – o que provocará conseqüências trágicas. Ou não. Porque não faz a menor diferença no final das contas. Embora Lujin talvez não estivesse consciente disso, a vida, assim como o xadrez, tem uma regra de sobrevivência simples e terrível: quando alguém se vai, é preciso recomeçar. Limpar o tabuleiro e colocar todas as peças novamente em seus lugares originais. E seguir jogando.



[1] O grupo francês OuLiPo – Ouvroir de Littérature Potentielle (Oficina de Literatura Potencial), fundado em 1960 por matemáticos e literários, tinha a proposta de criar sob restrições que seus próprios membros se impunham, fazendo uma aposta na técnica em oposição ao conceito de inspiração.

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