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Qual seria a desse cara? Por um instante imaginei que talvez sua preferência sexual fosse outra, e isso me deixou preocupado, ou talvez aquilo ainda fosse parte de algum plano macabro

David Oscar Vaz - (31/07/2008)


Talvez secretamente ele intuísse que ser libertino, conforme sua natureza, era ser livre, mas deixar-se levar pela libertinagem era a mais tentadora e mesquinha das prisões. Era um homem sedutor, sim, claro que era, desses que se defendem pela sedução. No início quase me enganei com ele, com suas estórias tão despojadas, depois descobri: era a maneira de despir-se no mundo e de despir o mundo, com toda a malícia, mas sem a vergonha alguma que a nudez exige. Era a sua busca de si. Confesso que mergulhar nas suas estórias foi para mim uma experiência, um ensaio para a liberdade. Rodrigo – basta esse nome – num momento, interrompendo a narrativa, me perguntou com real curiosidade: e o seu marido, ele gosta que outros homens se sintam atraídos por você? Não sei se ele percebeu a mudança na minha respiração. Depois, mais tarde, recordei, não sem algum calor, que Luca também gostava de ver que minha beleza impressionava os olhos de outros homens; mas até aí chegava, eu acho, o limite de sua vaidade masculina. Às vezes imagino que contar a estória com tanta riqueza de detalhes era para Rodrigo uma maneira particular de rememorar a excitação, ou isso, ou uma maneira particular sua de também me deixar excitada?

Quando o conheci, ele já estava próximo dos cinqüenta anos, mas, quando do caso narrado, devia ter seus trinta e poucos, e nessa época já fazia uns dois que estava separado da esposa. Sua voz, levemente rouca, ainda sopra nos meus ouvidos: quer ouvir o caso, doutora; inusitado e delicioso? E sorriu como se esperasse uma comprovação minha, que não dei, e ele começou assim mesmo...

Conhecia o casal Roberta e Sérgio Fortunato já bem há uns oito anos, mas só ultimamente os freqüentava com mais assiduidade. Não sei, não, nesses dias era como se estivesse começando a conhecer Roberta de novo – disse Rodrigo, e a lembrança da sua voz arranha as portas do meu desejo e contamina o tom da minha voz com o tom da dele nas coisas que tenho a dizer, e assim Rodrigo continuou – Preparava-me naquela noite para ir jantar na casa deles. As duas camisas sobre a cama esperavam de mim uma decisão, seria a azul ou a branca? Quando disse para Roberta que o azul tinha nascido para ela, observou que era uma sorte que eu tivesse escolhido a medicina como profissão, pois o branco era a minha cor. De fato achei que a camisa branca era mesmo a mais bonita.

Quando a conheci, Roberta era ainda quase uma menina: vinte anos, casadinha de novo e professora do meu filho caçula. Lembro que gostava de meu jeito e das minhas brincadeiras. Notei mesmo que tinha uns olhares longos para cima de mim. E num dia, numa das festas da escola, houve um momento em que ficamos sós, e ela estava tão atraente naquele dia que não resisti, fiz-lhe um carinho na mão e disse que me sentia muito atraído por ela. Roberta retirou sua mão da minha e apagou o sorriso que havia se desenhado para meus olhos:

— Sou casada, seu Rodrigo.

Aquele seu, tão pequeno e tão cerimonioso, anteposto devidamente ao meu nome, me empurrou de repente para quilômetros de distância dela, mas não me dei por vencido:

— Eu também sou, mas não estou convidando minha esposa para sair, nem pedindo para que você deixe de viver com o seu marido. Você é muito bonita! Estou apenas convidando uma mulher bonita para sair comigo. Um jantar, vamos?

Roberta continuou séria, e séria estava quando repetiu que era casada pela segunda vez, então pensei que, ou havia interpretado mal uns olhares e uns falares, ou seria puro disfarce o aparecimento repentino daquela severíssima Roberta. Sou casada. A frase repetida era a pedra posta em cima das minhas intenções libidinosas, ou era a pedra posta mais adiante, no meio do caminho entre nós, para aumentar ainda mais o meu desejo. Continuei cantando minha deliciosa professorinha, e como continuei brincando, e brincávamos muito, acabamos por nos tornar aquele tipo de “amigos com segundas intenções” que nunca chegam ao cabo. Tempos depois foi que vim a conhecer Sérgio e, por um motivo profissional muito específico, acabei me ligando a ele. Senti que minha relação com Roberta passou para outro nível, agora os visitava e jantava com eles algumas vezes. Sérgio lidava com “importação” de produtos médicos. Aquela era uma época difícil, de inflação alta e importações fechadas, e eu tinha que me virar como chefe de uma clínica de minha propriedade aqui em Guarulhos para conseguir manter o estoque de instrumentos e remédios que vinham de fora. Foi uma sorte conhecer o Sérgio, ele me conseguia o necessário a um preço civilizado. – O governo é que nos força a fazer as coisas por baixo dos panos – justificava, e depois de um silêncio, concluiu com a autoridade de um moderno sábio, o sábio dos sábios, a legenda antiga – na aparência é que é preciso ser honesto.

Se bem que Sérgio não achava que enganar o governo fosse, na essência, alguma desonestidade, era um cara legal com os clientes e com os amigos. Ia assim se fazendo com as oportunidades do momento: era ainda moço e já tinha arrancado da vida um apartamento num condomínio de luxo no Jardim Maia e acabado de comprar também uma casa na Riviera de São Lourenço. O casal não tinha filhos, e Roberta ia ficando mais bonita, e por que não dizer, mais gostosa. A gente se convivia, não intensamente, mas se convivia. Roberta conheceu uma ou outra namorada minha e algumas confissões, mas eu nunca mais me atrevi pra valer com ela.

Dito isto, vamos a nossa estória, porque de fato ela começa aqui, exatamente duas semanas antes daquele episódio com as camisas. Era um pequeno jantar na casa de Sérgio, e nesse jantar havia uma moça chamada Lia, amiga de Roberta. Eram muito íntimas as amigas, como percebi, as duas riam como quem traçavam segredos. Lia tinha a mesma idade de Roberta e sua conversa agradável e inteligente, sedutora nas falas e nas pausas. Uma mulher de espírito livre, pensei, apesar de um pouco submissa às opiniões de Roberta. Talvez houvesse entre esta e o marido uma relação semelhante. Não sei por que pensei assim, mas pensei. Mas deixemos Roberta de lado, minha atenção esta noite era quase toda de Lia. Sorri num momento para Roberta e imagino que meus olhos já denunciavam minhas pretensões para com sua amiga. Houve um momento particular, quando Lia parou no meio da sala com um copo de bebida e depois curvou-se para colocá-lo sobra a mesinha de centro, percebi o rendado por baixo da saia branca, o corpo se redesenhava com a mudança de posição, os músculos e a pele mais apegada aos panos me entraram de tal maneira pelos olhos que imaginei-a nua. Sim, nua, totalmente pelada, ali, no meio da sala e, como já havia bebido um tanto e estava suficientemente relaxado, a excitação que senti, devo dizer, foi enorme. Meus olhos iam imaginando. Acho que Sérgio notou meu desejo por Lia, pois num momento sorriu com malícia. Depois voltou ao assunto de que tratava, garantia meu anfitrião que minha encomenda chegaria logo, coisa de no máximo duas semanas, e o preço era excelente. As duas mulheres foram chegando e participando da conversa, e a conversa tomou outros rumos mais amenos. E assim a noite foi chegando ao fim e nada de extraordinário aconteceu. No dia seguinte à tarde, liguei para Roberta. Agradeci o jantar, a noite foi muito agradável, rodeei um pouco, mas logo não resisti:

– Você sabe por que estou ligando, não?

– Não!

– disse Roberta não sem alguma malícia.

– Sua amiga... Ela andou mexendo comigo.

– Ah!... – Roberta riu – a Lia!

– Bom, minha graça, você podia fazer uma boa ação por esse amigo, não é?! Eu fiquei muito encantado com sua amiga. Então... Vou direto ao ponto, quero sair com ela. É isso aí... Como dizem os garotos, eu quero aquela mulher no meu filme. E você... Bem que podia me ajudar...

– Sei... O que você quer é que eu faça uma ponte entre vocês dois, como dizem os garotos?

– Isso, acertou... Você faz?

– Mas, meu amigo, você tem um coração muito safado! Olha, até faço o que você está querendo, tenho é dó desse seu coração safado, mas um dia ainda vou cobrar esse favor, hem!... Brincadeira!... Eu me sinto até gostando de fazer isso. Mas, olhe... – e continuou depois de uma pausa

– Sabe que hoje todo mundo resolveu me ligar. A Lia telefonou logo cedo, e eu, como sua fada madrinha, já tenho uma boa notícia para você. Adivinhe de quem foi que ela mais falou?

– De mim?

– Ela ficou des... lum... bra... da! Disse até que sonhou com você. Deixa comigo, vou falar com ela, e prepare-se, meu amigo, você vai ver... a Lia é muito legal!

E Roberta cumpriu com afinco sua função de fada alcoviteira: dois dias depois dessa nossa conversa, estava eu saindo com sua amiga. E foi como o esperado, Lia era deliciosa, vou tentar conter a linguagem, doutora, só não sei se consigo, porque Lia era fogosa e... Não direi mais nada, resumo de Lia: sacana e linda! Que mais? Os acontecimentos que virão é que são mais. Aguarde, doutora, e ouça porque o melhor vem no fim. Dois dias depois do meu encontro com Lia, Roberta me ligou. E, adivinhe a novidade, minha amiga agora é que estava se derretendo toda ao telefone.

– E então foi tudo ótimo, não! – disse Roberta – A Lia adorou! Meu Deus, o que é que você fez com a menina?

– Ela te contou, então?

– Assim, assim. Falou do motel, do seu bom gosto, de como você é um gentil, um gentleman! – e depois de um estratégico silêncio completou

– E também disse que é um garanhão.

– Ela disse isso?

– Disse pelas coisas que contou. Nossa, Rodrigo!... Eu não te imaginava assim... Tão assim!

O tom da voz de Roberta também tinha um balanço de malícia. A minha aventura com a amiga despertava nela não sei que desejo interdito.

Então eu disse:

– Vai dizer que você também andou sonhando comigo?

Roberta fez silêncio, que foi breve; indecisão momentânea. Estava minha amiga arrependida do que dissera ou querendo apostar todas as fichas no tesão que devia estar sentindo por mim e pela situação, e falou, por fim, desta maneira:

– Não, não sonhei, mas gostaria de sonhar.

Outro silêncio... Quebrado agora por mim.

– Então aceita o convite que fiz há oito anos?

Roberta riu:

– Você não esqueceu!... Nem eu. Queria sair, mas...

– Você ainda tem medo?

– ...

– Vamos sair só para jantar, está bem!

Calculei que com Roberta as coisas teriam que ser aos poucos, ela me queria, já não tinha dúvida, mas pela ordem queria o gentleman, depois o garanhão que viesse a sair do gentleman. Ao desligar o telefone, tive uma outra certeza, surpreendente, porque revelava para mim o que em mim já havia: naquele jantar, no fundo, meu desejo não era tanto por Lia, mas por Roberta.

Não preciso contar detalhes do nosso encontro, um só diria toda a noite. O jantar com Roberta aumentou ainda mais o que sentíamos, mas o jantar do dia seguinte, o jantar com ela e com o marido, este sim, é que foi uma coisa! E é aqui, doutora, é aqui que começa mesmo esta estória. Quando cheguei à casa dos meus amigos, Sérgio me recebeu com o mesmo entusiasmo de sempre e Roberta um pouco mais retraída, talvez temesse deixar escapar alguma palavra, algum olhar, algum gesto, que pudesse denunciar a escapadela da véspera, mas o calor que senti no seu abraço me dizia que por debaixo da cerimônia das boas maneiras tecia-se em rendas um caloroso desejo.

Depois, enquanto Roberta nos deixou por um instante, eu e Sérgio acertamos nossa transação comercial, era este, aliás, o motivo declarado do jantar. Feita a obrigação, o resto da noite era de prazer: o jantar foi delicioso, e a conversa não menos do que isso...

– Espero que você tenha ficado contente mesmo com o preço. Tá barato sim, acredite, fez um bom negócio; bem, do que necessitar mais, já sabe...

– Mas isto não precisa nem dizer, Sérgio, se está barato se está caro, que é que eu posso fazer, estou nas suas mãos – e fiz um gesto de quem está algemado, e meu fornecedor sorriu:

– Então está em boas mãos!

Roberta veio depois nos servir um frisante gelado, porque a noite estava quente e aquela bebida nos refrescava e ao mesmo tempo nos aquecia para o jantar. Podendo não tirava os olhos da dona da casa, vi-a dispensar a cozinheira dizendo, para a felicidade da empregada, que não deveria vir no dia seguinte. Eu também, lembrei-me com gosto, não teria que levantar cedo. Olhando Roberta dispensando a cozinheira e relembrando o jantar da noite anterior, concluí que se forçasse um pouco poderia ter ido com minha amiga do restaurante direto para um motel e coroada a noite com uma grandiosa trepada. Mas eu mesmo havia me contido, não tinha que precipitar as coisas, também estava curtindo muito todas essas preliminares.

Terminamos o frisante e fomos ao jantar. Sérgio estava muito gentil com a esposa. Roberta se vestia até que com simplicidade, não fosse um decote mais acentuado; a saia rodada respeitava minimamente as curvas do quadril; era na maquiagem, no entanto, que Roberta havia procurado ser um pouco mais enfática. Quando a esposa se ausentava, Sérgio gostava de me ouvir falar de minhas aventuras com outras mulheres, mas acho que tinha mesmo uma paixão especial pela esposa, era do tipo que gostava quando outras mulheres olhavam com inveja para Roberta e, depois dessa noite tive certeza, que também quando outros homens olhavam para ela cheios de desejo.

O jantar foi bom. Sérgio falou de sua casa na Riviera de São Lourenço, de que eu devia mesmo conhecê-la e até marcamos para o próximo final de semana uma ida até lá. Lia também podia ser convidada, disse, e notei que Roberta não fez uma cara muito animada. Foi um jantar quase frugal, apesar de saboroso, arrematado com merengue e sorvete fino, o qual devia dar muito prazer à Roberta que saboreava cada colherada com bastante lentidão.

Quando terminamos a sobremesa, levamos nossa conversa à sala de estar, que era um prolongamento da de jantar, e ali havia música e um licor que deve ter sido destilado no colo feminino de algum anjo. Acomodei-me num sofá; à minha frente num outro igual, Sérgio deixou-se cair; à minha direita, numa poltrona, sentou-se Roberta cruzando as pernas e fazendo subir um pouco a saia. A mesinha do centro que separava os dois sofás, onde Lia colocara o copo no jantar anterior, havia sido deslocada para um canto. Meu amigo retomou o assunto da casa da praia, de como havia ficado bonita e de como a esposa gostava de lá. E falamos disso e daquilo até que Sérgio puxou por um assunto que, durante o jantar, havia apenas passado de leve por nossas conversas, era sobre um certo biquíni que ele havia escolhido para Roberta.

– Você precisa ver que lindo que é! Mais que lindo, uma coisa! Não, você precisa ver, a Roberta ficou gostosíssima nele! Sérgio tomou um jeito muito fogoso de falar e por duas ou três vezes o biquíni vestiu e despiu Roberta naquela nossa conversa.

– Desse jeito, você me deixa curioso demais. Já estou querendo ver esse tal biquíni – disse olhando para o homem e para a mulher.

– Mas claro, tem que ver mesmo. E verá que estou certo! Espera um pouco – E dizendo isso, levantou-se do sofá onde estava e saiu da sala. Olhei para Roberta erguendo uma sobrancelha; ela, por sua vez, levantou os ombros. Aquela conversa ou o vinho a tinha deixado um pouco corada. Um pensamento tenebroso passou pela minha cabeça: será que Sérgio tinha descoberto a nossa saída da véspera confirmada por algum olhar indiscreto meu durante o jantar? Fosse isso, parecia não se importar, ou disfarçava bem. Sei é que depois de algum tempo, meu amigo voltou com o tal biquíni. Eram duas peças azuis puxando para o verde.

– Não é gracioso?

O sorriso de Sérgio era jovial; não, disse comigo, o homem não estava fingindo, estava me provocando. Ficou em pé de frente a mim e pediu que a mulher se levantasse, Roberta teve um gesto de encabulada, mas ainda assim fez a vontade do marido; este pôs a peça superior sobre a blusa da mulher, que ficou segurando com os dedos as alcinhas e balançou os ombros fazendo uma graça. Então Sérgio voltou a se sentar, e Roberta ficou ali, em pé, entre nós dois.

– E o que é que eu faço com isso? – perguntou a mulher, referindo-se às peças que tinha nas mãos – Não vai querer que eu coloque?

– Claro que sim, amor. Rodrigo vai ver que eu não estava exagerando. Roberta, que estava de costas para mim, virou a cabeça por sobre o ombro e, com um ensaio de sorriso, me perguntou:

– Você quer mesmo que eu coloque?

Olhei apenas para ela na indecisão de um segundo, mas depois respondi simplesmente:

– Gostaria sim!

Imaginei que ela fosse sair da sala, mas, ao invés disso, sempre de costas para mim, puxou a blusa para que saísse pela cabeça. Depois pôs as mãos para trás para desabotoar o sutiã. Suas costas estavam levemente douradas pelo sol da Riviera de São Lourenço. Queria que ela se virasse por um instante para ver aqueles peitos que na noite anterior eu só havia acariciado de leve e por cima da roupa. Roberta não se virou, e eu me contentei com as duas feiticeiras pintas que se moviam no ondear das costas. Quando se voltou para mim, agarrava sobre os seios a parte de cima do biquíni e agora, virando o rosto para o marido, pediu:

– Amarre pra mim, amor.

Sérgio levantou-se e obedeceu. O umbigo sobre a lisura da barriga me provocava e tive vontade de ir lá beijá-lo. Quando o homem terminou de amarrar a parte de cima, voltou-se para o seu lugar e Roberta virou-se novamente de costas para mim. Então ela, continuando, desabotoou a saia na lateral e, forçando um pouco com as mãos, deixou que a peça desabasse pelas pernas abaixo, depois foi a vez da calcinha; abaixou-se para colocar a parte inferior do biquíni e permitiu que eu visse por dois segundos sua bunda que se abriu um pouquinho e uma promessa apertadinha entre as cochas apareceu e sumiu. Roberta acabava de acertar a cintura da peça inferior, quando Sérgio disse:

– Eu não tinha razão, Rodrigo? Ela não fica maravilhosa vestida assim? Roberta tinha agora as mãos na cintura. Lembrei-me que na hora da despedida na noite anterior, ela disse uma coisa que só agora passava a ter um outro sentido. Quando a beijei, segurei e acariciei de leve um seio, e ela respondeu depois de fechar os olhos e fazer com a boca um som aspirado:

– No nosso próximo encontro eu quero tudo.

Ao sair do carro, voltou-se para mim, como se lembrasse de dizer uma coisa, e disse que Sérgio é que tinha lhe dado uma carona até o meu apartamento. Mandou-me um beijo e uma piscadela, e sorriu ao ver minha cara de espanto.

Agora estava ali de costas para mim e bulindo com a minha libido. Esperavam uma resposta minha: ela não é maravilhosa vestida assim?... Eu me levantei então, decidido, fui até ela e tive este gesto, o esperado, abaixei com lentidão a parte de baixo do biquíni até quase próximo ao joelho e disse:

– Eu prefiro assim.

E voltei para o meu lugar, menos para olhar a apetitosa bunda de Roberta que a reação que teria seu marido. Sérgio riu da minha afirmação e, respondendo ao meu desejo, disse:

– Se prefere assim, aproveite e tire o resto. Isto nos daria uma enorme satisfação.

Então eu me levantei novamente e desatei o que ele havia atado. Fiz um carinho na nuca de Roberta quando a livrei da parte de cima e ela teve um pequeno estremecimento de quem havia gostado. Encostei-me por trás e o que duro latejava sob a calça roçou-lhe o reguinho, e Roberta não se afastou, querendo sentir mais, começou a esfregar a bunda em mim. Depois, mansa como veio ao mundo, tornou comigo para o sofá, e fui tirando a camisa. Eu ainda estava, admito, um pouco cismado com a situação, mas Sérgio com a felicidade no rosto também desabotoou a camisa – o que foi para mim uma espécie de senha: gostava do que via.

Eu e Roberta ficamos, num momento, inteiramente nus e nos acariciávamos, Sérgio, extasiado com x e com s, é que não saía de seu lugar. Qual seria a desse cara? Por um instante imaginei que talvez sua preferência sexual fosse outra, e isso me deixou preocupado, ou talvez aquilo ainda fosse parte de algum plano macabro. Então eu o chamei:

– Venha também, ela é gostosa.

Ele não escondeu o prazer que a frase lhe deu, mas se veio até nós, veio sem muita vontade, só para me tranqüilizar ou agradar. Sérgio beijou Roberta fez uma carícia quase bruta num dos seios. Por um instante tive a estranha sensação de que Sérgio é que era o amante. E Roberta estava adorando aquilo. Será que queria ser penetrada por dois homens? E ela gemeu em resposta à minha pergunta, mas então Sérgio foi deixando o trabalho de gozá-la só para mim e se afastou, discreto, deixando no jogo de ação e suor só nós dois. Beijei aquele corpo e comecei a fazer outros carinhos mais ousados. Havia uma coisa comigo que era parte do prazer, tinha vontade de me mostrar poderoso, de dizer bobagens para o Sérgio, de dizer: “Olha, como eu como gostoso sua mulher!”. E ela gemia também se pelando de prazer, queríamos prolongá-lo ao máximo, sentindo e fazendo coisas novas para sentir mais. Houve um momento que Sérgio voltou para a transa a três, mas o homem só se aproximou novamente para nos juntar ainda mais, levantou a cabeça da esposa e ajudou-a, como se ela precisasse de ajuda... doutora! Então Sérgio se afastou de nós outra vez. Eu agora estava tão voltado para minha amiga, que me esqueci logo dele. Imaginei que tivesse retornado para o sofá onde estava antes, mas depois notei que não, simplesmente havia saído da sala. Roberta é que era só ela, quase sempre de olhos fechados e com movimentos ondeantes. Mas este foi para mim um momento de apreensão: onde tinha ido Sérgio? Ainda não estava convencido de que não corria perigo. Foi aí que percebi que o marido não tinha ido a lugar nenhum, estava atrás da porta, olhando pela frincha. Então era isto! Olhe, doutora, eu juro que nunca tive essa fantasia antes e nunca voltei a fazer coisa do tipo depois, mas naquele instante, ainda que eu estivesse sentindo muito tesão, a adrenalina era enorme, mas alguma coisa não estava bem com aquele prazer consentido. Por um instante, se é que algum pensamento podia surgir naquele instante, pensei que Roberta ainda era a mesma de há oito anos quando disse: sou casada; e a sensação que tive era de que ela ainda agora estava sendo fiel ao marido. Isto tomou forma em mim de uma certeza e foi então que senti uma perversa vontade de provocar aquele homem. As costas do sofá era um macio estofo, coloquei Roberta ali de bruços, as pernas levemente abertas, uma delas dobrada sobre o braço do sofá. Abaixei-me, fiquei ali meio ajoelhado diante daquela bunda a que eu agora podia me dedicar completamente, afastei com minhas mãos as nádegas da esposa do meu amigo, segurei-a assim, o vale aberto de delícias. Contemplei aquela primorosa, deixe-me falar, doutora, aquela primorosa bocetinha, me chamando, pedindo que minha boca se afundasse naquela fenda, comecei a lamber, a sugar, e lambuzei todo contorno e o seu cobiçado vizinho. Roberta se deliciava, sentia que, de quando em quando, todos os músculos de seu corpo se contraíam e se relaxavam. Para que nenhum dos dois se precipitasse a gozar, fazíamos os movimentos mais lentos, num dado instante, disse em voz alta para que Sérgio escutasse, ele, que nos olhava pela frincha:

– Essa mulher é uma delícia.

Então me ergui e me dobrei por cima de Roberta e disse só para ela ouvir:

– Quero algo só meu.

Ouvindo isso, Roberta, debruçada sobre o sofá, levou as mãos atrás e afastou ela agora as nádegas e generosa me ofereceu o que dizia com o gesto, verdade ou mentira, que me dava o que nunca havia dado ao marido. Estávamos ali no mel do melhor quando fiz o que considero a minha mais sublime maldade, puxei Roberta e deslizei com ela para trás do sofá. Sérgio deve ter ficado louco porque não conseguia mais nos ver. Num certo momento ainda levantei Roberta um pouco para que o homem visse por um instante apenas como sua mulher estava gostando. Foi um delírio. Gozamos, mas gozamos mais, eu e Roberta, penso, porque Sérgio não nos viu gozando. Mas, enfim, o certo é que todos nós gozamos.

Rodrigo acabou sua estória, acrescentado que não foi à casa da praia no final da semana seguinte, que felizmente as importações se abriram e a amizade com o casal continuara apenas no nível de amizade muito frouxa que com o passar dos meses se esvaiu por completo. Mas, doutor, eu deveria dizer, como Rodrigo disse outras vezes, que a estória começa aqui. Ouvi tudo isso e estava com a garganta seca ou, para falar num linguajar dele, patinando na calcinha.

– Você pode até duvidar, doutora, e achar que tudo isso é apenas uma projeção do meu desejo? Mas eu digo que tudo aconteceu como contei, ou então eu também sou uma projeção do seu desejo.

Rodrigo era um analisado que sempre resistiu em usar o divã, falava e me olhava, eu estava excitada, e sabe de uma coisa, doutor, eu não me importava. Naquele instante eu não me importava em saber que a porta ao lado era o consultório do meu marido. Abri de leve as pernas pedindo que a mão de Rodrigo se enfiasse por elas. Ele compreendeu o meu desejo, a verdade era esta, eu queria que ele me comesse. E ali no divã ele me despiu e nós trepamos. Foi antiético, não foi, doutor? Mas não importa, eu gozei com Rodrigo e não precisava de nenhum consentimento de Luca. Eu comecei a me apaixonar por aquele homem e por suas estórias. Ele vinha toda semana e me contava uma estória e nós trepávamos; agora faz duas sessões que ele não aparece, doutor; eu o amo e sinto tanta falta!



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