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Imitar a "realidade" — e questionar seu valor...

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Em Waltz With Bashir, Ari Folman usa animação para narrar episódio da história de Israel. Mas não retrata fatos, e sim memórias e sonhos — até o surpreendente final. Artifício traz à tona questões instigantes. Há documentário "objetivo"? Pode-se enxergar o mundo sem as lentes do que somos?

Bruno Carmelo - (02/08/2008)

No Festival de Cannes, Waltz With Bashir foi considerado o primeiro “documentário em animação”. Pode parecer absurdo, à primeira vista, mas o filme trata de um período histórico de Israel com detalhes, nomes reais e personagens que de fato teriam existido.

Mesmo os depoimentos, marca registrada da “verdade filmada”, são utilizados. A diferença é que as pessoas filmadas foram transformadas em animações realistas (Waking Life vem à mente), com suas hesitações e pequenos gestos, enquanto o som da maioria das falas foi mantido intacto. Até aí, nada de novo: simplesmente uma animação a partir do material real.

Mas a inovação proposta pelo diretor Ari Folman não vem dos depoimentos, mas do caráter de reconstituição: ao invés do material de arquivo (fotografias, vídeos, artigos de jornal), que normalmente serve para consolidar a tese do documentário, a ficção animada transforma em imagens as memórias dos entrevistados. Ironicamente, enquando o material documental serve para apresentar a objetividade do fato, Folman usa seu “material de arquivo fictício”, de modo a assumir claramente a subjetividade dos relatos.

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" A diferença é que as pessoas filmadas foram transformadas em animações realistas"

Deste modo, cada depoimento ganha sua reconstituição tal qual, ou seja, tão subjetiva quanto foi dita. Enquanto um fala de seu sonho no qual era perseguido por 26 cães, vemos a imagem dos animais ferozes à sua espreita; enquanto outro lembra de ter “atirado sem parar”, vemos metralhadoras que literalmente funcionam incessantemente; e mesmo a “valsa com Bashir” corresponde ao momento em que um soldado atira entre as balas, e “dança” entre as fotografias do líder libanês.

Registra-se as sensações. A fidelidade volta-se à memória, não à história. Nada é confirmado, mas cada lembrança é aceita como verdade absoluta. O cineasta busca uma versão

A ilustração, portanto, não é feita a partir do fato, mas da memória. A ingenuidade de se animar os relatos “ao pé da letra” confirma a vocação do filme para se tornar um documentário sensorial, ao invés de factual. Registra-se, neste caso, as sensações; conseqüentemente, não há a precisão de estatísticas e datas. Aqui, a fidelidade se vira à memória, e não à história.

E nem poderia ser diferente. As pessoas entrevistadas (todas por um cineasta animado, claro alter ego do diretor) têm grande dificuldade em se lembrar com precisão dos acontecimentos de vinte anos atrás; de modo que o protagonista vai, ele mesmo, rodar a Europa através de antigos companheiros de guerra que lhe preencham os buracos na memória. Nada é confirmado, mas cada lembrança é aceita como verdade absoluta. O que o cineasta busca, de fato, é uma versão da história.

O engajamento desta animação com fins pacifistas (daqueles que afirmam que toda guerra é injustificada) remeteu a crítica a Persépolis, filme de 2007 que também chamou atenção em Cannes. A diferença básica, no caso, é que este último filme, de Marjane Sartrapi, continha um otimismo virado para o futuro (a visão da criança, a lição que a protagonista levaria para o resto de sua vida), enquanto o filme israelense volta-se ao passado de modo nostálgico, sem propor reflexões a respeito do futuro – isso porque sua mensagem de paz é atemporal e não se prende a uma guerra em particular. Persépolis parecia mais engajado com a política; Waltz With Bashir é engajado com a moral.

No fim, é como se Folmam tivesse voltado ao real. Ou como se dissesse: "caso vocês não tenham entendido a seriedade do que eu estava dizendo, olhem só isso"...

O final nos apresenta uma surpresa: de repente, logo após vermos pilhas de corpos animados, um corte nos direciona bruscamente para imagens de arquivo reais, com os verdadeiros corpos ensangüentados pelas ruas da cidade. O impacto é considerável: a câmera se aproxima, tremendo, no intuito de reforçar o horror da cena.

O constraste ficção-realidade funciona, primeiro, para atribuir credibilidade ao massacre animado e, metonimicamente, a tudo que precedeu o filme. Se mesmo para a cena mais forte o diretor possuía o duplo “real” para mostrar, então todas as outras memórias subjetivas também são, de certo modo, justificadas. Atribui-se um selo de “verdade” que o filme não fazia questão de apresentar até então.

Ao mesmo tempo, pode-se pensar na possível insegurança do próprio Folman em relação à transmissão de sua mensagem, razão pela qual ele teria voltado ao real. “Caso vocês não tenham entendido a seriedade do que eu estava dizendo, olhem só isso”, parece nos dizer o diretor. De fato, o choque da imagem filmada é muito superior ao da imagem animada.

Tanto que fica a questão: por que usar desse suporte inegavalmente belo e fictício se se recorre, no fim, à feiura do real? A animação seria capaz de transmitir a realidade, de ter o impacto de imagens reais? Uma animação, por fim, pode ser documentário? E acabamos voltando à pergunta inicial. A julgar por Waltz With Bashir, poderíamos dizer que não.

Mas talvez a questão não seja entre animação e documentário, mas entre ficção e real ou, mais ainda, entre subjetividade e objetividade. Ainda se cultiva a crença na verdade como intocada pelo homem, e por isso a idéia do bom documentário como aquele em que se “liga a câmera e se deixa acontecer”. A intervenção humana é curiosamente indesejada quando se trata de realidade — e justamente por isso a animação, suporte que passa por uma construção total a partir do zero, parece incoerente com o mundo lá fora; enquanto montes de cadáveres reais, eles sim, têm mais peso verídico do que uma hora e meia de bela criação.

Waltz With Bashir (2008)
Filme franco-germano-israelense de Ari Folman.
Com Ari Folman, Ori Sivan, Ronny Dayag.
Duração: 1h27.

Confira as fotos do filme:

Fotos

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

Adoção, comércio e poesia
Ao retratar o assalariamento de famílias adotivas, Foster Child expõe abismo social e alienação nas Filipinas. Mas o faz sem esquecer os laços de ternura que unem os pais de aluguel a seus filhos temporários, num sinal de que pode persistir humanidade, em meio ao que é precário ao extremo

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