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LITERATURA

Jornada antiépica

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Na saga de Serapião Filogônio encontramos ecos de aventureiros arquetípicos, como Odisseu e Enéas

Antonio Carlos Olivieri - (08/08/2008)

Escrito há cerca de 40 anos, só agora vem a público este O quase fim de Serapião Filogônio (Ateliê Editorial, 142 págs.), de Jonas Rosa, quando seu autor já adentra a provecta década dos 90. Nem por isso o livro perdeu em jovialidade, atualidade e modernidade – e elogiá-lo não é mera reverência à idade do autor. Sua leitura surpreende e agrada. Está-se diante de um memorável relato ou rapsódia, talvez, na definição que Mário de Andrade deu a Macunaíma. De qualquer forma, é preciso respaldar objetivamente esses juízos de valor, para que a crítica não só evidencie os méritos da obra, como também faça jus a eles. Vamos lá.

Desde seu título (“quase fim”) a narrativa deixa claro que apresentará ao leitor um processo, algo que não se encerra ao final do texto, no caso, a jornada do personagem-título que, falido, deixa sua cidade em algum lugar no interior do país e sai à procura de emprego para garantir seu sustento e o da família. No caminho, passa pelas humilhações e necessidades conhecidas por quem está sem dinheiro no bolso, ao mesmo tempo em que encontra variados tipos humanos, todos eles muito ímpares, particulares, até decidir-se a tentar a sorte nas duas maiores cidades do Brasil, acabando por se fixar em São Paulo.

Dessa síntese, pode-se pensar que se está diante de uma narrativa que trata de trivialidades, mas é justamente aí que as surpresas começam a se suceder. Serapião Filogônio, conquanto vagamente aparentado com os retirantes do romance regionalista, está ligado principalmente a outros viajantes. É inegável que, em sua saga, se encontram ecos de aventureiros arquetípicos, como Odisseu e Enéas; que, enquanto homem brasileiro, Serapião vive, em certa medida, a epopéia de sua própria raça, sendo assim um herói de sua gente (nada tem, contudo, de macunaímico; prima pela moralidade).

Por outro lado, também se encontram em Serapião traços de outros viajantes, mais contemporâneos, como o protagonista do romance beat, de Kerouac, e, mais ainda, como o Josef K. , de O processo, na medida em que Filogônio se depara com um mundo que lhe é alheio e hostil, porque as coisas nele não fazem muito sentido. Aliás, dado o caráter memorialístico subjacente à narrativa, Serapião evoca também o protagonista de A trégua, de Primo Levi, em sua peregrinação pela Europa do Leste em ruínas, após o fim da Segunda Guerra. Em suma, trata-se de um peregrino cujo destino é menos importante do que o caminho que percorre – o qual, sim, é feito pelo próprio caminhar.

Desse modo, o epos da jornada de Serapião Filogônio é também sua própria antítese, jornada antiépica percorrida por um anti-herói de um mundo tão anti-heróico quanto prosaico. Nessa tensão, creio, residem a atualidade e a modernidade da narrativa de Jonas Rosa. Entretanto, não se esgotam aí os encantos do texto. Ao contrário, talvez o que cause mais impacto na leitura não seja somente seu diálogo (intencional ou não) com outras grandes obras literárias.

Um final sem conclusão

É enorme a força poética e a originalidade das reflexões do narrador, principalmente porque elas irrompem em meio à trivialidade dos eventos narrados, revelando-lhe então seu caráter extraordinário. Um breve trecho pode ser transcrito aqui para exemplificar o que digo:

Perambulando, (Serapião Filogônio) guiou-se por alguma cousa. Alguma cousa guiava-o ou tangia-o. O homem está sempre guiado ou tangido. Onde está o indivíduo livre e feliz? Tange-o o patrão, o governo, a miséria, o pecado, o ideal de pureza, a idiotice ou a genialidade. Tange-o a perfeição ou a tara. Um monge estigmatizado, nos êxtases sobrenaturais do seu misticismo, é tangido pela mesma força, apenas em sentido contrário, pela mesma força que tange o sádico que espanca e tenta violar uma menina. A diferença está apenas em que o monge se inebria da diafaneidade divina e o tarado banqueteia-se de fezes na cloaca de sua alma.

O raciocínio e as imagens que o articulam são, no melhor sentido, desconcertantes. Aliás, é desconcertante também o uso que o autor faz da linguagem (em especial no nível vocabular), e das imagens que ele evoca. Veja-se outro trecho notável, que se refere à imagem de um pescador, num quadro na parede do quarto onde o protagonista se encontra e que lhe recorda o velho de The old man and the sea, de Hemingway:

O velho, só, com suas feras marinhas, na imensidade salobra, era bem um timoneiro do mundo. E se ele quisesse, com um movimento de seu leme, mudaria o movimento de translação da Terra. Mas era um velho ajuizado, um mago indulgente, um bom feiticeiro telúrico, e não quer tumultuar a Ordem Universal. Quer apenas comboiar o seu peixe, o seu troféu, o seu viático, contra a urucubaca que o persegue. A visão dilui-se aos poucos, lentamente. Primeiro apaga-se a parte inferior do corpo. Depois o resto, ficando, no entanto, o rosto e os olhos citríneos.

Enfim, no nível das personagens, a narrativa traz ainda outros pontos positivamente agradáveis, capazes de seduzir definitivamente o leitor. Dentre os vários tipos com que Serapião se defronta, causam sensação o “Catão Tupiniquim” e o homem que o escuta, a preta Universina (com quem Serapião vive um affaire em que se mesclam paixão e angústia), a velha Flora (que não deixa de fazer um contraponto à anterior), ex-escrava que é modelo de sabedoria e dignidade, e um anônimo que tem uma fantástica teoria sobre o tamanho (físico) dos homens e a fixação por altura que se impôs à sociedade contemporânea.

Há ressalvas a se fazer em O quase fim de Serapião Filogônio? Poucas. Uma, talvez, mais grave. O final é um tanto abrupto e não deixa de parecer meio aleatório, como se o autor – uma vez que se propôs a narrar um quase fim – não se importasse muito em terminar com uma conclusão propriamente dita. Ao mesmo tempo, não deixa de permanecer uma dúvida quanto a isso: será que essa aparência de texto inacabado não é, alegoricamente, o final mais adequado à jornada de Serapião Filogônio e àquilo que ela representa?



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